Bolsonaro x Oposição no caminho do coronavírus

Todas os movimentos do presidente Jair Bolsonaro são calculados baseados numa estratégia. O discurso do presidente da República poderia ter sido equilibrado na noite de terça-feira (24)? Sim, poderia. Mas, tudo é um jogo.. Bolsonaro está jogando pôquer com dois opositores e pretensos candidatos à Presidência da República em 2022: s governadores João Doria (São Paulo) e Wilson Witzel (Rio de Janeiro).

Entenda o processo

O presidente aposta que até sexta-feira (27) comecem as demissões em massa. Aliás, já começaram os sinais.

As lojas Renner anunciou a demissão de três mil funcionários. A Azul Linhas Aéreas reduziu seus voos em 90% por falta de demanda. Houve um acordo entre a empresa e 7.500 de seus 14.000 funcionários. Os 7.500 pediram licença não remunerada. Passarão um período portanto sem receber salário.

Segundo resumo de live entre CEOs organizada pela XP, os empresários estão desesperados. Querem uma ação “incisiva/prática/rápida” do governo para conseguirem pagar os salários no início de abril.

A situação é mais grave quando se volta o olhar para os pequenos negócios, que respondem por 72% dos empregos no Brasil e não têm reservas para “bancar” os salários dos colaboradores..

Há uma relação direta entre medidas mais severas e restritivas com efeitos ainda mais devastadores na economia. Como se sabe, a política empreendida por João Doria e Wilson Witzel tentando replicar o confinamento horizontal que a ditadura chinesa aplicou, manu militari, em Wuhan. Parte majoritária da mídia, com o Grupo Globo puxando a fila, enxerga vantagens nessa estratégia, pois há uma crença de que assim serão poupadas mais vidas e podem conseguir o afastamento de Bolsonaro.

No teorema da estratégia de Bolsonaro o presidente também adiciona o componente econômico. Diferentemente dos Estados Unidos, que são um país emissor da moeda universal e vão torrar 9% do PIB em medidas anticíclicas, o Brasil não chega nem perto disso. OS EUA disponibilizarão US$ 50 bilhões para as companhias aéreas. Ou seja, perto de R$ 250 bilhões. O Brasil deverá conceder, se tanto, R$ 10 bilhões.

Os grandes varejistas já fecharam as portas por aqui: Magazine Luiza, Casas Bahia, Renner, Riachuelo, Ponto Frio e Centauro. São quase quatro mil lojas sem operar.

Nesse cenário pensado pela equipe de Bolsonaro, a responsabilidade pelo aniquilamento da economia e da vida financeira de milhões de brasileiros começará a cair no colo de Doria e Witzel antes de os hospitais lotarem.

Bolsonaro está provocando os governadores adversários. É um jogo arriscado, pois o plano depende do tempo. Quer ser visto como o salvador da economia e dos empregos das pessoas.

O enredo da oposição

Dória e Witzel têm uma estratégia de fácil entendimento. Acham que o Brasil será palco de uma nova mortandade em série, vista apenas nas epidemias de gripe espanhola e tifo, no século passado.

Os governadores jogam todas as cartas na empatia da população, que estaria propensa a identificá-los como “gestores que se preocupam com o povo” e que não são “frios, insensíveis e ineptos” como Bolsonaro.

Para que isso funcione, será necessário que nas próximas duas semanas o número de infectados dispare e que coloquem na mesa mais de mil mortos. Assim, exibiriam caixões “ad nauseam” nas imagens dos telejornais e nos grupos de mensagens dos brasileiros no celular.

O número de mortos pode ser devastador para o presidente da República. E não importa que proporcionalmente ainda sejam menores do que países como a Itália, onde ninguém com menos de 30 anos havia morrido até o início desta semana.

Esse caos sanitário “a la italiana” poderá produzir, portanto, uma grande rejeição a Bolsonaro. Mas a devastação de vidas e seu efeito midiático terá de vir antes da dilapidação completa das finanças pessoais de milhões de brasileiros pobres, que só têm comida da mão para a boca e nenhuma folga para passar 2 a 3 meses confinados em cômodos lotados nas suas residências.

A sequência

O que virá primeiro? O “cenário italiano” de caixões sendo enviados às centenas para os crematórios, ou a sensação de falência pessoal das pessoas mais humildes, que literalmente podem morrer de fome?

Uma coisa é certa: em até 15 dias será possível conhecer quem está vencendo essa disputa cheia de blefes.

 

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