Neo-neorrealismo em Foco: A Separação (2011)

Filme iraniano dirigido por Asghar Farhadi, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2012, A Separação é um deleite narrativo.

Começando com o pedido de divórcio de uma mãe, que quer se mudar para outro país em prol de melhores condições de vida, o filme já nos apresenta a Simin e Nader, um casal que está enfrentando problemas em seu casamento, justamente devido ao fato de que Nader quer permanecer no Irã, e não acompanhar sua esposa.

Os dois têm uma filha, sobre a qual discutem por qual seria a melhor opção para o futuro dela: ficar com a mãe ou com o pai? Percebendo que a filha também não quer se mudar, Simin fica ainda por um tempo na cidade, mas longe de casa, o que gera uma série de consequências inusitadas para a família.

Não tendo quem cuide de seu pai, que tem mal de Alzheimer, Nader contrata uma mulher para cuidar dele e de sua casa enquanto ele estiver fora trabalhando, a temerosa Razieh, uma mulher que sempre leva sua pequena filha consigo para o serviço.

Entretanto, um detalhe é que Razieh é uma mulher grávida, que está indo trabalhar escondida de seu marido, para ajudá-lo a quitar uma série de dívidas. Abordando um pouco do pudor matrimonial islâmico, o roteiro do longa (escrito pelo próprio diretor) retrata a delicadeza que é um marido deixar que sua esposa trabalhe na casa de um pai solteiro.

Não obstante ainda, Razieh se vê tendo que limpar o pai de Nader quando ele urina deitado em sua cama, o que fornece novas complicações para ela. Para o Islã, é um problema uma mulher simplesmente tocar nas partes íntimas de um homem que não seja seu marido. Ela chega a ligar para uma autoridade religiosa para perguntar se pode ou não fazer aquilo, por entender que é um pecado. O que para nós, ocidentais, pode parecer de um conservadorismo absurdo – e acredito que, de fato, o seja – faz parte de toda uma compreensão cerimonial e ritualística que remonta à ortodoxia das religiões de origem abraâmica, em que o conceito de pecado não apenas tinha um aspecto moral como também físico e higiênico.

As noções religiosas permeiam algumas das ações das personagens de forma brilhante. Além de ser um importante drama familiar, o filme também é importante por nos introduzir ao contexto social do Irã moderno, o que pode pegar de surpresa alguns espectadores ocidentais um pouco mais leigos, como este que escreve. Por exemplo, quando conhecemos a história de uma importante mulher nativa de um país muçulmano, a paquistanesa Malala Yousafzai, sobrevivente de uma tentativa de homicídio por simplesmente ir à escola, ou chegamos a assistir filmes como a animação The Breadwinner (A Ganha-Pão), que mostra uma realidade muçulmana bastante delicada e limitante para as mulheres, em que elas sequer têm o direito de sair às ruas sozinhas, chega a ser revigorante ver que a Simin de A Separação é uma mulher que sim, pode solicitar um pedido de divórcio, ser professora e até dirigir seu próprio carro sozinha.

Voltando à trama, o fato é que Razieh está grávida de poucos meses, e o roteiro é brilhante ao concebê-la desta forma, pois não percebemos sua gravidez de imediato – pelo menos, eu não percebi nenhum pouco – já que o carregado traje que ela usa até nos impede de poder constatar isso. E o roteiro parece fazer isso de forma proposital, inserindo uma cena em que ela sente o bebê chutando em seu interior e coloca sua filha encostada em sua barriga para senti-lo, fazendo-nos, só aí, perceber sua gravidez.

Isso é pertinente, pois, ao longo da trama, podemos jurar que Nader também não o sabe, o que faz com que fiquemos surpresos numa cena posterior em que ele confidencia à sua filha que sabia que Razieh está grávida, proporcionando um certo plot twist.

O que acontece é que, durante um desentendimento entre Nader e Razieh por ela ter deixado o pai de Nader amarrado na cama enquanto ia resolver umas coisas – isso depois de negligenciá-lo anteriormente, não observando enquanto ele perigosamente saiu à rua – ele a coloca para fora de casa, empurrando-a um pouco. O que pareceu um empurro de leve marcará a narrativa, pois, após isso, Razieh sofre um acidente na escada do prédio, vindo a perder seu bebê. Nader é incriminado por tentativa de homicídio.

As coisas só se complicam quando o próprio marido de Razieh descobre que ela estava trabalhando na casa de Nader sem que ele soubesse, e uma série de desentendimentos se instauram a partir disso, no hospital.

Acompanhamos os conflitos entre os personagens até chegarmos numa tentativa de resolução que colocará em xeque suas convicções morais e religiosas. É impressionante como cada personagem tem uma função narrativa bem definida e tudo ocorre de forma bem orgânica.

Após a resolução do incidente entre as duas famílias, a guarda de Termeh, filha de Nader e Simin, fica em aberto, conferindo ao filme ainda mais brilhantismo, ao deixar ao espectador a decisão de quem merece mais ficar com a filha, depois de toda estabilidade familiar ter sido colocada à prova em virtude destes acontecimentos, concluindo a saga… da Separação.

 


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

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