Moro pede demissão; Bolsonaro perde apoio da base aliada e da população

Ao anunciar seu pedido de demissão, Sérgio Moro fez um balanço de seu período à frente do Ministério da Justiça e denunciou que Bolsonaro pediu para ele interferir em processos no STF, mas que não atendeu a solicitação

Depois de vários atritos com o presidente Jair Bolsonaro, o ex-juiz federal Sérgio Moro pediu demissão da função de ministro da Justiça e Segurança Pública. O símbolo do combate à corrupção sai em virtude da investigação da Polícia Federal, comandada pelo Diretor-Geral, Maurício Valeixo,  sobre a origem das “Fake News” contra o Congresso e Supremo Tribunal Federal que apontam para o “Gabinete do Ódio”, liderado por Carlos Bolsonaro, filho do presidente. O ex-ministro saiu  denunciando vários crimes de responsabilidad e falsidade ideológica cometidos pelo presidente.

Moro pediu demissão do cargo, deixando o governo do presidente Jair Bolsonaro após quase 16 meses à frente da pasta. Ao anunciar sua decisão, Moro lamentou ter que reunir jornalistas e servidores do órgão em meio à pandemia do novo coronavírus para anunciar sua saída, mas esta foi “inevitável e não por opção minha”.

Em um pronunciamento de 38 minutos, Moro afirmou que pesou para sua decisão o fato de o governo federal ter decidido exonerar o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Maurício Valeixo. O decreto de exoneração foi publicado hoje (24), no Diário Oficial da União. É assinado eletronicamente pelo presidente Jair Bolsonaro e por Moro, e informa que o próprio Valeixo pediu para deixar o comando da corporação.

O ministro, no entanto, afirmou que não assinou o decreto e que o agora ex-diretor-geral da PF não cogitava deixar o cargo. “Não é absolutamente verdadeiro que Valeixo desejasse sair”. Para o ministro, a substituição do diretor-geral, sem um motivo razoável, afeta a credibilidade não só da PF.

Legado

Moro tem um legado de combate contra a corrupção no Brasil que levou políticos, empresários e executivos de estatais à prisão. A saída de Moro tem alta popularidade entre os brasileiros, enfraquece o Governo Bolsonaro e o coloca como um candidato quase imbatível nas eleições presidenciais em 2022.

O presidente pediu ajuda da ala militar e do ministro da Economia, Paulo Guedes, para tentar convencer Sérgio Moro a continuar na função, mas o ex-juiz estava irredutível.

O anúncio da saída de Moro fez o dólar disparar e a bolsa cair, dando munição para que o Congresso e o STF avaliem o impeachment de Bolsonaro.

Parte do respeito que Bolsonaro obteve na comunidade internacional, deveu-se ao trabalho de Sérgio Moro à frente da Operação Lava Jato, que recuperou bilhões dos recursos desviados pelos governos do Partido dos Trabalhadores.

Sérgio Moro saiu, mas colocou sob suspeita as escolhas de Bolsonaro para a Polícia Federal.  A base aliada no Congresso ficou perplexa com as declarações gravissímas do ex-ministro.

Confira as principais denúncias de Moro:

‘Carta branca’

‘Foi prometida carta branca’, diz Sérgio Moro

“No final de 2018, eu recebi um convite do presidente eleito, Jair Bolsonaro, e isso eu já falei publicamente diversas vezes. É fácil repetir essa história porque é uma historia verdadeira. E fui convidado para ser ministro. O que foi conversado com o presidente é que nós tínhamos um compromisso contra a corrupção, o crime organizado. Foi me prometido carta branca para nomear todos os assessores, inclusive nestes órgãos, Polícia Rodoviária Federal e e a própria Polícia Federal.”

Assinatura – falsidade ideológica

“Não assinei a portaria que exonerou o Delegado-Geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, como consta no Diário Oficial.

Interferência do presidente Bolsonaro – crime de responsabilidade

“Presidente me disse mais de uma vez que ele queria ter uma pessoa do contato pessoal dele [na Polícia Federal], que ele pudesse ligar, colher relatórios de inteligência. Realmente não é o papel da Polícia Federal prestar esse tipo de informação. As investigações têm que ser preservadas. Imaginem se durante a própria Lava Jato, o ministro, um diretor-geral, presidente, a então presidente Dilma, ficassem ligando para o superintendente em Curitiba para colher informações sobre as investigações em andamento. A autonomia da Polícia Federal como um respeito à autonomia da aplicação da lei, seja a quem for isso, é um valor fundamental que temos que preservar no estado de direito.”

Bolsonaro preocupado com inquéritos – crime de responsabilidade

“O presidente também me informou que tinha preocupação com inquéritos em curso no Supremo Tribunal Federal e que a troca também seria oportuna da Polícia Federal. Por esse motivo, também não é uma razão que justifique a substituição. Até é algo que gera uma grande preocupação. Enfim, eu sinto que eu tenho o dever de tentar proteger a instituição, a Polícia Federal. E por todos esses motivos, eu busquei uma solução alternativa, para evitar uma crise política durante uma pandemia. Acho que o foco deveria ser o combate à pandemia. Mas entendi que eu não podia deixar de lado esse meu compromisso com o estado de direito.”

Supremo Tribunal Federal

“Na ocasião [quando foi convidado para comandar pasta], foi dado equivocadamente que teria sido colocada como condição para eu assumir uma nomeação ao Supremo tribunal Federal. Nunca houve isso, até porque não seria o caso de eu assumir um cargo de ministro da Justiça pensando em outro.”

Combate à criminalidade

“Dentro do ministério, a palavra maior tem sido integração. Atuamos muito próximos das forças de segurança estaduais, até mesmo municipais. Trabalhamos duro contra a criminalidade organizada. Ouso dizer que não houve um combate tão efetivo como houve nessa gestão, trabalhando com governos estaduais. Tivemos transferências do PCC, prisão da maior autoridade do PCC, [que esteve por] 20 anos foragido, tivemos recorde apreensão de drogas no combate ao crime organizado. Isso é importante […].Recorde de destruição de plantação de maconha no Paraguai, buscamos fortalecer a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal com ampliação dos concursos existentes, empregamos maciçamente a Força Nacional […].”

 

 

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