Cinco tipos de manipulação mais usados pela imprensa na pandemia

Manipular números é uma tarefa impossível para jornalistas militantes por desconhecimento de operações matemáticas. As estatísticas, no entanto, prestam-se a inúmeras manipulações com o intuito de gerar medo. A distorção do contexto de um número pode se tornar quase imperceptível para o leitor comum e os jornais têm aplicando o “golpe” na chamada “pandemia de covid 19”.

As inúmeras restrições políticas e sociais vêm sendo implantadas sobre o alicerce do medo e da insegurança promovida pelas notícias.

Cinco principais manipulações dos jornais nesta pandemia:

1- Confundir ocorrência com notificação

Esta é de longe a mais praticada das pegadinhas jornalísticas da pandemia. Trata-se de noticiar o ritmo de diagnósticos confirmados em mortos como se estivesse noticiando o ritmo de mortes diárias. Baseia-se na confusão proposital entre mortes por data de notificação e mortes por data de ocorrência.

Este tipo de manipulação ficou consagrado em notícias como: Governo registra 1.239 mortes nas últimas 24 horas. Ou ainda: Mais de 1500 mortes registradas num único dia (!). Onde está o erro?

O leitor desatento (a imensa maioria) não percebe que o verbo da frase não é morrer nem ocorrer, mas registrar. A notícia dizia que o governo havia registrado como covid mortes que já ocorreram ao longo de diversos dias. Esse registro só pode ser feito após o resultado dos testes, que levam alguns dias. A notícia sobre mortes registradas é publicada após a divulgação de boletins do governo com a inclusão dos novos casos.

A principal discrepância aí está na diferença entre as mortes por data de notificação e as mortes por data de ocorrência.

Ao perceber as distorções que estavam ocorrendo, o Ministério da Saúde chegou a mudar o modo de exposição de dados e oferecer o gráfico de ocorrência das mortes, o que foi solenemente ignorado pelos jornais. Pior: os jornais ainda acusaram o governo de tentar manipular para ocultar mortes. É mole?

Mas é pelo gráfico de ocorrência das mortes que podemos perceber quando foi o pico de mortes diárias, ocorrido no dia 14 de maio. Depois disso, as mortes diárias começaram a cair e não pararam mais. Este era o medo dos jornais: dar a chance de tranquilizar as pessoas.

Se por um lado os números de mortes por ocorrência levam mais tempo para confirmar, por outro ele dá uma noção mais clara e realista do ritmo e da letalidade da doença simultaneamente. Mas por algum motivo, essa preocupação esteve quase ausente na cobertura da pandemia.

2 – Privilegiar “casos” em detrimento de mortes

O número de “casos de covid” não é tão grave quanto mortes. Porém, quando o jornalismo põe uma informação antes da outra, o leitor interpreta como mais importante e mais grave.

No jornalismo, a vida humana é um valor-notícia. A morte vem sempre em primeiro lugar nos títulos e manchetes, assim como no critério de destaque de um veículo. Se o número de mortes é alto, tanto mais atenção merece. No entanto, em alguns momentos os jornais optaram por noticiar os casos antes das mortes nos títulos. Exemplos como: “com 1.400 casos e 300 mortes…”, pode parecer uma inversão boba ou irrelevante, mas outros exemplos no jornalismo mostram o quanto isso é revelador.

Um acidente de ônibus em que morrem 4 pessoas e resulta em 40 feridos, por exemplo, a ordem dos fatos noticiados é muito evidente e não há outros motivos (interesses?) em inverter essa ordem. Como dissemos, a vida humana é valor-notícia e tem privilégio em qualquer manchete.

Mas o critério de valor-notícia, neste caso, foi modificado. Não é mais a morte das pessoas que tem privilégio de informação, mas o número mais alto, que neste caso é o dos contágios. Após uma cobertura que já assustava pelo crescente número de mortes, só uma coisa pode manter o estado de pânico: o aumento do contágio mortal.

Esta tática de manipulação sensacionalista foi ainda mais necessária quando por algum motivo o número de mortes começou a cair, o que aconteceu primeiro na Europa e já começa a ocorrer por aqui. Se números baixos não vendem jornais, números altos fazem bem mais do que isso: justificam medidas, agendas e confirmam crenças presentes nas ideologias daqueles que financiam a independência do jornalismo tradicional.

Além do mais, os números de casos quando não acompanhados de mortes, representariam, na verdade, uma boa notícia, pois isso reduziria a taxa de letalidade da doença e aponta possível queda. Mas ninguém vê como positiva uma notícia dada com um tom sensacionalista de quem está narrando o apocalipse.

3 – Casos acumulados x casos ativos

No dia 18/09/2020, o G1 deu a seguinte manchete: “SC tem 204 mil casos de coronavírus, com 2.627 mortes“. De início, tem-se a impressão de que o número 204 mil é de casos ativos, já que a manchete escolheu o verbo no presente. Mas se trata de casos acumulados. Para que serve informar os casos acumulados se neles se incluem até os recuperados, já fora de perigo?

Esta informação não é apenas absurda. Ela é inútil, pois nada diz sobre o estágio atual, último, da pandemia, o que em tese é o objeto do jornalismo, a atualidade. Mas a escolha de confundir mais do que informar não é à toa.

A intenção é fazer o acumulado se passar por caso ativo, isto é, que as pessoas pensem que há 204 mil pessoas contaminadas andando pelas ruas. Essa é exatamente a imagem buscada pela manchete, o que após uma cobertura centrada nas mortes diárias produz óbvia sensação de medo.

O objetivo de confundir fica confirmado pelo fato de que em nenhum momento da matéria o número de 204 mil foi contextualizado com a expressão “desde o início da pandemia” ou algo do tipo. O tempo todo os números são apresentados como um dado presente e concreto, que demanda profunda e grave preocupação.

A verdade, porém, está completamente ausente da notícia

De acordo com uma fonte da Secretaria de Estado da Saúde, em Santa Catarina, se descontados os recuperados, o número de casos ativos da doença no momento da reportagem era de menos de 7 mil.

4 – Números absolutos e as mortes acumuladas

Outra prática comum e profundamente enganosa é recorrer ao número acumulado de mortes desde o início da pandemia, o que naturalmente cria uma sensação de progressão indefinida da emergência sanitária. Na verdade, o número absoluto não tem qualquer outra função, como observam especialistas em saúde pública. Como ninguém irá ressuscitar, as mortes sempre aumentarão.

Importa muito mais o ritmo dessas mortes, a ocorrência diária delas, do que o número absoluto desde o início. No entanto, o uso desse número foi generalizado nos jornais e o recurso de uma contagem diária de corpos nas páginas dos jornais contribuiu em muito para o aumento de doenças psiquiátricas, isolamentos sociais desnecessários e profundos problemas sociais. Mas pelo menos a atenção aos jornais aumentou consideravelmente.

5 – Ocupação de leitos de UTI

Recentemente, o jornal Notícias do Dia, de Florianópolis, noticiou que o Estado tinha “dois hospitais lotados”. Um deles era o Centro de Pesquisas Oncológicas (Cepon), que atende só pacientes de câncer. Nenhum caso de covid usava os leitos de UTI do Cepon, mas a lotação dos leitos foi usada para ampliar a sensação de emergência e temor nos leitores.

A matéria “UTI de Santa Catarina está ocupada em 62% com dois hospitais lotados” se refere à ocupação de UTIs, genericamente, em todo o Estado e não somente de covid, o que por si já induz ao erro. Segundo dados do governo estadual, entre confirmados e suspeitos de covid, a taxa de ocupação é de 37%, informação ausente na matéria.

E a taxa de ocupação, em torno de 62%, foi naquele momento uma das menores dos últimos anos. A mesma fonte da secretaria da Saúde informou que, fora do tempo de pandemia, embora houvesse menos leitos, a taxa de ocupação não baixava de 80%. Há inclusive estudos que recomendam não baixar muito desse patamar, pois há o risco de desperdício de recursos públicos, enquanto o aumento da ocupação acarreta o risco de superlotação.

*Com informações do site www.estudosnacionais.com

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