Soul: do que é feita a vida?

Nova animação da Pixar, como sempre, atinge em cheio nossas emoções, fazendo-nos refletir sobre o sentido da vida, e vai fundo em uma discussão metafísica que diverte crianças e encanta adultos.

A história acompanha Joe Gardner, um professor de música de um colégio, que sonha em tocar numa banda de jazz, seu estilo musical preferido.

Após ser surpreendido com uma oportunidade de tocar num clube com uma de suas artistas favoritas, ele mal consegue processar direito a informação, contagiado de alegria. O que ele não contava é que sua euforia o levaria a um acidente, ocasionando sua morte.

A partir daí, acompanhamos apenas a alma de Joe contemplando uma grande luz, para a qual ele se dirige em uma espécie de esteira que leva as almas para serem absorvidas por ela.

Joe tenta fugir da grande luz, é claro, negando-se a aceitar sua morte. No caminho, acaba caindo em um ambiente conhecido como Pré-Vida, o lugar onde almas de pessoas que já morreram tornam-se mentoras de alminhas de vidas que ainda irão nascer.

É incrível como os roteiristas exploram o mundo metafísico, aproveitando o conceito da pré-existência para estabelecer a jornada de Joe. Além da Vida e do Pós-Vida, existe a Pré-Vida, o único lugar a partir do qual Joe pode retornar à Terra, já que, de lá, são enviadas almas ao mundo.

Ele se passa por mentor de uma alma chamada 22 para burlar o sistema. 22 é uma alminha incorrigível, que nunca consegue ser estimulada a ir para a Terra.

Também é incrível como os artistas visuais e os animadores conseguem conceber um mundo único, com uma atmosfera calma e reconfortante como um jardim, onde as personalidades de pessoas que ainda vão surgir são formadas. Tudo isso com direito a figuras que supervisionam as almas, os chamados “Zés”, cujo visual é planificado e assume diferentes configurações, sem uma forma única. O design desses personagens lembram as obras de Pablo Picasso, bem como o trabalho do animador e ilustrador Mo Willems.

É claro que, nesse processo, Joe e 22 vão acabar estabelecendo uma relação que fará ambos enxergarem a vida através dos olhos um do outro. E vão passar por muitas desventuras, chegando a caírem acidentalmente em corpos errados, levando a trama ao ápice de seu humor e de descobertas.

O Jeito Pixar de Contar Histórias

Já tendo flertado com temáticas abstratas, como em “Divertidamente” (2015), ou com a própria questão da vida após a morte, como em “Viva – A Vida é uma Festa” (2018), aqui, o sobrenatural também ganha forma, numa narrativa até mais acessível do que nos filmes anteriores, apesar de ser bem verdade que pode ser um tema complexo demais para crianças.

Contexto e Mensagem

“O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios vem do Senhor” (Provérbios 16:1).

A trama nos faz refletir sobre o quão imprevisível é a vida. Não sabemos o nosso amanhã, e, por isso, devemos aproveitar ao máximo cada minuto, sermos gratos por cada pequena conquista, cada amizade, cada momento.

O filme discute os conceitos de missão e propósito. Qual é o nosso propósito na vida? O que é mais importante: estabilidade financeira ou realização pessoal? De que forma a perseguição de nossos sonhos e ambições fazem bem para nós? Como conciliar nossos objetivos, e como focar em metas sem nos distrairmos de outras coisas também essenciais? Se não conseguirmos atingir nossos objetivos, o que sobrou valeu a pena?

Às vezes, encontramos significado até naquilo que não buscamos. Os acasos nos fazem enxergar coisas que nossos objetivos não nos mostraram.

O filme vem em uma época bastante pertinente. Com a pandemia da Covid-19, a sociedade foi obrigada pelas circunstâncias a rever seus valores e a repensar seu estilo de vida. A busca desenfreada por realização profissional precisou flexibilizar-se diante do respeito à saúde alheia, e novas formas de emprego precisaram ser encontradas.

Nunca foi tão perigoso, e ao mesmo tempo, tão significativo ficar perto de quem se ama. E o que podemos fazer pelas almas uns dos outros, mesmo à distância? Apesar de nunca sabermos quem foi a pessoa que a alma 22 se tornou, uma coisa é certa: Joe foi essencial para a formação dela, ainda que nunca cheguem a se conhecer.

Nós podemos ser importantes um para o outro, mesmo distantes, e quando a pandemia passar, e pudermos nos reaproximar fisicamente, sem medo, que tipo de aprendizado vamos levar conosco dessa experiência?

À propósito, para os menos exercitados no inglês, “Soul” significa “alma” em inglês, o que me faz pensar que a única coisa estranha a respeito desse filme é que o título simplesmente não foi traduzido para o português.

Em um mundo que clama cada vez mais por diversidade, “Soul” se torna simbólico, ainda mais em um mundo pós-caso George Floyd, sendo feliz ao retratar aquele que é o primeiro protagonista afro-descendente da Pixar.

O Jazz, gênero oriundo da cultura negra, torna-se um importante plano de fundo para uma história sobre autodescoberta e personalidade. Assim como uma das características essenciais do Jazz, que é o improviso, Joe é um personagem que tenta improvisar sua passagem no além-vida e acaba se saindo muito bem, acabando por se descobrir não só como indivíduo, mas como parte de algo maior do que ele mesmo.

“Soul” encontra-se disponível na plataforma Disney Plus.


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

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