Aquaman: De Zero a Herói

O herói subaquático da DC ganha seu filme solo, dando-nos uma nova percepção acerca dos rumos que o Universo Cinematográfico DC irá tomar a partir de agora.

1. Luz, Câmera… Ação! (E bote ação nisso…!)

Convenhamos, a história do filme do nosso querido homem-sereio é extremamente genérica. O trunfo da obra é o seu foco nas cenas de ação. Independentemente das nuances da história, a maneira como a ação é conduzida é fascinante.

Absorvendo o jeito marrento do herói, a narrativa se aproveita excessivamente da ação como forma de explorar os poderes de Arthur, visto que, nessa versão, ele é retratado como alguém de Q.I não tão elevado assim.

A mise-en-scene e a coreografia das lutas são muito bem executadas e interação dos atores com os elementos e as criaturas ao redor é de um realismo incrível, mesmo com muito uso de efeitos digitais.

Em muitas cenas, a câmera é estática e acompanha o movimento dos personagens em planos-sequência de tirar o fôlego, como se estivéssemos a ver uma gameplay de um jogo de ação em primeira pessoa.

2. Épico é pouco!

Sem dúvida, temos o filme mais espalhafatoso visualmente da DC. Atlântida é linda de se ver. O aspecto cromado das naves e das construções, e as luzes coloridas inundam os cenários de uma beleza única.

Alguns figurinos podem soar bregas para muitos, mas o filme sabe brincar com seu próprio estilo, tendo uma história com um tom leve e humor autodepreciativo. Aquaman é para a DC quase o que o Thor é para a Marvel Studios.

As criaturas e os reinos de Atlântida são de brilhar os olhos, principalmente na megalomaníaca cena final de guerra. Porém, como o filme não se permite parar para explorar cada um desses reinos em sua narrativa, fica a sensação de “quero-mais”, e o que temos é uma epifania visual, e só…

3. Lacração

Apesar de ser o primeiro filme que marca a nova fase do Universo Cinematográfico DC – sem a influência direta de Zack Snyder – o filme nitidamente herda o estilo operístico do diretor. Se o roteiro traz uma história totalmente despretensiosa e pouco crítica – diferentemente das obras de Snyder – visualmente, porém, James Wan faz questão de que Aquaman apareça sempre em poses triunfantes, tal qual as idealizadas cenas dos primeiros filmes da franquia DC, comandados por Snyder.

A composição dos planos eleva aquele tom de “Batman vs Superman” à centésima potência, o que acabou me dando a sensação de uma necessidade de espetacularização, que podia ter sido um pouquinho mais dosada. É como se a DC quisesse “sambar” na cara da audiência devido à recepção irregular de alguns dos filmes anteriores da franquia e devido ao histórico de judiação do herói dos mares, que se tornou, através de Jason Momoa, uma versão light e aquática de um Conan – com seus ônus e bônus – que precisa lacrar na superforça e nas habilidades de luta para purificar de si aquela imagem clássica mais tosca do personagem, ao mesmo tempo que absorve essa judiação sendo autodepreciativo.

O resultado é um filme cenicamente dinâmico e muito ágil, porém com um roteiro fraco, com diálogos bem simplórios, narrações muito expositivas, personagens concebidos de uma maneira rasa, e uma história mítica que não se diferencia de muito do que já vimos em outras narrativas, com uma conclusão um tanto quanto piegas.

Destaque para a mãe de Aquaman – feita pela incrível Nicole Kidman – e o vilão Arraia Negra – uns dos melhores personagens do filme, além do próprio protagonista. Mera, companheira do herói, consegue ter uma ótima química com ele, e é também um dos pontos fortes da trama.

Algumas vezes, o filme perde o tom e fica confuso na abordagem que quer seguir, entre um humor mais sofisticado para um filme de ação e um humor juvenil. A trilha sonora aproveitada para o filme absorve esse problema; as canções parecem não possuir uma consistência entre si, e não se relacionam muito bem com a trilha instrumental original, que, por sua vez, não tem grandes momentos memoráveis e nem concebe um tema para o personagem, apesar de ser muito bem executada.

Apesar disso, o filme consegue ser extremamente divertido e empolgante a todo momento. Com planos que podem ser emoldurados como quadros, de tão lindos, o filme é esteticamente impecável.

4. E assim caminha a DC…

“Aquaman” abraça de vez o tom despretensioso que “Liga da Justiça” começou. Para quem já gostava do estilo dark e sombrio dos primeiros filmes, como este que vos fala, “Aquaman” representará um pequeno desvio de rota, com menor qualidade narrativa, dentro de um universo cinematográfico que ainda tenta encontrar sua identidade, (ou suas várias identidades).

Para os que detestaram “O Homem de Aço” e “Batman vs Supeman”, “Aquaman” é a resposta mais positiva possível, e uma reação à altura da concorrência da Marvel.

Para mim, “Mulher-Maravilha” ainda é o melhor filme da franquia, que soube equilibrar de maneira magistral ação e comédia, com uma trama bem menos previsível, apesar de alguns clichês inerentes ao gênero.

Agora, resta ter esperanças de que “Shazzam!” irá trazer a redenção para essa nova fase “Pós-Liga da Justiça” da DC.

Fábio Reis é graduado em Design Industrial

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