De Dexter às Meninas Super-Poderosas: do Esteriótipo à Subversão dos Papéis de Gênero

Sem dúvida, alguns dos desenhos animados que mais marcaram minha infância no cultuado canal a cabo Cartoon Network, são duas produções que, não por acaso, compartilham o mesmo estilo visual: O Laboratório de Dexter e As Meninas Super-Poderosas.

Criado pelo talentoso cartunista e animador (um dos meus artistas favoritos) Genndy Tartakovsky, O Laboratório de Dexter foi a primeira série animada original do Cartoon Network, dando início a um prolífico histórico de séries animadas que viriam a abrilhantar a infância dos anos 90.

Depois de adulto, assistindo àquele que, até então, eu considerava o meu desenho favorito do canal, é inevitável perceber e analisar como desenhos animados podem representar, de forma consciente ou não, os papéis de gênero, por vezes, de forma estereotipada.

“Pra que serve este botão… digo, a DeeDee?”

Em O Laboratório de Dexter, Dexter é um menino-gênio que possui nada menos do que um imenso laboratório secreto dentro de seu quarto, onde cria várias invenções de valor tecnológico inimaginável. Ele se comporta como um adulto, tendo uma bagagem de conhecimento e um vocabulário extremamente complexos para alguém de sua idade. Seu figurino consiste de um jaleco branco e botas pretas, além de luvas roxas.

Ele tem como sua única irmã DeeDee, uma personagem feminina que, apesar de ser sua irmã mais velha, convenientemente é retratada com uma personalidade muito infantilizada, dispersa e atrapalhada. Seu figurino não poderia se ater mais aos estereótipos femininos, consistindo não só de um vestidinho rosa, como, na verdade, um traje de ballet. Seu visual hilário, com longas e finas pernas e corpinho minúsculo, cria um bom contraste visual em relação ao seu irmão, baixinho e largo.

DeeDee pode ser interpretada como uma força antagônica indireta a Dexter, já que, ao contrário do irmão, definido por sua habilidade de criar coisas, grande parte do que a define é sua habilidade de… quebrar coisas.

Se Dexter é caracterizado por sua inteligência, DeeDee é notavelmente definida pela sua burrice non sense. O papel de DeeDee é servir de desastre para interromper ou atrapalhar as invenções do irmão, o que é um tanto incoerente, por não se tratar de uma irmã mais nova, e sim de uma irmã mais velha, como já mencionado.

O que nos leva à problemática acerca da representação de DeeDee. Por mais que ela tenha sido escrita para ser irritante, ela é definitivamente apenas reduzida a isso. Convenientemente, a única personagem feminina frequente na série é alguém que esbanja estereótipos de feminilidade – como usar rosa e praticar balé – ao mesmo tempo em que é marcada pela sua inutilidade.

Enquanto Dexter é um personagem masculino definido por sua genialidade, DeeDee é um contraponto para frustrar seus anseios, o que é interessante, porém feito de forma bastante exagerada, desprovendo da personagem qualquer noção de racionalidade que ela possa ter. É o clichê da loira burra em sua forma mais barata.

Curiosamente, DeeDee invade o laboratório do irmão sem nenhuma razão aparente, passeando por ele enquanto executa passos de balé fora de contexto, quebrando várias geringonças no processo. Tudo isso da forma mais gratuita possível. Trata-se de uma representação subliminar da arte vista como nociva ao progresso tecnológico ou da força feminina vista como algo nocivo à eficiência masculina.

Por mais que as invasões de DeeDee possam ser interpretadas como advindas de uma curiosidade excessiva – o que fica claro pelo clássico bordão da personagem: “Pra que serve esse botão?” – esse não é o ponto em vários episódios, em que ela gratuitamente quebra coisas enquanto dança de forma aleatória pelo laboratório. Há vários momentos em que ela não apenas quebra coisas por puro acidente devido seu excesso de curiosidade, e sim, de forma deliberada e/ou inconsciente, como se ela tivesse a idade mental de um bebê.

Não obstante, DeeDee veste rosa e seu quarto é marcado pela cor rosa, enquanto o laboratório de Dexter é uma imensidão azul, cores que culturalmente representam muito o feminino e o masculino, respectivamente. Algo me diz que a ministra Damares adoraria esse desenho.

Se a ideia da série é ter um protagonista que seja um menino que é mais inteligente do que seus próprios pais e do que qualquer adulto, é contraproducente que isso seja feito às custas da burrice da irmã, quando uma irmã de inteligência razoável já proporcionaria um contraste eficiente. Se DeeDee precisa ser burra para que, então, a inteligência de Dexter seja destacada, perde-se a noção da própria inteligência de Dexter em si, que deveria estar rivalizando com alguém de uma inteligência comum.

Não obstante, o arqui-inimigo de Dexter, Mandark, em um determinado episódio, sofre prejuízo justamente por ter se apaixonado por DeeDee, já que, ao convidá-la para um encontro em seu laboratório, o mesmo é destruído pela dança estabanada dela. Dexter vê neste encontro um deleite de vingança, por Mandark ter-lhe tirado de seu status de aluno prodígio na escola. Apesar da conclusão deste episódio ser válida e eficiente do ponto de vista cômico, é redutor para a representatividade feminina explorá-la apenas como uma força de perigo à ordem e à ciência.

É claro que, mesmo com sua personalidade bisonha, DeeDee consegue ser explorada por várias nuances, chegando a salvar Dexter em vários episódios; porém, frequentemente, de forma acidental. É bem verdade que, nestes casos, Dexter não deixa de ser exposto a um certo ridículo, inclusive por sempre subestimar a eficiência da irmã.

É relevante, portanto, entender Dexter e DeeDee como arquétipos de gênero em que o primeiro representa a racionalidade e a força impositiva, e a segunda representa a sensibilidade e a força intuitiva.

Apesar de os dois poderem ser entendidos como duas forças opostas porém complementares, é fato também que este contraste é feito de forma machista, pois vale-se claramente de uma valorização do protagonista Dexter através da subvalorização da coadjuvante DeeDee.

Através de Dexter, relaciona-se a masculinidade à ideia de ortodoxia, decência e exatidão, enquanto, através de DeeDee, relaciona-se o feminino à ideia de autenticidade, teimosia intransigência. Ele é a ordem, ela é o caos.

Ou seja, por mais fortuitamente contrastante que seja a relação entre tais arquétipos, eles recaem sobre uma subvalorização da figura feminina, já que nunca as supostas habilidades de dança de DeeDee são frequentemente vistas como positivas.

A Mãe

Em contrapartida, na mesma série, é visível um protagonismo muito maior da figura feminina no que concerne à representação dos pais de Dexter, mesmo dentro de um estereótipo de mãe doméstica e pai periférico.

Por mais redutor que seja às causas feministas ver uma mãe marcada por ser uma eficiente dona-de-casa incorrigível, o fato é que isso se espelha na realidade social de muitos lares, e, sem dúvida, a Mãe de Dexter marcou muito mais minha memória do que o Pai de Dexter.

Enquanto sempre vemos a Mãe de Dexter limpando a casa e cozinhando, sua hilária mania de limpeza e a forma perfeccionista e autossuficiente com que cuida do lar é o que tornam a personagem interessante. Sua postura sempre ativa roubam as cenas, enquanto o Pai vive quase sempre sentado em sua poltrona lendo jornal e assistindo TV, algo que não é exatamente interessante em termos de escrita de um personagem.

Ao vermos a forma metódica com que a Mãe de Dexter executa suas atividades cotidianas, podemos enxergar de quem Dexter exatamente herdou seu próprio perfeccionismo e senso de organização. O fato de ela ser ruiva, assim como o filho, bem como o Pai é loiro, assim como DeeDee, criam uma hilária sugestão de rima visual que apenas ajudam a reforçar essa correlação.

Portanto, se a postura ativa de DeeDee chega a ser estereotipada demais em termos de entendimento do feminino, sempre tendo consequências negativas, beirando a misoginia (pra não dizer misógino mesmo), a postura ativa e positiva da Mãe de Dexter não deixa de compensar isso, por outro lado. Um retrato de uma geração que já enxerga a mãe como uma figura de maior autoridade e presença do que o pai.

De fato, como a maioria dos episódios se passa dentro da casa de Dexter ou no colégio de Dexter, é a Mãe de Dexter que vemos quase sempre em ação, já que o lar é o local de suas atividades. Não conhecemos o ambiente de trabalho do Pai de Dexter, pois nunca é mostrado. Logo, o Pai fica naturalmente apagado se comparado à Mãe, dentro de seu arquétipo de força masculina que sai para trabalhar.

Curiosamente, esta “lacuna” do Pai de Dexter é devidamente abordada em um episódio da última temporada em que Dexter revela para seus colegas de classe desconhecer sobre em que consiste o trabalho do pai. É aí que o Pai, apenas para impressionar o filho, decide estrear uma carreira como motoqueiro radical (e até hoje nem eu consigo me lembrar qual era de verdade o trabalho dele).

Outras características marcantes do Pai de Dexter é que ele gosta de jogar golfe e pescar. Ou seja, vemos o Pai muito mais em contextos de lazer do que a Mãe, que trata sua vida doméstica de forma praticamente profissional.

Olhos Maiores, Poderes Melhores

Por mais datadas que possam ser certas representações em O Laboratório de Dexter, elas têm o seu valor, e cabe a crítica construtiva para que personagens sejam cada vez melhor retratados e menos estereotipados.

Porém, trabalhando como diretor de arte e artista de storyboard para O Laboratório de Dexter estava Craig McCraken, que, posteriormente, viria a criar nada menos do que As Meninas Super-Poderosas. Além de ser tão divertida quanto a criação de Tartakovsky, esta nova série se mostraria bem mais marcante por trazer uma nova abordagem para o gênero de super-herói.

Nesta história, um professor cientista solteirão, que – assim como Dexter – também tem um laboratório secreto (nem sei de onde McCracken tirou essa ideia, hein?), tenta criar filhas perfeitas, através de ingredientes como “açúcar, tempero e tudo o que há de bom”, mas acaba acidentalmente acrescentando um ingrediente extra na mistura, o Elemento X, assim criando três garotinhas com super-poderes, que viriam a ser as grandes defensoras da cidade de Townsville.

A partir daí, estas três meninas de visual fofinho aparentemente inofensivas acabam sendo as heroínas que salvam o dia dando porrada em tudo que é macho e bandido. Se O Laboratório de Dexter replicava estereótipos de gênero, As Meninas Super-Poderosas veio subverter totalmente estes papéis.

Ao contrário do Pai de Dexter, o Professor Utônio é um homem que, por ser solteiro, acaba fazendo todos os trabalhos domésticos, inclusive cozinhando para as próprias filhas. Apesar de serem crianças, As Meninas são tão poderosas quanto muitos heróis da Marvel e da DC por aí.

Ao contrário da maioria das super-heroínas femininas – sempre adultas e com corpos esculturais e atributos avantajados, com figurinos que marcam bastante seu corpo, sendo bastante sexualizadas – As Meninas, por sua vez, são crianças, possibilitando uma identificação imediata desprovida de padrões de beleza e de sexy symbol.

Com cada uma das três protagonistas tendo personalidades bem distintas – Florzinha sendo a líder sensata e proativa, Lindinha sendo a mais delicada e ingênua, e Docinho sendo a mais temperamental e agressiva – a representação feminina ganha pluralidade.

Perceba que Lindinha tem atributos psicológicos e visuais semelhantes à DeeDee, como ingenuidade e apego ao lúdico, e cabelos loiros com marias-chiquinhas, além de olhos azuis, porém essas características de sua personalidade são mostradas como válidas e até complementares às outras personalidades, que não a inferiorizam em relação às irmãs, e não como um problema que pode colocar em risco todo um sistema.

Assim sendo, Tartakovsky, de forma consciente ou não, progrediu sua representação de gênero, tendo sido produtor desta série e dirigido vários episódios.

E não seria nenhum constrangimento para este homem hétero e cis que vos escreve dizer que sim, As Meninas Super-Poderosas talvez tenha sido uma das melhores, senão a melhor animação do Cartoon. Com estilo visual atraente, humor inteligente e roteiros muito bem escritos, não foi à toa que foi a série que mais fez sucesso comercial, e a única do estúdio a chegar a ganhar um longa-metragem para o cinema.

Além disso, provavelmente, As Meninas Super-Poderosas deve ter sido a primeira e mais atenuante obra feminista das nossas infâncias. E somos gratos por isso.


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *