Bright: um thriller policial de fantasia

Como ninguém havia pensado antes em misturar uma trama de mistério policial com um conto de fadas? É nessa incomum combinação que se apoia o filme “Bright”, estrelado por Will Smith, num retorno mais bem-sucedido ao seu estilo convencional de interpretação, em filmes de ação.

Era Uma Vez…

O enredo se passa numa realidade em que humanos convivem com seres míticos, como orcs, elfos e fadas, em pleno mundo pós-moderno. Pela primeira vez, um orc é contratado pela Polícia local; logo, o preconceito institucionalizado dá as caras, colocando em risco a vida do tal orc, Jakoby, que se torna parceiro de Ward, um policial veterano que ficou afastado por levar um tiro de um orc durante uma missão.

O roteiro desenvolve maravilhosamente bem a trama, orquestrando de maneira coerente uma desconfiança institucional em relação ao personagem Jakoby, endossada pelo mero preconceito contra sua raça. Qualquer semelhança com as instituições policiais – sobretudo aqui no Brasil, em pleno atual governo – e sua supremacia em relação à vulnerabilidade do pobre e negro… não é mera coincidência.

Jakoby é levado a ter sua moral questionada pelos agentes por acreditarem que ele teria ajudado um orc bandido a fugir – quando, na verdade, o orc que ele ajudou tratava-se de um outro indivíduo, um adolescente pichador que estava ocasionalmente na mesma rua do incidente, e que cuja semelhança com o criminoso o levaria a ser imediatamente incriminado pela Polícia. (Seria ótimo se alguém pudesse recomendar este filme ao governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, não?)

Pano de Fundo

As diferenças entre humanos e orcs são oriundas de um conflito ocorrido no passado que o roteiro sabiamente apenas aborda de maneira ligeira – pois não é esse tipo de detalhamento que é o enfoque da trama – e sim mostrar as diferenças sociais propriamente ditas. Nesse sentido, há uma hilária analogia para com as diferenças entre norte-americanos e mexicanos.

A cena inicial já estabelece uma introdução desse racismo institucionalizado de maneira ágil, ao mostrar Ward, personagem de Will Smith, sendo encorajado pelos vizinhos a esmagar uma fada – havendo uma analogia clara desses seres para com insetos.

“Bad Boys, Bad Boys, what you gonna do?”

A relação entre Ward e Jakoby é trabalhada de maneira bem-humorada e cativante. A parceria começa instável e tensa, mas depois Ward vai se revelando um indivíduo mais “humano” – com o perdão do trocadilho – do que seus conterrâneos e colegas, provando sua lealdade ao seu parceiro, salvando-o ao invés de segregá-lo. Ward se mostra um interessante exemplo de desenvolvimento heroico de personagem.

O roteiro é bastante dinâmico, não levando o espectador ao tédio em momento algum. A trama se desenvolve de maneira clara e impactante, com uso de ótimos enquadramentos e usos de câmera lenta em momentos pontuais que chegam a fazer os cabelos se arrepiarem.

Apesar de ser bem-humorado em vários momentos, o filme é tenso e explora a violência de forma mais intensa do que estamos acostumados em filmes estrelados por Will Smith. Parece que estamos vendo um típico buddy cop movie regado a um estilo Luc Besson de contar histórias. A ação é frenética e quase constante, porém precisa e bem construída.

Aqui, Will Smith retorna ao gênero que o consagrou, reproduzindo uma mescla de personagens anteriores, como o Agente J de “MIB – Homens de Preto”, Spooner de “Eu, Robô”, Robert Neville de “Eu Sou a Lenda”, e até um pouco de “Hancock”. Sua parceria com o orc possui uma química que nos faz remeter imediatamente a outras duplas, como sua parceria com Tommy Lee Jones em “MIB” e com Martin Lawrence em “Bad Boys”. O ator continua demonstrando ótima forma.

O protagonismo de Will Smith não só é eficaz pela familiaridade do ator para com este tipo de narrativa, como também pela sua importância individual enquanto negro, já que isso só ajuda a estabelecer toda uma premissa de que os humanos, mesmo com suas desigualdades sociais internas, dentre elas o racismo (de cuja representação a relação destes para com os seres míticos já é uma alegoria), são inclinados a unir forças contra uma suposta ameaça maior aos seus interesse em comum (proporcionando leituras políticas – sobretudo a lógica existente na polarização “esquerda e direita”, em que, por exemplo, religiosos e ateus que sejam igualmente conservadores em várias pautas, deixam de lado suas diferenças – e sua maneira imatura de lidarem com essas diferenças – para unirem forças – de forma igualmente imatura – contra ideias progressistas).

Clímax

É interessante como uma determinada investigação de homicídios leva Ward e Jakoby a serem introduzidos ao contexto da mitologia élfica, além de participarem de uma mistura de incorporação dessas mitologias uma à outra, passando por um processo de auto-descoberta. Nada mais pertinente a uma trama que tenta abordar a conciliação entre indivíduos tão diferentes.

O Bright do título refere-se a uma gama de “Escolhidos” da mitologia élfica, os quais são os únicos dignos a portarem e usarem uma determinada varinha mágica, elemento encontrado na cena do crime investigada por Jakoby e Ward.

Nada mais comum em narrativas de contos de fadas é a presença do arquétipo do herói predestinado, que aqui é muito bem trabalhado, adaptando-se dentro do contexto social que o filme aborda. A construção dessa virtuosidade é desenvolvida de maneira mais orgânica do que em alguns outros filmes blockbuster por aí, como o próprio “Aquaman” na relação do referido herói com o tridente. Entretanto, vai entender porque o segundo filme foi tão absolutamente aclamado e o primeiro não…

O gosto da crítica especializada realmente é algo incompreensível às vezes, e que nos mostra o quão relativa e subjetiva a experiência de um filme pode ser.

Conclusão

“Bright” foi uma grata surpresa da Netflix. A história pede sequências que explorem ainda mais o universo dos orcs, elfos e fadas que foi apresentado de maneira tão interessante neste longa. Apesar de ser um filme objetivo em sua trama, e que não necessariamente precisa desenvolver seriamente as mitologias das criaturas apresentadas, ainda pode se mostrar feliz na elaboração de um universo expandido que dê mais substância no pano de fundo da já interessante trama.

Coincidentemente, “Bright” é lançado próximo ao lançamento de um futuro filme da Pixar, “Dois Irmãos”, que possui uma temática absolutamente similar, em termos de ambientação narrativa – o que já dá a este filme de um certo legado cultural.

E, sendo assim, espero que gere sequências pertinentes, que desenvolvam a mitologia apresentada, e não repitam fórmulas narrativas, ao contrário das sequências de “MIB”, por exemplo, que não desenvolveram a exploração do universo da franquia para além do que foi apresentado superficialmente no filme original. Fica a dica.


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *