O Retorno de Mary Poppins: melhorando um clássico

Hollywood está numa fase de produção de “reboots/sequências/spin-offs” como nunca se viu antes. E a Disney, dona de um catálogo invejável de grandes clássicos musicais de contos de fada e narrativas infantis, vem sabendo explorar sua cota nessa “nova onda”, propondo novas abordagens de seus clássicos, para as novas gerações.

Mary Poppins foi uma dessas personagens, que viriam a ficar mundialmente conhecidas muito mais pela adaptação fílmica da Disney do que pelos livros nos quais a mesma se originou, escritos por P.L. Travers.

A proposta deste novo “O Retorno de Mary Poppins” é semelhante estruturalmente ao do primeiro “Alice” de Tim Burton, bem como o de outras produções como “Star Wars: o Despertar da Força” e “Jurassic World”, por exemplo: tentar ser um misto de sequência e remake; e semelhante tematicamente ao filme anterior da companhia, “Christopher Robin: um Reencontro Inesquecível”: lembrar aos adultos como é ser criança.

E mais delicado do que retrabalhar contos como os de Cinderella e Mogli, o Menino Lobo – migrando suas concepções da animação para o live action – encontrando, em grande parte, na própria mudança de linguagem visual, a relevância dessa revisitação, é retrabalhar um filme icônico com a mesma abordagem – um live action que tem algumas interações com animação – e essência, e ainda conseguir superá-lo. Foi o que acredito que esse novo filme conseguiu fazer.

Ao rever o filme original poucos dias antes dessa estreia, pude perceber certas características que me agradaram mais neste novo.

1. A babá mágica

No filme original, Mary Poppins tem uma personalidade extremamente arrogante. Para minha própria surpresa, que não lembrava de quase nada do filme original, cheguei quase a antipatizar com a Mary Poppins de Julie Andrews, que era bastante petulante e mal-humorada. Foi bem estranho ver uma babá tão ríspida chegar sem mais nem menos na casa dos Banks, e praticamente se autonomear a babá dos meninos.

Já a Mary Poppins de Emily Blunt é igualmente rígida e irônica, porém bem mais educada e carismática.

Apesar de ser uma total desconhecida da família Banks, a Mary do filme original praticamente coage o senhor Banks a aceitá-la, de maneira altiva e deselegante, o que é bem problemático. Já a Mary de Emily Blunt chega a pedir permissão para cuidar dos meninos (o que seria o mínimo a se esperar!!!) A nova Mary já me ganhou aí.

A primeira Mary apresenta outro problema: ela se comporta de maneira passiva ao longo de suas aventuras, sendo sempre convencida pela influência do artista de rua Bert (o inspirador Dick Van Dyke), demonstrando muito descontentamento no início.

Já a nova Mary é protagonista das próprias imersões imaginativas. É sempre ela própria que tem as ideias que levam as crianças e o próprio lumieiro Jack (o equivalente ao personagem de Dick Van Dyke) ao mundo mágico. Em nenhum momento, a nova Mary parece não estar se divertindo nas viagens imaginárias, ao contrário da primeira. A nova Mary fica sempre eufórica nas cenas musicais.

Bert é um personagem mais interessante do que a própria Mary, no filme original. Não se pode dizer o mesmo sobre Jack no filme novo. Jack é carismático, mas nunca ofusca Mary, além de ter uma performance mais modesta.

2. A Família Banks

No filme original, o senhor e a senhora Banks são tão ausentes da vida dos filhos que chega a ser desanimador, por mais que essa tivesse sido a intenção do roteiro. Não vemos muitas interações diretas entre pais e filhos.

Já no novo filme, está bastante claro que Michael Banks e sua irmã Jane Banks amam as crianças, mas estão muito imersos nas preocupações do cotidiano adulto, o que os faz desbotar sua percepção lúdica da vida.

Michael vive preocupado com as despesas e Jane faz manifestações sociais, ecoando a profissão de bancário e a de militante feminista do senhor e da senhora Banks, respectivamente, do filme anterior.

A primeira sequência do novo filme já mostra uma câmera em movimento que passeia pela casa dos Banks mostrando a interação entre todos na casa. No filme original, víamos frequentemente George e sua esposa separados das crianças.

3. Narrativa

No primeiro filme, houve vários momentos em que me vi confuso, com muitas sequências musicais que pareciam totalmente gratuitas, sem nenhuma consistência narrativa.

Já no filme novo, cada sequência musical possui uma relação com os problemas que acontecem na família Banks, e incorporam-se de maneira mais orgânica à narrativa.

Com uma cenografia mais rica e uma melhor composição de planos e ações dos personagens, as novas sequências músicas são mais contagiantes e menos nitidamente coreográficas.

Ah, e aqui temos um vilão bem delimitado na história, representado pelo excelente Colin Firth.

4. Música

O filme possui um catálogo totalmente novo de canções, e apenas insere as canções do antigo como músicas extradiegéticas de fundo instrumental, proporcionando uma homenagem ao legado do original e deixando aquela pitada de nostalgia sempre presente.

5. Surpresinha no final

No final do filme, há um gancho que nos faz perceber como o filme original está conectado a este.

A participação especial de Dick Van Dyke como o senhor do banco é emocionante. Vê-lo dançar com euforia, mesmo com seus 90 e tantos anos de idade, é incrível, e um brinde de fan service sem igual.

Apesar desse elemento se encaixar eficazmente, não chegando a atuar como um Deus Ex-Machina, este novo filme encontra muito mais relevância como remake do que como sequência.

Sem dúvida, este é o ápice de qualidade dentro do filão de remakes da Disney, que demonstra mais do que nunca uma preocupação ímpar, nessa década, em tratar seus longas com atores com o mesmo esmero de seus longas animados. Esta obra é o clímax do movimento de planejamento da empresa que começou com “Alice no País das Maravilhas” em 2010.

“O Retorno de Mary Poppins” nitidamente consegue corrigir os problemas do filme original, otimizando a relação entre os personagens, bem como as sequências musicais, que são não apenas tecnicamente superiores como também visualmente mais inventivas.

Com uma Mary Poppins mais alegre e encantadora desse jeito, nem tem graça se o Oscar do ano que vem não tiver a indicação de Emily Blunt à melhor atriz.

O filme não tenta copiar o original, mas sim dar uma nova roupagem ao que este representou, conseguindo não só honrá-lo como também melhorar sua personagem e sua história. Precisávamos mesmo de uma nova Mary Poppins, que, de fato, fosse tão supercalifragilitecexpialidoce!!!

Fábio Reis é graduado em Design Industrial pela UFAM

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