Movimentos alertam para impactos ambientais com a construção de um porto no Encontro das Águas

Manaus (AM)A necessidade urgente de homologação do tombamento do Encontro das Águas como patrimônio cultural e natural da Amazônia foi reforçada durante o webinar realizado nesta quarta-feira, dia 24, pelos movimentos Ficha Verde, SOS Encontro das Águas e Fórum das Águas. Além disso, também foi debatido sobre a possibilidade de construção de um porto de descarga na região do encontro dos rios.

Os participantes e palestrantes foram o deputado federal e membro do Fórum das Águas, José Ricardo, o doutor em Ciências Sociais em Desenvolvimento Agricultura e Sociedade CPDA/UFRRJ, André Bazzanella e a membro do SOS Encontro das Águas, Elisa Wandelli. Teve ainda mediação da membro do Ficha Verde, Luciana Valente, e participação do poeta e músico, Celdo Braga, que declamou o poema “Encontro das Águas”, do escritor e poeta, Quintino Cunha, que faleceu em 1943.

MANAUS, AMAZONAS 20/03/2021 – O Fórum das Águas, em parceria com outros movimentos como o SOS Encontro das Águas realizou no Porto do Ceasa, localizado na Zona Sul de Manaus, um ato público em prol do tombamento do Encontro das Águas e contra o Porto das Lajes, que pretende construir um porto de cargas na região, prejudicando o meio ambiente e a vida das pessoas que vivem no local. FOTO: AGUILAR ABECASSIS.

O deputado José Ricardo, que participa de mobilizações sobre o assunto há mais de 10 anos, vereador de Manaus na época, informou que é a favor da construção de um porto, porém, desde que não seja construído na região do Encontro das Águas. Ele defende que o local deve ser apenas explorado na questão turística, atraindo investimentos e apoiando economicamente os moradores da região.

“A defesa do tombamento do Encontro das Águas é uma pauta pela vida. Já houve uma grande mobilização sobre o assunto e também amplo estudo sobre as consequências e o impacto ambiental que podem gerar com a construção do porto na Ponta das Lajes, na região do Encontro das Águas. Muito foi falado, principalmente o setor empresarial falou sobre a necessidade de ter mais um porto em Manaus. Falaram que não vai gerar impacto e que vai atrair mais empregos para cidade. Mas, acredito que vários desses itens não foram comprovados. Não tenho dúvida de que Manaus precisa de um novo porto, mas temos que trabalhar a preservação do Encontro das Águas e temos que continuar lutando pelo tombamento”, disse o parlamentar.

Já André Bazzanella, que participou de todo estudo técnico em prol do tombamento, informou que a região do Encontro das Águas tem uma série de valores agregados, tem sítios arqueológicos e paleontológicos que são relevantes para o entendimento da formação da Bacia Amazônica. Segundo ele, o local é um testemunho de um período histórico, é uma grande referência ribeirinha com mais de 10 mil lendas que acontecem na região e é um ponto de encontro de várias culturas.

 “O tombamento preserva a experiência humana em determinado território e tem uma série de outros valores agregados. É uma referência para o bioma amazônico e para o Norte. É uma síntese de tudo isso e com tudo o que se formou naquela região. Essa complexidade do Encontro das Águas faz com que ele seja único. É um conjunto complexo de bens e significados. Os navios parados em um porto no Encontro das Águas vão gerar consequências e uma série de danos”, comentou Bazzanella.

Uma das grandes defensoras do tombamento e membro do movimento SOS Encontro das Águas, Elisa Wandelli, agradeceu a todos que há 11 anos lutam pela homologação do tombamento. “O Encontro das Águas é a nossa maior indústria, alimenta nossa indústria do turismo, tem muita biodiversidade da nossa fauna aquática e terrestre e é muito rico. Lá, tem símbolos rupestres de todos os povos da Amazônia, é um berçário da vida aquática, local que recebe aves migratórias, local de geologia única. Enfim, a diversidade é muito grande na região”, disse.

Ainda segundo ela, com a construção do porto, haverá um intenso fluxo de embarcações grandes, que pode prejudicar o meio ambiente e as populações que lá vivem. “Por isso, defendemos um processo contínuo de sensibilização para que tenha a homologação do tombamento. Também precisamos de um plano de gestão de todos os órgãos envolvidos, com projetos de sustentabilidade, manejo de pesca, agroecologia e agroflorestal para as populações ribeirinhas. Precisamos de projetos soberanos que vão levar sustentabilidade para os povos da região. Propostas que trabalhem seu potencial local e a indústria do turismo. Fazemos um clamor para que todos os parlamentares nos ajudem urgentemente com isso. A água tem que ser para vida e não para a morte. Por isso, dizemos não à instalação de mais indústria e de um porto no Encontro das Águas. Temos que colocar essa luta numa escalada internacional, para que seja recuperado, preservado e para que as populações de lá tenham uma qualidade de vida”, afirmou.

A mediadora do webinar, Luciana Valente, relembrou a questão do conflito social e das ameaças que alguns moradores da região sofreram por defender o tombamento. Ela também falou sobre as ações que estão no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o tombamento.

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