Os ismos da ignorância

Há 34 anos me perguntaram qual era minha maior angústia. Não consegui responder. Mas, hoje, chego a conclusão que minha maior frustração está relacionada com a falta de conhecimento.

Quando observo uma simples adição, fico angustiado porque a matemática é um argumento criado para satisfazer a nossa incompetência. Se você somar 1 com 1, o resultado na nossa visão é 2. Isso satisfaz, mas não é um resultado necessariamente correto.

Quando penso no odderon, um elemento que não é estável o suficiente para ser uma partícula, detectado pelo Grande Colisor de Hádrons, perto de Genebra, na Suíça, a angústia aumenta pela nossa baixa compreensão do que nos rodeia.

O que nós definimos como partículas são coisas geralmente muito estáveis: elétrons, prótons, quarks, neutrinos e assim por diante. É possível segurar um monte delas na mão – na verdade a nossa própria mão é feita delas. Elas não desaparecem no ar, então, podemos assumir que essas partículas fundamentais existem e continuarão existindo no longo prazo.

Há outras partículas que não duram muito, mas ainda assim podem ser chamadas de partículas. Apesar de suas vidas curtas, elas permanecem sendo partículas. Elas são livres, independentes e capazes de viver por conta própria, separadas de quaisquer interações – as marcas de uma partícula real.

O odderon, basicamente, é uma quasipartícula. Quer dizer: Não são exatamente partículas, mas são alguma coisa. Elas surgem durante interações de partículas a velocidades super altas.

Quando dois prótons colidem um com o outro quase à velocidade da luz, não é como duas bolas de bilhar chocando-se. É como duas águas-vivas balançando uma na outra, colocando suas entranhas de dentro para fora e tendo tudo rearranjado antes de voltarem a ser águas-vivas ao sair.

Nessa bagunça, às vezes aparecem padrões estranhos. Pequenas partículas entram e saem da existência em um piscar de olhos, apenas para serem seguidas por outra dessas partículas fugazes – e outra, e outra. Às vezes, esses flashes de partículas aparecem em uma sequência ou padrão particular.

Outras vezes nem sequer há flashes de partículas, mas apenas vibrações na sopa da mistura da colisão – vibrações que sugerem a presença de uma partícula transitória.

É aqui que os cientistas enfrentam um dilema matemático. Eles podem tentar descrever completamente toda a bagunça complicada que leva a esses padrões efervescentes, ou podem fingir – puramente por conveniência – que esses padrões são “partículas” em si mesmos, mas com propriedades estranhas, como massas negativas e spins que mudam com o tempo. Para satisfazer a nossa incompetência, a última opção foi adotada para definir estes flashes ou vibrações, padrões breves e efervescentes ou ondulações de energia que aparecem no meio de uma colisão de partículas de alta energia, como quasipartículas.

Essa decisão foi tomada porque daria muito trabalho entender completamente essa situação matematicamente, portanto utiliza-se um atalho e finge-se que esses padrões são partículas em si mesmo.

Então questiono: seremos um aglomerado de odderons? Fingimos que temos conhecimento para relativizar a ignorância?

E, nesse contexto, fico angustiado com uma dúvida na minha cabeça: Para quem escrevo se os universitários de hoje estão apenas preocupados em discutir ideologia de gênero, feminismo, machismo, socialismo?

É muito “ismo” para corromper as sinapses.


Rosalvo Reis

Rosalvo Reis

Editor do Portal Roteiro de Notícias

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