Freakazoid: um super-herói nada convencional

Em meados dos anos 90, durante o que podemos chamar de um renascimento da animação da Warner Bros., surgiram várias séries animadas que se tornariam grandes clássicos da TV. A Warner tinha basicamente duas linhas de produção: as séries do chamado Universo DC para a TV, com séries como “Superman: A Série Animada” e o icônico “Batman: A Série Animada”; e as séries cômicas, algumas das quais contavam com produção executiva de ninguém mais, ninguém menos que Steven Spielberg.

Da mente lúdica de Spielberg, surge a ideia de tornar absolutamente leve e despretensioso um projeto que originalmente pretendia ser obscuro e dramático, pela batuta de Bruce Timm e Paul Dini, as duas mentes geniais por trás das adaptações animadas dos heróis da DC Comics, que queriam herdar o teor sombrio de “Batman: A Série Animada” para o novo projeto.

Porém, a intenção do mago produtor responsável por E.T. venceu, e dos traços magníficos das mãos de Bruce Timm, surgiu a comédia talvez mais anárquica e non sense dos anos 90: “Freakazoid”.

Recheada de piadas metalinguísticas e absurdas, a série acompanhava as aventuras de um super-herói de pele azul e uniforme vermelho (nada melhor para a excentricidade do herói) que era o alter-ego de um adolescente nerd, chamado Dexter Douglas, que, num belo dia, ao colocar um disquete no drive do seu computador, deixa seu gato acidentalmente apertar uma tecla do teclado, o que gera um curto-circuito e leva o garoto para dentro da dimensão cibernética, fazendo-o herdar super-velocidade e…. uma personalidade fora-da-casinha e conhecimento exacerbado de cultura pop. Seu topete cheio de contornos pontiagudos e brilhos que simulam quase a silhueta de um raio podem representar a insanidade “elétrica” do herói.

Freakazoid tinha toda a postura e carisma que Dexter não tinha, sendo a projeção que o garoto sempre desejou para si, nos fazendo lembrar de outro personagem não menos louco, O Máskara, que era uma projeção exagerada dos anseios reprimidos do tímido bancário Stanley Ipkiss.

Os personagens secundários da série eram hilários. Cosgrove era o parceiro inseparável de Freakazoid, um policial nada empolgado com seu trabalho, que passava a maior parte do tempo comendo rosquinhas, e conseguia, sem mais nem menos, desarmar vilões apenas com um “Pare com isso!”. Steph, a namorada de Freakazoid, é a representação perfeita do que seria uma boneca Barbie, sempre sorridente e simpática na maior parte das situações, e, por isso mesmo, artificial.

O irmão de Dexter, Duncan, é um valentão que sempre judia de seu irmão, mas que o jogo vira sempre que seu irmão se transforma em Freakazoid.

Os vilões eram os mais legais possíveis e são o ponto forte do show. Cerebelo é o típico vilão que sempre tem planos mirabolantes para dominar o mundo, sendo o propósito da série abusar dos estereótipos das aventuras de super-herói para gerar humor. Sua cabeça é um cérebro, ele é basicamente um cérebro ambulante, com membros. Gutierrez também é um vilão clássico, que sempre se irritava com o comportamento bobo de Freakazoid. Outros vilões eram a Dona Rainha Cobra, o Bovino, o Cavernoso e aquele cujo visual é o meu favorito, e nada ameaçador, o Castiçal – um fantasma/espantalho, cuja periculosidade consiste em amarrar pessoas em árvores à noite.

Não podemos dizer que Spielberg não foi brilhante em querer moldar a concepção de Bruce Timm a seu modo, de maneira a ficar mais parecida com o estilo cômico das outras séries que produziu, como “Tiny Toon”, “Animaniacs” e “Pinky e o Cérebro”, porém com uma dose de humor non sense nunca antes vista.

Com histórias que nunca se levavam a sério e uma dose de humor auto-depreciativo que deixaria Thor surpreso, a série parodiava vários filmes e séries famosos, além de personalidades importantes da TV norte-americana. Com piadas entremeadas por cenas live-action em preto-e-branco, além de pedidos de desculpas ao público por “problemas técnicos” e outras coisas do tipo, a série tinha um estilo de humor único.

Por mais engraçada que seja a série já em sua versão original, a dublagem brasileira adaptou muito bem várias piadas, já que havia muitas tão relacionadas à cultura norte-americana que não seriam entendidas por aqui. A dublagem brilhante de Guilherme Briggs conferiu uma nova dimensão ao personagem, com mudanças de voz dependendo da situação e do tom da cena em que o herói se encontrava, além do uso de gírias e coloquialismo comuns da língua brasileira. É hilário ouvir “Animal!” quando Dexter se transforma em Freakazoid, ao invés da tradução literal de “Freak In” e “Freak Out”, ou o urro de empolgação do personagem, “Utererê!”, além de se utilizar de oportunidades da nossa língua para fazer diálogos engraçados ficarem mais interessantes, como utilizar o aumentativo “cabeçorra” pra designar a cabeça absurdamente grande de Cerebelo, ou a espressão de intensidade “pra dedéu”, ou ainda “anta” ao invés de simplesmente “burro” ou “estúpido”…

O sempre hilário José Santa Cruz, como Cosgrove, conferindo a mesma rispidez da voz de Ed Asner; e Silvia Salustti, como Steph; além do falecido Joremi Pozzoli, como Cerebelo, brilharam fazendo as vozes brasileiras dos personagens.

Em suma, em tempos onde a internet dita a informação, e o chamado mundo nerd está cada vez mais popularizado, além das narrativas de super-heróis estarem cada vez mais exploradas, sobretudo pelos Universos Cinematográficos da Marvel e da DC, nunca estivemos em um tempo tão bom para uma série como “Freakazoid”, que teve apenas duas temporadas. O tempo atual seria um celeiro de ideias para novas paródias e referências para a série.

Dividindo com The Tick talvez o posto de super-herói mais engraçado da cultura pop, sendo que este teve um retorno digno às telinhas ultimamente, não se sabe se haverá chance de um dia Freakazoid voltar, mas ficam as lembranças de uma série única, que não se popularizou como as outras, mas que depois de alguns anos, virou uma série cult para muitos.

Fábio Reis é formando em Design Industrial

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