Nova Hollywood em Foco: Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (1966)

Um filme que merece sempre ser revisitado é este grande clássico, estrelado pelo casal Elizabeth Taylor e Richard Burton, que trazem para as telas a química que realmente já possuíam na vida real como casados.

Diferentemente de uma produção anterior estrelada pelo casal, o grande épico Cleópatra, aqui temos uma produção de baixíssimo orçamento, com uma narrativa que gira em torno de apenas quatro personagens, se passando quase que exclusivamente dentro de sua casa, e a trama sendo desenvolvida pela fluidez dos diálogos, apoiada na ações e reações de cada personagem quando é perguntado ou provocado.

Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? concentra-se na vida do casal George e Martha. Ele, um professor de História casado com ela, a filha do reitor da universidade onde George trabalha. À propósito, ele é supostamente encarregado de substituir a administração do sogro, o que nunca chega a acontecer, e é motivo de constantes brigas entre o casal, por isso.

Em uma troca de farpas sem precedentes, dentro de uma relação profundamente desgastada, já somos apresentados ao casal, com Martha sendo sempre extremamente indelicada com o marido, frequentemente rebaixando-o e provocando-o, por ele ser um homem tão sério e quieto, e não eufórico como ela gostaria que ele fosse.

Inicialmente bastante compreensivo, chegamos a lamentar por George, por conseguir suportar uma esposa tão inconveniente e irritante. Até que a surpresa da visita de um jovem casal, colegas da Universidade, em plena madrugada, acertada sem sua permissão, pega George de surpresa, e inflama nele um gatilho de reatividade tóxica, que, ao longo da trama, vai se mostrando ser absolutamente desproporcional.

Ao contrário de Martha, que é sempre invasiva e espalhafatosa, mas possui muitas nuances dentro de sua personalidade, George, por sua vez, é a personagem que sofre as maiores modificações no desenrolar da trama, pois começa extremamente dócil e compreensivo, e vai gradualmente se tornando o mais cínico e perverso das quatro personagens.

O jovem casal, Nick e Honey, são logo surpreendidos pela percepção da troca de insultos entre os anfitriões, se sentindo incomodados, mas são sempre convencidos a permanecerem na casa. Ao que tudo indica, na abertura genialmente sutil do longa, George e Martha voltam para casa de uma festa em que já haviam tido um contato inicial com o outro casal. Por retornarem de madrugada à casa, George, já cansado, nem imaginaria que ainda haveria de ter que receber visitas naquela mesma noite. Já regados a muito álcool da festa anterior, acabam por beber ainda mais, com os convidados. A bebedice abre espaço para que as maiores verdades inconvenientes surjam e “roupas sejam lavadas” durante as conversas, e o estresse emocional os tornem pessoas desprovidas de empatia humana.

Inicialmente recebendo com educação seus convidados, George e Martha acabam fazendo deles parte de seus insultos, gerando um vendaval de situações de constrangimento, em que há momentos específicos de compreensão entre os representantes dos respectivos sexos.

Dentro disso, uma relação distanciada e incômoda se dá entre George e Honey, ao passo que uma atração nítida se percebe entre Martha e Nick, em que a anfitriã constantemente fica se insinuando para o convidado, para provocar George.

Realidade e ficção parecem se confundir a partir de determinado momento da trama, e um tom alegórico se faz perceber; sobretudo pelas frequentes alusões a um suposto filho distante do primeiro casal, que deveria estar visitando-os quando de seu aniversário de 16 anos. Um filho que nunca aparece no decorrer da trama, e não se sabe se ele existe de fato ou não, se é fruto da projeção imaginativa de George e Martha ou se existiu e foi vítima de algum acidente trágico e fatal.

Uma determinada história que George conta a Nick, supostamente sobre uma tragédia que presenciou em seu passado, envolvendo um menino que matara acidentalmente os pais, tem contornos de confusa interpretação, com dois arcos narrativos que parecem não se conectar organicamente entre si, e que podem ser frutos de sua embriaguez. Posteriormente, esta mesma história revela-se ser a história de um romance literário que George estava escrevendo e que nunca conseguiu publicar, tendo-lhe sido negado pelo próprio sogro, o que Martha usa para humilhá-lo em determinado momento. Mais desconcertante ainda é a revelação subsequente de que a história seria algo baseado na própria vida de George.

Não menos interessante é a suposta gravidez histérica de Honey, que teria tido fundamental importância para Nick aceitar se casar com ela, e que, depois, revela-se ser um suposto caso de aborto provocado, motivado pelo mesmo intento. O tom ambíguo da trama confere ao texto profunda riqueza e densidade, permeando vários aspectos emocionais da alma humana e abordando interessantes dilemas familiares e sociais.

Em certo momento, os dilemas de Nick e Honey logo confundem-se com os de George e Martha. Lacunas são abertas na história. Mistérios se evocam. Ficção e realidade continuam a se confundir:

– Tanto Martha quanto Honey parecem ter perdido um filho. Respectivamente, há sinais de que uma parece ter sido vítima de um aborto espontâneo – provavelmente decorrente de um acidente – e a outra parece ter provocado um aborto. Suas tramas se confundem.

– Nick é loiro e tem olhos claros, assim como o suposto filho de George e Martha.

– O suposto adultério de Martha não chega a se consumar, pois Nick falha de tão bêbado; mesmo assim, é no momento em que flagra o adultério da esposa que George “decide que o filho deles está morto e tem que contar a ela”, como um marido traído que quer matar o homem que seduziu sua mulher. Para Nick, um Complexo de Édipo com uma conclusão inversa. Ou será que não? Não se sabe. Tudo é incerto.

Nick acaba quase sendo uma alegoria do filho, evidenciada no final, quando George os despede dizendo “crianças, subam para o quarto”, ou seria ele e Honey a versão mais jovem de Martha e George, que também não sabem se casaram pelas razões certas?

Um filme com muitas camadas, reflexões, alegorias, metáforas, críticas sociais. São colocados em xeque o Patriarcado, o significado do matrimônio, as conveniências sociais, a liberalidade sexual, a opressão familiar, os limites e gatilhos da decência e sensibilidade humana.

Como uma melodia que toca sempre as notas erradas, o relacionamento entre as quatro personagens faz nutrir as piores partes de si mesmos. A carnificina verbal pode deixar o espectador exausto e impactado. Uma excelente obra em que os níveis mais decadentes da condição e da natureza humana são explorados.

Com um título que faz referência à Virginia Woolf, uma importante escritora britânica conhecida por ser muito depressiva e ter se suicidado – autora de uma obra chamada Dia e Noite, que justamente foca as relações cruzadas entre quatro personagens – e cujo nome está em uma cantiga popular que tem a mesma melodia de Quem Tem Medo do Lobo Mal? (a ideia de se destruir uma casa é pertinente em um sentido figurado aqui), o longa – baseado numa peça teatral de mesmo nome – se encerra de forma brilhante pela admissão de Martha de que sim, ela tem medo.

A mesma personagem que começa a cantar a melodia é a mesma que responde à pergunta contida nela: uma mãe que tem medo de não ser funcional ao Patriarcado, ou que tem medo dos dilemas do matrimônio, apesar de todas as suas liberdades individuais. Medo de não saber amar, medo de não saber casar, medo de não ter um filho, medo de não continuar de forma digna a reputação de seu pai. Medo de sucumbir à própria deprimente condição em que se colocou. Medo de viver a vida, com todos os problemas e dilemas que ela traz.


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

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