Trilogia Homem-Aranha … e o que o legado de Stan Lee me ensinou

Como tendo sido uma criança que não teve nenhum contato com HQ´s de super-heróis, cujo universo conheci apenas pela TV, e unicamente os relacionados aos personagens da DC Comics, para mim, o nome Marvel era quase estranho à minha formação.

Só gostando das animações dos heróis quase míticos da DC, através de séries como a antiga “Super-Amigos” da Hanna-Barbera, e das clássicas da década de 90, como “Batman: The Animated Series”, por alguma razão, nunca simpatizei com os heróis que eu via passando numa concorrente do Cartoon Network, chamada Fox Kids, que exibia séries animadas baseadas nos quadrinhos dessa tal Marvel.

Isso mudaria a partir de 2002, quando posso dizer que tive meu primeiro contato com o legado de Stan Lee, o frontman da editora que revolucionou a cultura popular, e que nos deixou essa semana, após longos 95 anos de vida.

Esse primeiro contato foi quando fui ao cinema assistir um tal… Homem-Aranha. Hoje, tantos e tantos anos depois, posso dizer sem a menor sombra de dúvida, que a primeira adaptação cinematográfica do Amigo da Vizinhança foi um dos filmes que mais marcaram minha infância.

Dirigida por Sam Raimi, a primeira trilogia foi o ponto de acesso que fez com que eu e muitas pessoas que nunca tinham lido gibis da Marvel conhecessem o personagem.

O Primeiro Filme

Como não se identificar com um adolescente nerd, tímido e desajeitado, bulinado pelos colegas e que não tem coragem de se declarar para sua amada do colégio, Mary Jane? Peter Parker é uma pequena síntese de quase todos nós.

Porém, como já diziam as Sagradas Escrituras, “os humilhados serão exaltados”. E essa exaltação veio na forma de uma picada de uma aranha rara. A partir daí, o subjugado Peter começaria a ter poderes especiais, numa narrativa que desenvolveria aquele ideal de Stan Lee: “Uma pessoa pode fazer a diferença”.

O homem aparentemente mais desinteressante é justamente aquele que pode servir de ideal para a sociedade. Basta que uma oportunidade se abra, para que essa pessoa mostre o seu valor.

É claro que, até Peter conseguir mostrar o seu valor, ele teve que passar por alguns traumas, que lhe fizeram entender que “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”. E uma dessas responsabilidades, ao final, seria, mais precisamente, escolher entre salvar sua amada ou várias crianças num ônibus escolar. Ou seja, entre uma ambição pessoal e uma ambição social. Escolha cruel. Essa “escolha de Sofia” é o clímax do primeiro filme.

Gostei tanto do longa que, meses depois, ao sair em VHS e DVD, na época, fiz questão de alugar.

O Segundo Filme

Se, no primeiro filme, a ideia de um adolescente desajustado vir a ser o maior combatente do crime em Nova York já era o bastante para nos identificarmos como cidadãos e nos idealizarmos como seres humanos auto-determinados e capazes; no segundo filme, por sua vez, um jovem que se “rebola” em empregos nada desejados e que tenta conciliar sem muito sucesso a vida pessoal e o combate ao crime nos faz identificar ainda mais com Peter.

É difícil cumprir com agendas de horários quando você sabe que crianças podem ser atropeladas ali ao lado. O novo estado de Peter lhe apresenta variáveis no cotidiano com os quais ele não consegue lidar. Quanto mais Aranha ele tem que ser, menos Peter ele é. Essa dicotomia o perturba, tal qual nossa costumeira e real dicotomia entre vida profissional e vida pessoal, ou entre vida pública e vida privada. Peter é, em certo nível, uma alegoria de nós mesmos, afinal.

O homem que poderia ser o seu mentor num projeto científico que Peter precisa desenvolver academicamente, para garantir sua formação e possibilitar uma forma mais “normal”, menos arriscada e árdua de salvar a vida alheia, ironicamente, acaba se tornando o vilão do segundo filme.

O roteiro confere ao Doutor Octavius essa antítese de Peter Parker. Se Peter feriu seu código de ética pessoal quando decidiu largar sua vida de herói para se dedicar aos estudos, Octavius sucumbiu à ruína de sua ética justamente na idealização heroica do seu projeto científico, pelo qual relativizou sua ética.

Tudo isso viria a culminar naquilo que a simpática tia May diz a Peter: “Às vezes, para fazer o que é certo, precisamos sacrificar aquilo que mais queremos… até mesmo nossos sonhos”. A partir daí, Peter percebe que, a partir do momento que foi agraciado (ou amaldiçoado) com seus poderes, ele não tem mais “querer”… É como a conclusão que ele fez no final do filme anterior: “Esta é minha bênção; esta é minha maldição. Quem sou eu? O Homem-Aranha”.

Quando Peter volta a “vestir o uniforme” de Aranha, faz com que Octopus de dispa do “seu próprio uniforme” – nesse caso, tentáculos mecânicos – e vire novamente o Dr. Octavius que ele havia deixado de ser. Aquele que prefere “morrer como um homem a viver como um monstro”.

O Terceiro Filme

A principal coisa que o terceiro filme me ensinou, na verdade, não tem a ver com a história do filme em si, mas sim que franquias bem-sucedidas podem muito bem perder o rumo.

Foi o que aconteceu nesse complicado filme, que tenta equilibrar três vilões numa mesma trama, dando um novo sentido – que ninguém pediu – aos eventos cujo propósito já haviam sido estabelecidos no primeiro filme.

Se muitos acreditam que o primeiro e o segundo filme mereciam até uma indicação ao Oscar de Melhor Filme, o terceiro, por sua vez, por mais que tenha suas qualidades, beirou o desastre, inclusive com uma reunião de coincidências que deixaria até maus roteiristas irritados.

O Poder Nosso de Cada Dia

Uma das coisas mais representativas pra mim na franquia é que Peter é um órfão, criado pelos tios. Eu, que também sou um órfão, criado pela tia, sinto-me representado…

… E inspirado. Assim como muitos podem, não só por ele ser um personagem inicialmente inseguro e retraído, mas por ser alguém que, por mais que a vida lhe dê murros e pontapés, precisa sempre ser lembrado de que “há um herói dentro de todos nós. Que nos faz mais íntegros, mais fortes. Que nos enobrece.”

É por isso que todos precisam do Homem-Aranha.

É por isso que o mundo precisa de pessoas como Stan Lee. Para nos deixar sempre cientes de que há um Homem-Aranha dentro de cada um de nós.

Homem-Aranha faz parte de toda uma mitologia moderna que a Marvel ajudou a pavimentar. São quase contos de fadas modernistas. A cultura dos quadrinhos das narrativas de Jornada do Herói.

O legado de Stan Lee transcendeu os quadrinhos, foi à TV, migrou ao cinema, e se desenvolve em uma trama de universo compartilhado entre filmes que não encontra precedentes na História do Cinema. E ela continua.

Obrigado, Stan Lee!

Excelsior!

Fábio Reis é graduado em Design Industrial pela UFAM

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