Empresa israelita espionou jornalistas, políticos e ativistas

Um consórcio de 17 órgãos de comunicação internacionais denunciou que jornalistas, ativistas e dissidentes políticos em todo o mundo foram espionados através de um software desenvolvido por uma empresa israelita. Cinquenta mil números de telefone estavam na lista para potencial vigilância.

A investigação “Projeto Pegasus” publicada no domingo por um consórcio de 17 órgãos de comunicação internacionais, incluindo o jornal francês Le Monde“, o britânico The Guardian e o norte-americano The Washington Post, baseia-se numa lista obtida pelas organizações Forbidden Stories e Amnistia Internacional, que inclui 50 mil números de telefone selecionados pelos clientes da empresa NSO Group desde 2016 para potencial vigilância.

A lista inclui os números de telefone de pelo menos 180 jornalistas, 600 políticos, 85 ativistas de direitos humanos e 65 líderes empresariais, de acordo com a análise realizada pelo consórcio, que localizou muitos em Marrocos, Arábia Saudita e México.

O documento inclui, por exemplo, o número do jornalista mexicano Cecilio Pineda Birto, morto a tiro algumas semanas depois de o seu nome ter surgido na lista, e de correspondentes estrangeiros de vários órgãos de comunicação social, incluindo “Wall Street Journal”, “CNN”, “France 24”, “Mediapart”, “El País” e a agência de notícias “France-Presse” (AFP). Outros nomes no documento, que inclui um chefe de Estado e dois chefes de Governo europeus, deverão ser divulgados nos próximos dias.

Os jornalistas associados à investigação encontraram-se com algumas das pessoas na lista e tiveram acesso a 67 telefones, que foram submetidos a um exame técnico num laboratório da Amnistia Internacional. A ONG confirmou a infeção ou tentativa de infeção pelo spyware da empresa israelita em 37 dispositivos. Segundo o consórcio, dois dos telefones pertenciam a mulheres próximas do jornalista saudita Jamal Khashoggi, assassinado em 2018 no consulado do seu país, em Istambul, por agentes da Arábia Saudita. No caso dos restantes 30 aparelhos analisados, os resultados foram inconclusivos, em alguns casos porque os alvos mudaram de telefone.

“Há uma forte correlação temporal entre quando os números apareceram na lista e quando foram colocados sob vigilância”, escreveu o “Washington Post”.

Empresa nega acusações

A empresa NSO Group, fundada em 2011 a norte de Telavive, comercializa o spyware Pegasus, que, inserido num smartphone, permite aceder a mensagens, fotos, contactos e até ouvir as chamadas do proprietário. A NSO tem sido acusada de vender o software a regimes autoritários, mas sempre defendeu que este só era utilizado para obter informações sobre redes criminosas ou terroristas. E negou “fortemente” as acusações feitas na investigação, acusando-a de estar “cheia de falsas suposições e teorias não substanciadas”.

Outros casos

A NSO não é a única empresa israelita suspeita de fornecer spyware a governos estrangeiros acusados de violar os direitos humanos, com o aval do Ministério da Defesa de Israel. O software “DevilsTongue”, da Saito Tech Ltd, mais conhecido como Candiru, foi utilizado contra cerca de 100 políticos, dissidentes, jornalistas e ativistas, denunciaram na quinta-feira peritos da Microsoft e do Citizen Lab.

Empresas israelitas como a NICE Systems e a Verint forneceram tecnologia à polícia secreta no Uzbequistão e no Cazaquistão, bem como às forças de segurança na Colômbia, acusou a ONG Privacy International, em 2016. (JN e agências).

 

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