Cinema Noir em Foco: Crepúsculo dos Deuses (1950)

Esta obra-prima do cinema nos apresenta à própria indústria do cinema e seus bastidores como pano de fundo de uma tragédia.

Uma mescla interessante de drama, romance e suspense, Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, no original) nos leva a acompanhar a vida de Joe Gillis, um roteirista norte-americano frustrado e endividado, que, num belo dia, enquanto se vê fugindo de seus cobradores que tentam reaver seu carro, por falta de pagamento, acaba, ocasionalmente, e bem, bem convenientemente, indo parar na garagem de uma mansão que pertence a uma grande ex-atriz do cinema mudo, a arrogante e obcecada Norma Desmond.

Fornecendo uma aura quase gótica à história, de forma ímpar, o filme nos apresenta um misterioso mordomo, o estranho Max (que bem que parece o tio Chico da Família Addams), que recebe Joe enquanto ele investiga a residência. A aura de mistério se evidencia ainda mais quando Max o diz que estão à sua espera. Ora, estando Joe ali por mero acaso, para fugir de seus cobradores, como pode alguém o estar esperando? É esta atmosfera misteriosa dentro de uma mansão tão vasta, opulenta, e, por vezes, banhada a grandes sombras, numa iluminação que privilegia o alto contraste (uma característica típica do estilo noir), que eleva o espectador.

Como um desavisado visitante de um castelo encantado, Joe sobe as escadas da mansão, para descobrir quem o está esperando, e conhecer quem seria a dona daquele impressionante lugar. É a partir de então que a vida dele está prestes a mudar para sempre.

Norma Desmond é uma senhora que vive a nostalgia de tempos passados, quando ainda era idolatrada por ser uma diva do cinema mudo. Ressentida, ela quer voltar à ativa, escrevendo o roteiro de um longa-metragem sobre Salomé, a figura bíblica, sobrinha do rei Herodes, conhecida por ser responsável pela execução de João Batista. A referência a Salomé é bastante significativa, e a cena em que Norma descreve a Joe a sinopse de seu filme serve como um foreshadowing do que a própria Norma viria a fazer com Joe posteriormente.

Com uma postura tão austera quanto impertinente, Norma praticamente inicia um jogo de manipulação com Joe, contratando-o permanentemente para ajudar-lhe a terminar seu roteiro, sem que ele buscasse por isso. Sem pedir sua permissão, Norma providencia para que Max apanhe todos os pertences de Joe em seu apartamento e realoque-os no seu “novo lar”. Sim, Norma faz com que Joe passe a morar com ela. Como eles sabiam onde Joe morava? Outro grande mistério. O fato é que Joe vê na vida com Norma uma forma de se livrar de suas dívidas e de seus problemas. Rica como Norma é, ela faz questão de sanar todas as suas dívidas.

Mas o que era para ser apenas um favor, para proporcionar a Joe foco em seu novo ofício, acaba se revelando uma teia de manipulações de um relacionamento amoroso abusivo, por parte de Norma, que o cerceia de todas as suas liberdades individuais. Movida por um ciúme doentio, ela faz de Joe seu homem de estimação, além de chantageá-lo emocionalmente com a ideia de uma possível tentativa de suicídio caso ele a deixasse.

A absurda carência de Norma, que, no início, achamos ser apenas a de uma mulher de meia idade frustrada e mimada, acaba revelando progressivamente ser a de uma verdadeira sociopata. Norma quer todos os homens a seus pés para fazer valer a aura de glória que ela acredita que exista sobre si. Isso fica mais evidente quando descobrimos que o próprio mordomo Max, na verdade, é ninguém mais, ninguém menos do que o próprio primeiro marido de Norma, além de um ex-diretor de cinema que a lançou ao estrelato. Com seu poder aquisitivo e com sua autoindulgência temperada a chantagens emocionais, Norma acaba conseguindo “comprar” a atenção das pessoas e dos homens que quiser.

A personagem Betty Schaefer tem a importante função de servir para representar a liberdade retirada de Joe. É com ela que ele desenvolve um roteiro de seu próprio interesse, já que, com Norma, ele só está trabalhando por necessidade. Com Betty, ele desenvolve uma interessante relação de cumplicidade profissional, que acaba progredindo para um interesse romântico verdadeiro. Porém, ele nem poder ficar com ela, já que é noiva de seu melhor amigo.

Betty é importante para estabelecer o ponto de virada do roteiro para o terceiro ato, se desenvolvendo de forma bastante orgânica. Não é à toa que, é justamente depois de estar diante da inevitabilidade de contar à Betty a verdade sobre sua condição (além de ser um jeito conveniente de dispersá-la, em respeito ao seu amigo), que Joe decide se emancipar de Norma. Ela já atrapalhou sua vida por tempo demais, afinal.

Um grande destaque do filme é sua ambientação. Nada melhor para um filme metalinguístico do que as referências a figuras reais de Hollywood. As aparições do ator e comediante Buster Keaton e do diretor de épicos Cecil B. DeMille, que tem certa importância narrativa, interpretando a si próprios, é de um verdadeiro fan service para os mais cinéfilos.

A transição do cinema mudo para o cinema falado é o pano de fundo tão pertinente desta obra, que trata sobre a precarização de certos tipos de ofício com o surgimento de novas tecnologias, o que propicia a readequação profissional.

Norma parou no seu tempo e é resistente a mudanças. O roteiro do filme é brilhante por evidenciar isso não só através da performance de Gloria Swanson, expressando-se de forma sempre teatral e caricata – como se nunca houvesse saído das personagens que interpretara no cinema mudo – como também por ela ser muito protecionista em relação às suas decisões, a ponto de recusar o corte de qualquer cena de seu roteiro, quando dos pedidos de Joe. Além disso, também pelo fato de morar reclusa em sua grandiosa mansão, que, por sinal, é cheia de retratos da própria Norma, e possui dois andares, em cujo topo ela gosta de estar, o que sintetiza visualmente seu egocentrismo.

Ao aparecer para as câmeras, ela desce as escadas, como uma deusa que quer se mostrar aos seus súditos… e vai, em um estado embriagante de vaidade, se dirigindo à frente, até que o plano da câmera a enquadre por completo, e reste apenas ela, e a escuridão não qual ela mesma se colocou.

 


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

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