“Era Uma Vez um Sonho” Rainha, “Mank” Nadinha

Desde que me tornei um cinéfilo adulto, percebo que é inegável constatar como a recepção de filmes pode ser algo bastante… subjetivo e relativo. É aquele velho ditado: “gosto não se discute”. Mas esse ditado não só é uma grande verdade, como, na prática da discussão pública, apresenta uma questão que pode ser mais complexa do que se imagina.

Isso porque, frequentemente, pessoas afirmam não gostar daquilo que nunca chegaram a consumir, pra início de conversa. Neste caso, não existe, de fato, uma experiência vivida, para que se possa fazer uma conclusão acerca daquela obra e expressar o “gosto”, já que não se “provou” a obra. É como afirmar não gostar de um tipo de comida sem sequer tê-la degustado.

Por outro lado, ao sermos iniciados em um universo de conhecimento por cujo tipo de conteúdo temos paixão, somos quase que, inevitavelmente, levados a expressar apreciação por certas obras, meramente por estas serem apreciadas por pessoas mais “experientes” no conhecimento e na análise daquelas obras do que nós.

Isso até chegarmos a um ponto da nossa jornada, em que nossa apreciação pessoal se harmoniza tanto com o conhecimento técnico daquilo, que podemos assumir para nós mesmos que não apreciamos tanto assim tal obra clássica que era tão aclamada por todos e que nos levava a aclamarmos a ela também, como se a tivéssemos aclamado mais por respeito pela sétima arte do que por, de fato, termos uma conexão emocional ou apreciação técnica por ela.

Sendo assim, me vejo, frequentemente, como cinéfilo e como um apreciador artístico, amando coisas que nem tanta gente assim ama, e não percebendo tanta genialidade assim naquilo que uma maioria acha genial.

De fato, isso se percebe na dicotomia “público x crítica especializada”, que, vez ou outra, têm gostos bem distintos.

De fato, mesmo pra mim, como cinéfilo – que está sempre lendo a análise de críticos de cinema e aprecia o trabalho destes – por vezes, os críticos parecem viver em um universo paralelo. Ora, me parece que eles possuem uma sensibilidade mais aguçada e uma percepção mais contemplativa do que a população média, para compreender determinado filme; ora, me parece que eles perderam parte de sua sensibilidade, se atendo a aspectos puramente técnicos e estilísticos que, de si mesmos, nada valem, se não estiverem servindo a uma narrativa que seja eficaz e cativante para quem está assistindo.

E tudo isto nos leva a uma questão que julguei pertinente abordar. Recentemente, a gigante do streaming, Netflix, lançou duas obras que me causaram diferentes impressões e que me fizeram sintetizar muito bem a reflexão sobre a já mencionada dicotomia entre crítica e público. Os filmes são “Era uma Vez um Sonho” e “Mank”.

Era uma Vez um Sonho: A Saga de uma Família Interiorana

“Era Uma Vez um Sonho” é um drama familiar dirigido pelo veterano Ron Howard, que conta a história de uma família do Sul dos Estados Unidos que vive um ciclo de vida autodestrutivo que se transmite por gerações, até ser rompida pelo protagonista da trama, o jovem J.D, que consegue vencer os traumas do ambiente tóxico no qual vive para se realizar como profissional e indivíduo. Uma história bastante dramática e inspiradora, com a qual qualquer pessoa, que já tenha vivido em um lar minimamente disfuncional, poderá se identificar.

Desprezado pela maioria dos críticos de cinema, este filme foi injuriado como sendo um caça-Óscar, um drama superficial e uma adaptação pobre do livro autobiográfico no qual foi baseado, por se abster das discussões sócio-políticas que a obra original abraça.

Bem, o que eu percebo é que existe uma dificuldade muito grande, por parte dos críticos, de entender que Literatura e Cinema são duas mídias distintas e que, como tal, possuem linguagens distintas.

Para se analisar um filme que possui um Roteiro Adaptado – e não Original – é importante avaliá-lo sob dois aspectos: do filme enquanto obra individual e do filme enquanto adaptação. A análise de um aspecto não pode influenciar a outra. Porém, o que se vê com frequência, é um filme sendo criticado de forma negativa meramente por não ter sido fiel ao material original ou por não ter conseguido sintetizar tudo o que a obra original discute – como se isso fosse um aspecto de qualidade cinematográfica, o que não é.

Sendo assim, eu achei “Era uma Vez um Sonho” um filme belíssimo, não só por ser eficiente em seu roteiro, na sua direção e nas interpretações formidáveis de Amy Adams e Glenn Close, como por conseguir traduzir experiências que me cativaram bastante como indivíduo.

Sim, pois antes de eu ser um cinéfilo e um apreciador da linguagem do cinema, eu sou um cidadão, um indivíduo, um ser humano, com uma bagagem de experiências próprias que formam quem eu sou.

E quando um filme consegue me fazer me identificar com questões emocionais, a ponto de me remeter a certos acontecimentos ou elementos da minha própria vida (mesmo que minha vida não chegue a ser exatamente totalmente parecida com a dos personagens retratados), eu acho que ele cumpriu bem seu papel. Sabe, aquele papel básico não só do cinema como de toda arte, o de emocionar pessoas!!!

Pra mim, “Era Uma Vez um Sonho” está bem longe de ser um melodrama esquemático e totalmente previsível. Sua história é muito bem construída e nos leva a sentir empatia pelos personagens abordados. Uma história de superação que, ao contrário do que parece ser o livro no qual é baseado, adotou uma proposta de importância universal. O que, pra mim, é algo totalmente válido, visto que não sou… um norte-americano.

Mesmo “Parasita” soube, através de elementos, da ambientação e de uma configuração sul-coreana, retratar uma história de importância universal, que é a desigualdade social e a luta de classes.

Ao contrário do que dizem os detratores de “Era Uma Vez…”, não achei as personagens coadjuvantes mal exploradas. Pelo contrário, elas servem muito bem para nos fazer entender a jornada de seu protagonista.

O fato de não sabermos “a origem” dos traumas da avó e da mãe, ou da presença de questões mal resolvidas entre as duas, não impede que compreendamos que tais desentendimentos existem, e que influenciam a saúde emocional de protagonista J.D (este sim, o personagem central da trama, e que, por isso mesmo é mais explorado pela trama!).

A narrativa não-linear que alterna entre passado e presente de J.D criam tensões dramáticas intensas em momentos decisivos da vida, mostrando como as memórias e os gatilhos do passado afetam seu presente. Isso também faz com que o espectador duvide do destino do protagonista, criando uma experiência memorável.

Na boa, não dá para entender os críticos.

Mank: um filme que ninguém pediu

Celebrado por ser “o melhor filme já feito” e de figurar entre, pelo menos, os dez “mais” de qualquer lista de melhores filmes de todos os tempos, “Cidadão Kane (1941)” é uma obra singular que inaugurou toda uma nova era para a linguagem cinematográfica, estabelecendo padrões técnicos narrativos, visuais e convenções de enquadramento e uso de câmera que são seguidos até hoje.

“Mank”, dirigido por David Fincher, pretendia ser o filme sobre a vida de Herman J. Mankiewicz, co-roteirista do clássico “Cidadão Kane”, juntamente com Orson Welles, que também dirigiu o longa.

O longa retrata (ou tenta retratar) a participação de Mankiewicz na indústria cinematográfica da Hollywood dos anos 30, e sua luta contra o alcoolismo e a insistência em obter os créditos do longa como roteirista (que teriam sido negados por Orson Welles, crença essa que já foi desmentida por vários críticos e estudiosos dos bastidores de Cidadão Kane e que nunca teria sido, de fato, comprovada).

Sendo assim, o filme aposta numa ideia possivelmente maniqueísta e desonesta, pois superestima a importância do protagonista Mank em detrimento de uma representação de Orson Welles como um homem extremamente oportunista, o que decepcionou grande parcela de cinéfilos que admiram sua importância visionária para o cinema.

Antes fosse apenas esse o problema de Mank. O fato é que não só o filme não parece ter uma justificativa narrativa para existir, como isso se fez perceber na tela, para mim. “Mank” não chega ao solo em que estão os pés de “Cidadão Kane”. Enquanto o clássico de Orson Welles é uma brilhante cinebiografia de um fictício magnata da mídia, que aborda muito bem sua ascensão e queda, o outro é um filme que não tem uma carga dramática a qual abraçar.

Durante cerca de 2 horas, vemos apenas um protagonista que fica para lá e para cá fazendo comentários espirituosos sobre figuras da indústria cinematográfica e da Política dos EUA em um tom de confidencialidade, como se todos os espectadores tivessem algum conhecimento prévio sobre essas questões.

Além disso, o filme tenta adotar uma montagem não-linear, aqui forçada – começando com Mank prostrado bêbado numa cama (isso após sofrer um acidente de carro, que só é mostrado mais à frente), contratado para escrever o roteiro de Cidadão Kane em um prazo apertado, para só depois mostrar trechos das passagens anteriores da vida de Mank dentro da indústria – para criar um paralelo desnecessário com a trama de Cidadão Kane, que também possui uma montagem não-linear. Não há impacto narrativo nenhum na vida de Mank que justifique tal recurso e isso só confunde o entendimento do espectador médio.

O protagonista não tem um desenvolvimento preciso e não progride sua personalidade, o que acaba dificultando a empatia pelo mesmo ou o entendimento de “porque a vida desse cara está sendo contada mesmo, hein?”.

Todos ao seu redor parecem bajulá-lo (a indústria) ou suportá-lo (a família), mas em momento algum fica claro o porquê disso. Não sabemos quase nada sobre a ascensão de Mank dentro da indústria, seus trabalhos anteriores, nem detalhes de como foi o processo de escrita de “Cidadão Kane” (o que é importante para situar o espectador médio ou o cinéfilo novato, já que é por causa desse clássico de 79 anos atrás que a vida deste homem está sendo contada).

O resultado é uma obra que parece uma série de referências internas de David Fincher que só alguém que já tenha lido extensivamente sobre os bastidores da Hollywood dos anos 30, ou que conheça Makiewicz, consegue entender. E não foi meu caso. Por isso, se tornou uma experiência extremamente cansativa e entediante.

Consigo pensar em vários filmes que trabalharam melhor as várias propostas deste filme, seja em este tentar ser uma trama política (“Os 7 de Chicago”), apoiada em extensos diálogos sobre assuntos que não requerem grandes contextualizações (“Dois Papas”), uma homenagem à Hollywood da era do preto-e-branco (“O Artista”), e um estudo de personagem de alguém influente na indústria cinematográfica (“O Aviador”), não conseguindo êxito em nenhuma dessas camadas.

“Mank” é um filme vazio de sentido e de emoção, que apenas só encante a quem já quer se encantar. Com o perdão da analogia, a história é tão tediosamente “preto-e-branca” quanto seu visual, que, apesar de ter tomadas belas, soa ainda artificial.

Enfim, não precisamos de “Mank” se já temos “Cidadão Kane”. Talvez um documentário sobre esta trama proporcionasse uma experiência bem melhor. E tudo o que eu posso dizer sobre quem gostou de “Mank” é que, com certeza, a maioria são cinéfilos (não espectadores médios), e são cinéfilos dos quais tenho inveja, pois eu queria muito ter conseguido sentir o mesmo apreço.

 

 

 


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

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