Dogma 95 em Foco: Festa em Família (1998)

Primeiro filme do movimento cinematográfico chamado Dogma 95, Festa em Família foi um filme totalmente filmado de forma experimental, sem nenhum uso de filtros de câmera, nem de luzes ou sons artificiais, muito menos qualquer tipo de efeitos especiais ou música extradiegética, regras que caracterizam o movimento.

Praticamente sem nenhum tratamento de pós-produção, com uma textura de imagem igual a de qualquer gravação amadora que qualquer pessoa poderia fazer com uma câmera em mãos ou, hoje em dia, com um celular, as imagens do filme podem não chamar a atenção em uma primeira olhada, mas, ao se permitir assistir a esta incrível obra, o espectador pouco irá lembrar, ao longo da trama, do estilo de gravação não-convencional do filme.

Somos levados a uma história de uma família disfuncional, em que a autoridade do patriarca da família é desconstruída, durante sua festa de aniversário de 60 anos, após uma série de confissões comprometedoras feitas por um de seus filhos, o que desestabiliza toda a cerimônia.

Acompanhamos os conflitos entre vários dos entes desta família, cuja imprevisibilidade dos acontecimentos chega a gerar um tom de humor trágico diante de tamanhos momentos de vergonha alheia. Apesar de alguns momentos terem um tom de absurdo que naturalmente podem fazer o espectador rir de nervoso, definitivamente, não é um filme que se possa definir estritamente como uma comédia de humor negro, e sim como um drama.

O longa já tem uma abertura bastante imprevisível que capta a atenção do espectador, e o dinamismo com que os eventos vão se desenvolvendo nunca torna a trama monótona. A edição tem alguns poucos momentos de claustrofobia visual, ao optar por aproximações muito fortes nos rostos dos personagens. Sem uso de enquadramentos muito ambiciosos, o filme chama mais a atenção pelo seu roteiro, que é absolutamente eficiente.

O roteiro e a interpretação dos atores são o que define a qualidade do filme, e nisto ele é quase impecável. Todos os atores possuem uma credibilidade ímpar.

A trama toca em questões familiares e sociais de um modo muito natural e proveitoso. A desconstrução de um patriarcado, a disputa de atenção e as exigências familiares, e até mesmo o racismo são abordados, este último parecendo fazer eco à evidente falta de atores negros no filme.

Passando-se totalmente no mesmo lugar, dentro e aos arredores do hotel em que se passa a cerimônia de comemoração, a trama de fato gira em torno da família em questão. A conclusão da história, que não mostra se o pai foi ou não preso pelos crimes que cometeu, apenas mostrando-o perdendo seu tão honroso lugar na cadeira da mesa da família e sendo quase que praticamente convidado a se retirar do lugar, uma sutil expulsão de seu “trono” familiar, evidencia o tom pessoal e familiar da obra, ao mostrar o total descrédito e repúdio que recai sobre o pai de família, que parece ter construído um importante legado patrimonial em detrimento da estabilidade afetiva e da saúde psicológica dos filhos.

Independentemente do que pode ou não ter acontecido com ele do ponto de vista jurídico, o fato é que, emocionalmente, ele já perdeu seu lugar, sua posição, sua boa reputação perante sua família. E era este o foco que o longa queria ter, o da perspectiva da família sobre os crimes de abuso sexual cometidos por aquele que deveria ter sido o chefe da casa, o provedor e a fonte de sabedoria e ensino, que é o que um pai deve ser.

O final também apresenta um desfecho feliz para seu herói (se é que assim o podemos chamar, por ser a figura principal que leva a trama para a frente), ao dar ao protagonista uma chance de recomeçar a vida, com um relacionamento amoroso que tudo indica que ele terá, ao decidir que irá se mudar e morar em outro lugar. O mais abusado dos filhos é justamente aquele que traz as verdades à tona e fornece a si mesmo a possibilidade de recomeçar.


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

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