Amazon Day debate retomada da economia verde 

Com participação de especialistas internacionais, o evento teve o lançamento de um Hub de Economia Verde da Amazônia e discutiu avanços e desafios dos países da região no cumprimento da Agenda 2030

 Em um curto período de tempo, a pandemia da Covid-19 desencadeou uma crise sem precedentes, impactando o alcance dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que já progredia em ritmo irregular e insuficiente. Na Amazônia, a ameaça do vírus, associada à desafios ambientais como o avanço do desmatamento, agravou as desigualdades já existentes, deixando a maior floresta tropical do mundo e as populações locais mais vulneráveis do que nunca. A urgência de um modelo econômico verde e inclusivo – que contribua para a recuperação sustentável da região – foi alvo de debates, nesta semana, durante o Amazon Day, evento virtual realizado pela Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (SDSN Amazônia) em parceria com Fundação Amazonas Sustentável (FAS).

Com objetivo de discutir o contexto atual e mobilizar soluções, o webinar reuniu especialistas em desenvolvimento sustentável de diversos países para abordar o tema “Economia Verde para a Amazônia 2030”. A programação ocorreu em paralelo à Conferência Internacional de Desenvolvimento Sustentável (ICSD, na sigla em inglês), organizada pela rede SDSN global, e teve apoio da Green Economy Coalition (GEC).

Faltando pouco menos de 10 anos para o cumprimento da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), da qual mais de 190 nações são signatárias, os países da América Latina e Caribe apresentam uma defasagem no alcance das metas traçadas em relação ao resto do mundo. Segundo o Índice ODS 2019 para América Latina e o Caribe, que serviu de base para a primeira sessão de debates do evento, Chile, Uruguai e Costa Rica possuem o melhor desempenho, respectivamente. O Brasil está na sétima posição do ranking, que monitorou o progresso dos países da região no alcance dos ODS antes do surgimento da pandemia. 

“Em termos de impacto da Covid-19, as coisas que estavam melhorando agora ficarão piores. Pois, observamos que a maioria dos impactos que a nossa região enfrenta por conta da Covid-19 está afetando quem deixamos para trás, as populações mais vulneráveis. Trabalho informal está sendo afetado por conta do distanciamento social, as taxas de desemprego estão crescendo, assim como os níveis de pobreza. O acesso à saúde, educação e alimentos também está sendo fortemente impactado. Em relação à igualdade de gênero, temos maiores lacunas entre homens e mulheres”, apontou o diretor do Centro de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para América Latina e  Caribe (CODS), organização responsável pelo Índice ODS, Felipe Castro. 

Em meio a um cenário repleto de incertezas, os ODS lembram que ações integradas entre diferentes áreas têm maior efetividade para superar obstáculos. Além disso, podem servir de base para os planos destinados à recuperação econômica pós-pandêmica que, segundo os especialistas do evento, devem dar prioridade ao investimento em setores e infraestruturas sustentáveis. Para a vice-presidente das Américas da SDSN, Emma Torres, esse processo de reestruturação na região amazônica precisa levar em consideração questões como transporte sustentável, conectividade, saúde e educação. “Suprimindo a pandemia, mas também detendo o desmatamento”, enfatizou.  

Também participaram do debate o co-fundador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (IMAZON), Beto Veríssimo; diretor executivo da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), Carlos Lazary; assessor técnico da OTCA, Diego Pacheco; gerente do Setor de Mudanças Climáticas e Desenvolvimento Sustentável do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Juan Pablo Bonilla; diretor de Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) em Brasília, Carlos Mussi; e o consultor do Sub-programa de Manejo de Ecossistemas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Juan Carlos Duque. A moderação foi realizada pelo superintendente geral da FAS, Virgilio Viana.

Uma nova economia

 A necessidade de acelerar a transição de uma economia de desmatamento para um modelo econômico inclusivo e verde, baseado na manutenção das florestas “em pé”, motivou a criação da estratégia de um Hub de Economia Verde da Amazônia, que foi lançado durante o Amazon Day. Com sede em Manaus, a iniciativa é um esforço conjunto entre FAS e GEC para reverter a perda da Amazônia, conectando as iniciativas bem-sucedidas existentes e provendo um ambiente favorável ao surgimento de novas atividades econômicas verdes.

“A missão é expandir radicalmente atividades sustentáveis e centradas nas pessoas, que façam as florestas valerem mais em pé do que derrubadas, como uma estratégia para reduzir o desmatamento e as queimadas, promover restauração florestal e justiça social”, explicou o superintendente da FAS, Virgilio Viana. 

O Hub estimulará o desenvolvimento da bioeconomia na Bacia Amazônica, levando também em consideração os impactos do novo coronavírus. Na atual crise, reconstruir a economia exatamente como era antes – com o desmatamento acelerando, impulsionado pela desigualdade e baixa produtividade – pode resultar em novos problemas sociais e ambientais. Segundo o representante da Green Economy Coalition, Oliver Greenfield, a retomada econômica precisa ir além da forma convencional de se fazer negócios, o “business as usual”, e promover o uso sustentável dos recursos naturais. “Temos uma oportunidade única de posicionar resiliência, prosperidade e uma economia baseada na saúde da natureza dentro dessa história de recuperação”, disse. 

Durante o lançamento, que marcou a segunda sessão de debates do webinar, formuladores de políticas, stakeholders, empresários e representantes de organizações não governamentais apontaram ações para a redução do processo de degradação ambiental, além de obstáculos e oportunidades para catalisar economias verdes inclusivas em escala na Amazônia.

Um dos desafios apresentados pelo chefe do Secretariado da Parceria para a Ação sobre Economia Verde (PAGE, na sigla em inglês), Asad Naqvi, foi a necessidade de repensar o sistema econômico global, que não está desenhado para investimentos sustentáveis. “A forma como o sistema global mede progresso, desenvolvimento e sucesso é baseado em valores monetários”, afirmou, indicando ainda que é preciso considerar outras formas de investimento e de retorno que não sejam fundamentadas apenas na competitividade financeira.

Seguindo na mesma linha, o gerente de Programas do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), Claude Gascon, destacou a importância de adotar um modelo de desenvolvimento socioeconômico centralizado no meio ambiente. Ele ainda afirmou que é fundamental estabilizar a Amazônia, promover incentivos econômicos para a conservação e construir governança em escala local e regional. “A economia verde exigirá novos níveis de governança, novos níveis de capacidade e novos arquitetos políticos institucionais”, disse. 

Moderada pelo superintendente de Inovação & Desenvolvimento Institucional da FAS, Victor Salviati, a sessão ainda teve contribuições da ex-ministra do Meio Ambiente do Brasil, Izabella Teixeira; a gerente do Programa de Desenvolvimento para a Natureza Global, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Jamie Ervin; e do especialista principal do Lab de Capital Natural do BID, Gregory Watson. 

Próximos passos 

O Hub de Economia Verde da Amazônia formará uma rede de profissionais, investidores, formuladores de políticas e pequenas empresas com foco na construção de uma nova economia verde na região amazônica e se conectará a sete outros Hubs GEC em todo o mundo. Além disso, proverá um espaço de diálogo e intercâmbio intersetorial, um ponto focal de conhecimento em diferentes abordagens e uma incubadora de desenvolvimento de pequenas empresas de bioeconomia.

Com objetivo de ampliar os diálogos sobre o assunto, serão realizados outros dois encontros virtuais para marcar o lançamento do Hub. Um em outubro com foco no Brasil e o segundo, marcado para novembro, abrangerá os países da Bacia Amazônica.

 

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