MIB: Homens de Preto: Análise de um Fã Não-Neuralizado

Em 1997, era lançado o filme MIB – Homens de Preto, uma comédia de ficção científica no maior estilo buddy cop movie, estrelando Tommy Lee Jones e Will Smith.

O filme foi um grande sucesso de crítica e de público, se tornando um pequeno clássico, e, inclusive, indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Comédia ou Musical na época. O mesmo acabou gerando uma das franquias mais rentáveis da Sony Pictures.

O que muita gente não sabe é que o filme é baseado em uma minissérie de quadrinhos da Malibu Comics (editora posteriormente comprada pela Marvel), escrita por Lowell Cunningham.

As HQ´s, por sua vez, inspiraram-se nas lendas urbanas existentes na cultura norte-americana sobre as figuras chamadas de “Homens de Preto”, agentes secretos do Governo designados a investigar aparições alienígenas na Terra, e constranger ou até mesmo executar supostas testemunhas de aparições de ÓVNI´s. Sim, isso mesmo que você leu: executar.

Os Homens de Preto eram figuras misteriosas e sombrias do folclore moderno, intimidadores e nem um pouco amigáveis, ao contrário dos heróis do cinema, que apenas neuralizam as testemunhas de aparições extraterrestres, ou seja, apagam suas memórias. Dirigido por Barry Sonnenfeld, o filme adotou uma narrativa leve e bem-humorada.

O filme rendeu duas sequências. Ao contrário da inventividade do primeiro filme, o segundo contou com um roteiro que praticamente recontava a mesma dinâmica entre os protagonistas e muitos dos eventos e piadas do primeiro filme, além de uma trama absolutamente parecida, sem trazer nenhuma novidade para a mitologia da saga.

Já o terceiro filme, lançado 13 anos depois, tentando se distanciar ao máximo dos anteriores, trouxe uma história mais sofisticada, abordando a questão da viagem no tempo e de realidades alternativas.

Este contou com um vilão bem mais amedrontador e bem interpretado do que os dos filmes anteriores, e com um final que conclui de maneira digna a história da dupla de agentes K e J, explorando a origem da relação entre os dois, de uma maneira que ninguém esperaria.

Portanto, apesar de um segundo filme irregular, o terceiro filme conseguiu fechar com chave de ouro a franquia de filmes, que constitui o carro-chefe da saga.

A Franquia

A trilogia de filmes inteira contou com a direção de Barry Sonnenfeld (A Família Addams 1 e 2, Desventuras em Série), que embutiu as histórias de muito humor nos diálogos e em situações, com direito até a um pouquinho de humor negro. A produção executiva é de ninguém menos que Steven Spielberg.

Os filmes são marcados pela belíssima Direção de Arte de Bo Welch, que proporcionou uma atmosfera sombria, com uma paleta de cores quase monocromática, em que o branco de fundo da agência contrasta com o preto dos ternos dos agentes.

A Maquiagem e o Design dos Alienígenas ficaram a cargo de um dos maiores do ramo, Rick Baker, responsável pela maquiagem de inúmeras criaturas em vários filmes. Seu trabalho mais notório foram os zumbis do videoclipe de Thriller, de Michael Jackson.

A Trilha Sonora também não poderia ser melhor. Danny Elfman, uma lenda na composição musical de cinema – responsável pela trilha da maioria dos filmes de Tim Burton – compôs uma sinfonia sombria e espirituosa, com um tema marcante que abrilhanta a obra.

Por coincidência – pela minha admiração ao trabalho destes três profissionais – o longa original foi justamente indicado ao Oscar nessas três referidas categorias, sendo que chegou a vencer a estatueta dourada por Maquiagem.

Porém, filmes à parte, a melhor coisa da franquia foi a série animada derivada do primeiro filme, MIB – The Animated Series. Com um design de personagens interessante, realista e um pouco estilizado, feito pelo grande ilustrador e quadrinista galego Miguelanxo Prado, a animação tinha enredos até mais inteligentes do que os dos próprios filmes, tornando-se uma das melhores séries animadas de ação dos anos 90.

E não perguntem por que raios a Agente L e o Zed na série animada não se parecem em nada com os atores que os interpretam nos filmes, ao passo que K e J são nitidamente baseados no visual de Tommy Lee Jones e Will Smith.

Normal. Ela só resolveu pintar o cabelo.

Os Furos

Isso nos leva ao fato de que, por mais sensacionais que sejam os filmes e a série, a saga tem lá suas incoerências. Mais precisamente, isso nos leva aos motivos pelos quais o segundo filme poderia ter sido bem melhor, caso fosse motivado mais por senso artístico e narrativo do que por… cifras. Milhões delas.

(A partir daqui, é importante ressaltar que o texto será um pouco mais proveitoso para quem já tiver assistido aos filmes).

Bem, se você bem se lembra, o primeiro filme termina com K pedindo para ser neuralizado por J, e L se tornando sua nova parceira. Para começar, esta conclusão já não faz tanto sentido assim, visto que K não só trabalhou por décadas na MIB como também é um dos fundadores da organização.

Por que logo ele – com seu vasto conhecimento e experiência – iria passar o bastão de forma tão imediata assim para seu parceiro, que é um novato que só chegou a realizar uma única missão com ele? O ideal seria J ter sido treinado pelo mentor veterano, no mínimo, durante meses, para poder se aperfeiçoar como agente de campo. Que dirá L, que entrou depois dele.

“Como é que eu vou me virar sozinho agora? Meu treinamento só durou um único dia!”

Além disso, com base nesse final, não faz sentido a série animada mostrar o Agente K ainda sendo parceiro do Agente J ao mesmo tempo em que L trabalha na MIB como médica e cientista.

Isso só faria sentido se considerássemos a hipótese de que K, em algum momento entre o primeiro filme e a série, foi desneuralizado e voltou a ser agente, tornando-se novamente parceiro e mentor de J, fazendo com que L mudasse de cargo e função dentro da agência.

Mas, peraí,… K sendo desneuralizado e voltando à agência viria a ser o plot do segundo filme. Porém, detalhe: no começo do filme, J tem um Agente T como parceiro, e chega a mencionar ligeiramente, em um diálogo com Zed, que neuralizou L. Pois segundo ele, “ela queria voltar pro necrotério e ele só deu uma força”. (Antes de ser agente, L era Laurel Weaver, uma médica legista que trabalhava em um necrotério). Ou seja, adeus, coerência.

Em que realidade então K e L são agentes contemporâneos, como mostrado na série? Um “chute na bunda” de uma personagem tão interessante, bem conveniente para um roteiro que, convenhamos, queria apenas encontrar uma justificativa para surfar novamente em cima da química entre Tommy Lee Jones e Will Smith.

O resultado foi uma sequência que, apesar de divertida, com boas cenas de ação e mais alienígenas grotescos (além de ter rendido o melhor clipe musical da carreira de Will Smith), não acrescenta nada à saga dos personagens.

Eis um desperdício de trama para um universo tão cheio de possibilidades como a Terra habitada por alienígenas escondidos entre nós. E um desperdício de personagem, no caso da Agente L, que foi simplesmente colocada para escanteio sem nenhuma razão, quando ela poderia ter sido uma importante personagem, assim como ela era na série animada.

Sugestões (e mais furos)

O segundo filme poderia ter desenvolvido a atração romântica/sexual entre J e L. Depois que se tornaram parceiros, seu contato mais próximo poderia ser interessante para uma química entre os dois que beirasse o romance, levando a trama a discutir questões pertinentes dentro da mitologia da saga, como a proibição de relação matrimonial entre agentes, já que eles são pessoas sem identidade oficial na Terra.

A volta de um K desneuralizado, dentro disso, poderia proporcionar um conflito pessoal para os três personagens, podendo ser abordada uma rixa entre K e L (se bem lembrarmos, Laurel não ia muito com a cara de K no primeiro filme, enquanto arrastava umas asinhas pro J), o que proporcionaria muito humor se essa relação entre os três fosse desenvolvida de uma maneira eficiente e hilária.

Com o conflito de cargos – já que os agentes só andam em duplas – como ficaria a posição da agente L como parceira de J, depois que K retornasse para ajudar a desvendar um mistério? Esses conflitos pessoais entre esses três personagens centrais dariam um segundo filme e tanto.

Além disso, isso justificaria justamente a ideia de ela ter trocado de função na agência e se tornado, por exemplo, uma médica e cientista da MIB, como mostrado na série!!! Isso faria com que a série animada e a trilogia de filmes fizessem sentido entre si, formando um cânone preciso para a franquia! Era só considerarmos que a série se passaria após os eventos desse segundo filme.

Mas foi isso que tivemos? Ahm… Não! Além de a série animada ter aproveitado os personagens principais sem ter levado muito em conta a conclusão do primeiro filme, ainda por cima, quando tiveram a chance de corrigir essa imprecisão no segundo filme, não o fizeram, ao se absterem da presença da Agente L. Assim, continuou não havendo sentido entre os filmes e a série.

Isso só mostra que: primeiro – a equipe de realizadores dos filmes é completamente diferente da equipe da série, e eles nem tiveram o trabalho de trocar informações entre si; e, segundo – a decisão de trazer o K de volta na sequência foi muito mais para repetir a fórmula do primeiro e render dinheiro do que qualquer outra coisa.

Apesar das incoerências com relação ao filme, a série teve a decência de trazer histórias muito bem escritas, com tramas instigantes e que desenvolveram mais o universo da saga. Eu ouso dizer que talvez seja uma das melhores séries de TV já produzidas.

À propósito, um dos melhores episódios da série (T1E12 – A Síndrome do Sono) retrata justamente a atração que J sente por L, de forma hilária, o que parece dar eco à curiosa e breve relação entre os dois, apresentada no longa original. Fala sério, não dá para não shipar esses dois.

O problema da série fica por conta de um anacronismo. Por alguma razão, o J da série ainda se comporta como um novato aprendiz; já L esbanja experiência e conhecimento de raças alienígenas, como se estivesse na MIB há décadas, apesar de ambos terem sido recrutados para a organização quase que praticamente no mesmo dia, segundo o roteiro do filme. É como se os roteiristas tivessem confundido sua experiência como médica legista comum e tivessem incorporado isso ao conhecimento de organismos extraterrestres.

Não ajuda também o fato de que, apesar da personalidade de L na série equivaler de certo modo à do filme, o mesmo não se pode dizer de Zed. Na série, ele é bastante temperamental, o que não era exatamente sua personalidade nos filmes. Mas, enfim, Zed sempre foi totalmente secundário.

Voltando à questão da sequência, além da desneuralização de K, outra solução seria brincar com uma questão de viagem no tempo e de uma realidade alternativa, temas que chegaram a ser utilizados no terceiro filme, mas apenas para contar uma história específica do mesmo.

Desenvolvimento de Personagens (ou a falta disso)

– O J Empolgadinho

A mania de J em neuralizar seus próprios parceiros no segundo filme não coincide muito com o comportamento dele no primeiro filme. Vejamos, J ficava constantemente irritado com K por ele ter usado o neuralizador em Laurel várias vezes! Como é que, depois, ele mesmo viria a neuralizá-la? Isso desconsidera a preocupação que ele tinha em relação a ela.

Por mais que se diga que, ok, ele passou a ficar animadinho em possuir um neuralizador, e a ideia de poder usá-lo o faz se sentir útil e no controle, mesmo assim, essa mudança de comportamento do personagem não é lá tão interessante, já que a ideia da dupla é o contraste entre a personalidade de K e J.

J era a parte mais sensível da dupla, além de mais engraçado, até por ser o novato; já K era mais sisudo e não tinha o mesmo pudor de neuralizar pessoas, sendo ele o veterano, inclusive.

Se depois o próprio J também não tem mais esse pudor, o contraste se perde. Com exceção, é claro, do interesse amoroso dele no segundo filme, a vítima interpretada por Rosario Dawson. Só aí, ele hesita em neuralizar alguém novamente!!! Ah-há!

Pois é, esse sentimento que o levou à hesitação já era o que residia nele em relação à Laurel, e se isso tivesse se desenvolvido de maneira orgânica, não teríamos tido uma personagem coadjuvante tão desnecessária, passageira e pouco marcante na sequência.

Ou seja, tiraram uma personagem que era interesse romântico de J, apenas para inserirem outra personagem que também é interesse romântico de J! Não faz sentido! Trabalhassem apenas a L, desenvolvendo sua importância na trama.

Detalhe: o nome da personagem de Rosario Dawson no segundo filme é Laura! Quase o mesmo nome da agente L, que é Laurel. Aff… Isso chega a ser ofensivo para a inteligência de um espectador fã.

Alguma dúvida de que o segundo filme é irrelevante para a saga? Demorou para eu perceber isso. Eu amava o filme na infância.

– O Reencontro de K e J

Os espectadores mais atentos também vão perceber que a maneira com que J aborda o neuralizado K no segundo filme, para lembrá-lo de quem ele foi, não faz muito sentido. Vejamos, K sequer consegue lembrar da fisionomia de J, por estar neuralizado.

Mas, na verdade, se considerarmos o contexto da neuralização, seria coerente que J, em seguida, tivesse forjado uma narrativa falsa para K, assim como aquelas que os Homens de Preto contam quando neuralizam vítimas, para fazê-lo retornar à sua vida pacata.

O neuralizador apenas apaga memórias, não teletransporta pessoas, por exemplo. Sendo assim, após K ser neuralizado, ele ainda estaria vendo J bem em sua frente.

No caso de K, a narrativa falsa que o fez poder ingressar na MIB foi um coma, como mostrado na cena final do filme original, quando J o vê na reportagem do jornal.

Ou seja, era para K reconhecer J sim, porém, não com a identidade de Agente J, mas sim como sendo uma outra pessoa qualquer, tipo “aquele bom senhor negro que me conduziu até o hospital de onde fugi porque fiquei… sonâmbulo?” Ou algo do tipo.

Além disso, é claro que, antes da neuralização, o ideal seria o K ter trocado de roupa, substituindo os ternos pretos por um robe hospitalar ou algo que ajudasse a comprovar a narrativa falsa que criaram para ele.

Mas, enfim, o corte da edição do filme que vai do flash do neuralizador até a cena do J vendo a foto de K no jornal ficou tão legalzinha e dinâmica que dispensou maiores explicações; e, aparentemente, o próprio diretor Barry Sonnenfeld pareceu estar neuralizado também quando foi rodar a sequência.

Além do mais, K ter trocado de roupa deixaria a cena final menos elegante, não é mesmo? Então, era só explicar que, enquanto sonâmbulo, K ainda conseguiu roubar um terno preto do hospital… sabe-se lá de quem… depois de ter estado em coma por… 35 anos?

Aparentemente, esse hospital tem restrições bem sérias, para não ter deixado nenhum familiar ou amigo e até a própria amada dele sequer visitá-lo durante todo esse tempo. Isso é um hospital ou uma penitenciária?

A menos, é claro, que K tivesse sido substituído por um modelo mecatrônico ou fantasia humana com a aparência dele. O que também não faria muito sentido, já que, em primeiro lugar: K foi um dos Fundadores da organização, ou seja, seu ingresso na MIB foi durante a própria formação da mesma. Provavelmente, não havia ainda esse tipo de tecnologia na época, pois sequer existia a MIB (apesar dos filmes nunca procurarem explicar muito bem de onde vem a tecnologia para os modelos mecatrônicos, o que fica estabelecido na série animada, pelo menos, é que a própria MIB desenvolve esses modelos, e os providencia aos imigrantes alienígenas legais, para se disfarçarem de humanos. E os ilegais, portanto, devem conseguir algum meio de aquisição desses trajes e modelos por contrabando).

E, em segundo lugar: K ainda era um adolescente quando presenciou o Primeiro Contato e entrou para a organização, ou seja, o modelo mecatrônico de disfarce teria que ser a de sua fase jovem, e que, portanto, jamais envelheceria no decorrer dos 35 anos que K trabalhou como agente.

– A Desneuralização

Também não chega a fazer muito sentido o modo como se retrata a recuperação da memória de K. Mesmo nunca tendo percebido que seus próprios colegas de trabalho dos Correios eram todos aliens, bastou ele sair da loja do Jeebs, após ter utilizado o desneuralizador improvisado dele, que K começou a perceber aliens por todos os lados?

Por acaso, o Jeebs tinha um desneuralizador ou um, sei lá, potencializador de alcance de atenção? Todos os ET´s que estavam passando por aquela rua naquela mesma hora da noite resolveram ficar descuidados ao mesmo tempo? Era só para K recuperar a memória, não virar o Sherlock Holmes.

Por fim, a neuralização de K não teve nenhum tipo de função narrativa entre o primeiro e o segundo filme, já que isso só serviu para tirar o veterano de atividade e introduzir uma personagem feminina interessante que, em seguida, foi descartada, trazendo-se de volta o veterano…. Pra quê os roteiristas neuralizaram o K então?

Isso nos faz voltar à questão da impertinência de ele ter recrutado J como substituto. Àquela altura, K já tinha vivido e visto tanta coisa que é óbvio que, um dia, a MIB iria precisar dele para obter informações que só uma pessoa como ele saberia. Ou seja, a decisão de trazer K de volta faz sentido, mas a maneira como fizeram isso é que foi equivocada, numa trama que repete os mesmos arquétipos do filme anterior.

– “Sequência Idiota, Profundidade Zero”

E não, aquela conversinha entre J e K no estacionamento dos Correios não ajuda a dar mais sentido ao retorno de K à agência. Então, quer dizer que a mulher de K viveu o suficiente para retornar para ele após os “35 anos de coma” em que ele ficou, para depois simplesmente largá-lo, porque… “ele ficava observando as estrelas à noite”???

Deixa eu ver se entendi: uma mera distração frequente e falta de pertencimento por parte dele foi o que fez ela querer largá-lo, mesmo após 35 anos desde que ela o havia “perdido”?

Para alguém que reencontrou um velho partido dos tempos de juventude, recém-saído de um coma, 5 anos (tempo entre a história do primeiro e o segundo filme) de casamento foi um tempo curto demais para um amor tão verdadeiro terminar, visto que: em primeiro lugar, eles só não haviam ficado juntos até então devido ao falso coma de K, e em segundo lugar: ela não havia procurado nenhum outro relacionamento desde então.

Isso sem mencionar que o divórcio foi tão irrevogável a ponto de K não ver problemas em retornar à organização. Por acaso, será que ele forjou um coma de novo???

Além disso, o “olhar para as estrelas” foi uma ideia muito jogada de qualquer maneira, uma tentativa simplória de conferir algum tipo de abordagem profunda e poética que não leva a lugar nenhum. Se um filme tem um tom despretensioso à la De Volta para o Futuro, não adianta tentar inserir um diálogo sentimental digno de E.T – O Extraterrestre do nada.

Por falar nisso, o que foi aquela trama sobre o envolvimento de K com uma humana de outro planeta – a Princesa Laurana? É, parece que não foi muito difícil para K esquecer “o grande amor de sua vida”, já que ele foi pegador demais pro meu gosto, enquanto foi agente. Além de haver tido uns flertes com a Agente O, ainda engravidou uma alien?

Ah, e tudo bem para o roteiro fazer com que ele descobrisse que teve uma filha – Laura – para, logo em seguida, ter que enviar a moça tranquilamente de volta ao seu planeta-natal e nunca mais vê-la. Ah tá, normal. Eu sei que K é um homem desapegado e introspectivo, mas peraí né?! Que pai mais desnaturado é esse?

Uma filha não é tipo um antigo colega da faculdade que você não via há muito tempo, dá um toque no ombro e um abraço, e se despede. Uma maior profundidade desse dilema por parte dos roteiristas bem que cairia bem; isso se eles estivessem mais preocupados com dramaturgia do que com efeitos especiais, é claro.

Não obstante, K também chegou a ter um interesse amoroso na série animada, a alien Aileen, que é uma agente da MIB nas horas vagas, uma espécie de correspondente alienígena da organização, apresentada em T1E8 – A Síndrome do Adeus, Meu Amor.

E nada de maiores detalhes a respeito da antiga amada, ou paquera juvenil, ou namorada – ou seja lá o que for – de K, vista brevemente no filme original na cena em que ele a observa da visão de um satélite. Só se sabe que K estava indo levar flores para ela no momento em que foi interrompido pelo Primeiro Contato Oficial de Aliens.

– O Primeiro Contato

Uma dissonância entre o filme original e a série é o número de pessoas quando do Primeiro Contato. No filme, K diz ao então ainda James Edwards que foram nove os presentes no local: sete agentes, um astrônomo e um garoto que estava passando por ali – no caso, ele. Já na série, num dos melhores episódios (T1E10: A Síndrome da Viagem), apenas cinco são mostrados: os chamados Quatro Velhos Fundadores, e ele.

Isso também é visível pela foto da Recepção que K mostra a J, em que o jovem K dá flores ao alienígena. O buquê em questão é justamente o mesmo que ele estava indo levar para sua amada. Na foto do filme, aparecem exatamente nove pessoas. Essa mesma foto aparece no referido episódio da série animada, com apenas cinco pessoas.

Considerando que personagens como Zed e mesmo Alpha (antigo mentor de K na série) não estão entre os Quatro (os agentes T, D, Q e H), faria sentido que eles estivessem entre os Nove. Por ser o chefe da organização no enredo dos filmes e da série, Zed deveria ter sido um dos fundadores.

Tem caroço nesse angu. Como diria K, há muitos mistérios do Universo não revelados mesmo. Ou os desenhistas da série apenas ficaram com preguiça de desenhar nove homens.

Quem é o gerente aqui?!

– Personagens secundários

Além de termos uma personagem muito bem apresentada, porém, não desenvolvida (Agente L), é pertinente perceber uma irregularidade na forma com que foram trabalhados os personagens secundários da saga.

O cachorro Frank e os Vermes são brevemente apresentados no primeiro filme. São figuras importantes para várias histórias da série animada, e têm seu papel narrativo aumentado no segundo filme. Porém, no terceiro, são absolutamente descartados. Frank é reduzido a um easter egg, e os Vermes aparecem por segundos na tela, de forma distanciada e passageira. Ué, eu pensei que fossem personagens importantes para a saga. (Foi tipo a falta da Betty em Toy Story 3, por exemplo. Mas, pelo menos, ela foi mencionada, e voltou no quarto filme, toda badass).

Acho que eu preferia a versão meio ranzinza do desenho do que a versão “fumante e no cio” dos filmes.

Não menos incoerente é a mudança de personalidade dos Vermes (ou Minhocas – a dublagem não se decidiu) entre a série animada e o segundo filme. Na série, elas eram simpáticas aliens, inclusive, de gênero não definido, com vozes de “Alvin e os Esquilos”, que eram engraçadas, atrapalhadas e tinham um vício inveterado por café. Já no segundo filme, elas se convertem em um monte de machos de voz grossa, fumantes, bon-vivants, marginais e com inclinações sexuais abusivas.

O vendedor Jeebs (interpretado por Tony Shalhoub) é outro que aparece no primeiro e no segundo filme, e aparece em vários episódios da série animada. Mas no terceiro filme… nhé. Tudo bem que o terceiro filme queria se distanciar ao máximo de ser parecido com os outros dois, mas não precisava também se esquecer de incorporar personagens frequentes da saga de alguma forma coerente.

E, por falar nisso, aquele vendedor gordinho que faz J viajar no tempo, no terceiro filme, bem que poderia ter sido o próprio Jeebs. Dá a impressão de que aquela cena foi escrita para se passar na loja do Jeebs. Não é ele quem contrabandeia artefatos alienígenas secretos?

De fato, é curioso que no já mencionado episódio da série T1E10 – A Síndrome da Viagem, retrata-se uma viagem no tempo, em que a máquina do tempo foi conseguida justamente na loja do Jeebs, pois Zed ainda havia proibido esse tipo de tecnologia para os humanos.

– Participação especial

Há um dado curioso. O ator David Cross, que faz uma ponta como o recepcionista do necrotério que é morto pelo vilão Edgar no primeiro filme, volta a fazer uma ponta no segundo filme, como o cara da locadora que K visita. E no terceiro, ele não aparece também. Ok, isso não é nada de relevante e nem é um furo, apenas uma curiosidade mesmo para ressaltar ainda mais o fato de até nisso o terceiro filme tentar se distanciar dos demais.

– Otras cositas más

O terceiro filme também foi o único da trilogia que não gerou uma música com videoclipe estrelado por Will Smith. Problemáticos os bastidores desse filme devem ter sido. O clipe da vez ficou a cargo do rapper Pitbull.

Além disso, apenas o terceiro filme não termina com uma sequência enigmática. No primeiro, nossa galáxia é mostrada como existindo dentro de uma bola-de-gude alienígena (brincando com uma questão de Proporção).

No segundo, uma área de acesso proibido dentro de uma sala da MIB leva a um armário escolar de uma raça alienígena (brincando com a questão de Multiverso).

No terceiro, eu estava esperando ansiosamente para ver o que eles iriam fazer dessa vez… Porém, nada. Não que o alien Griffin falando com o público também não tenha sido simpático.

– A Morte de Zed

Outra coisa frustrante é a morte absolutamente gratuita de Zed no terceiro filme. A morte dele nem chega a ser explicada. Não se diz se foi por causas naturais ou se por homicídio por parte de algum alien, por exemplo. Isso já renderia um plot interessante para uma história. Tipo “Quem matou Zed?”

Claro, pessoas morrem. Mas estamos falando do roteiro de um filme, e tudo tem que ter um propósito para a trama. Os acontecimentos não podem ser avulsos. Só em Boyhood.

A decisão de matarem Zed deve ter a ver com o fato de que o ator que o interpretou, Rip Torn, estava preso na época por porte ilegal de armas, aparentemente roubando um banco. (Nem me pergunte). Anos depois, o ator viria a falecer. Que Deus o tenha.

Assim, Zed foi substituído por uma personagem que é até interessante, porém, mal explorada, a já mencionada Agente O, que além de desperdiçar o talento da grande Emma Thompson, tem uma inicial que só foi feita assim para servir àquela piadinha de J. Aff. Não, Emma, você não precisava disso.

-Os Outros Agentes: Quem são? O que fazem?

Uma questão que incomoda um pouco é o fato de não sabermos absolutamente nada sobre outros agentes da organização. Inclusive, há um personagem na quarta temporada da série animada, o Agente X, que é um alien que se torna agente.

Tudo bem, não precisamos necessariamente abordar outros agentes. Mas na MIB, deve haver, tipo, dezenas de agentes de campo. Teoricamente, 26, para ser exato (se os agentes são identificados pelas letras iniciais de seus nomes, isso significa que só podem existir até 26 agentes? Cada um para cada letra do alfabeto?). Bem, isso não confere com o número de agentes que podem ser vistos como figurantes em cenas, mas enfim…

E qual é a das iniciais? Não se pode contratar um John se já houver um James, já que só pode existir um Agente J? Enfim…

E não deixa de ser conveniente e fácil para o roteiro dos filmes nunca explorar outras duplas de agentes de campo. Por que são sempre o K e o J que precisam salvar o mundo? Os outros agentes de campo ficam fazendo o quê? Apenas monitorando imigrações ilegais e perseguindo aliens trombadinhas, sem grandes aventuras?


– Os Gêmeos

Acrescente a isso o fato de que os Gêmeos, chamados Idikiukup e Bob, alienígenas que trabalham na decodificação de mensagens de dialetos extraterrestres na MIB, aparecem no primeiro filme e com frequência na série animada, mas não aparecem em um mísero frame nos outros dois filmes! Isso sendo que eles deveriam estar sempre sentados em frente à tela oval do salão principal da agência! Os produtores simplesmente se esquecerem deles???

Sério, eu acreditaria se me dissessem que os Homens de Preto existem de verdade e que eles neuralizaram os roteiristas.

O Reboot

– A Proposta

Pelos motivos já mencionados, MIB é uma franquia que clamava por um reboot.

E eu mal consegui acreditar quando vi sendo anunciado um spin-off da saga. MIB: Internacional é mais uma dessas produções que tentam ser um misto de sequência/reboot/spin-off.

Assim como O Despertar da Força foi uma reapresentação da saga Star Wars para as gerações atuais, não deixando de ser uma espécie de remake de Uma Nova Esperança; e assim como Jurassic World também foi uma reapresentação da franquia Jurassic Park, sendo uma espécie de remake do primeiro filme da série; ou, ainda, como O Retorno de Mary Poppins, da Disney, é uma sequência que está mais para um remake do clássico Mary Poppins do que qualquer outra coisa (e muito melhor, diga-se de passagem); assim também, MIB: Internacional teve a difícil tarefa de reapresentar o universo da franquia MIB para uma nova geração, tentando ser o equivalente ao que o clássico de 1997 foi para sua geração.

Thor e Valquíria em uma realidade alternativa. Diz que sim, diz

E o resultado foi… bem… interessante para mais uma aventura despretensiosa, aventuresca e cômica, mas que tematicamente não apresenta nenhuma inovação para a saga.

Apesar de se explorar questões inéditas da saga nesta trama, como o fato de ter uma protagonista que é uma menina cujos pais foram neuralizados, proporcionando uma nova perspectiva – além da exploração de outras sedes MIB espalhadas ao redor do globo – a história não aproveita tão bem essas questões para além do que se esperaria de um filme de Sessão da Tarde.

– A Trama

MIB: Internacional está longe de ser um filme péssimo, mas está na linha do medíocre dentro do gênero escapista que abraça. Com um vilão previsível, além de uma trama bem esquecível, as virtudes do longa ficam por conta da ótima química entre Tessa Thompson e Chris Hemsworth; do pequeno Pawny, alien coadjuvante que encontram no caminho; e dos ótimos efeitos especiais e cenas de ação.

Há uma interessante interação entre a dupla protagonista e uma exploração da vida pessoal e dos sentimentos dos protagonistas em um nível até mais profundo do que a trama se permitia com K e J no filme original. E, sinceramente, isso é o que faz valer a pena este novo MIB. Tudo isso com diálogos interessantes e sagazes, e um bom humor sempre presente.

Porém, infelizmente, não foi dessa vez que vimos o enredo básico da franquia atingindo uma ambição maior. Questões políticas, sociais e filosóficas seriam muito bem-vindas em histórias de MIB. Inclusive gêneros como thriller, drama, o noir e o horror seriam bem pertinentes.

– Representatividade e Consciência Autoral

O filme é positivo ao apresentar uma protagonista mulher em um filme que se chama Homens de Preto. Até se permitem fazer uma brincadeira com isso. E os agentes M e H, sem dúvida, são personagens muito interessantes, que dá muito gosto de rever. Mas não em histórias do naipe desta, por favor.

Apesar da positiva surpresa de ser dirigido por um novo cineasta (F. Gary Gray), não houve aqui uma perspectiva autoral em nenhum sentido, que destoasse essa produção do estilo de Barry Sonnenfeld. Saber que este novo diretor dirigiu um filme de Velozes e Furiosos, neste caso, revelou uma primeira impressão pertinente. A condução da ação é o grande vetor desta produção, mais até do que na trilogia original.

O tom de humor do filme assume um tom camp em muitos momentos, além de adultos em outros, chegando ao mal-gosto quando tenta piadas mais ousadas. Há algumas piadas de cunho sexual que não foram muito felizes para um filme que tenta ser uma aventura friendly-family, mesmo com uma abordagem adulta mais suave.

Há gags bem controversas, ainda mais se comparado com o primeiro filme, que envelheceu muito bem no geral. Há duas piadas de cunho sexual bem problemáticas, em que a gravidade dos acontecimentos é negligenciada para efeitos cômicos. A primeira envolvendo uma extorsão sexual, ou chantagem sexual, por parte de uma alienígena fêmea que quer se deitar com H. E o fato de ele se submeter a essa circunstância abusiva é colocado como a punchline da piada. A outra é quando H está praticamente oferecendo M para seu amigo alienígena informante (e que está no cio) para que, assim, M consiga ludibriá-lo para conseguir informações dele. E H faz isso sem perguntar antes se M consentia com essa situação. Apesar desta inconveniência ser apontada pela própria reação de M, a situação foi desnecessária.

Além disso, não sei se isso é só uma ridícula coincidência mesmo, mas há uma dupla de vilões gêmeos que são a grande ameaça da trama até o terceiro ato, e que se chamam justamente Gêmeos!!! Lembram daqueles aliens que trabalham na MIB e que também se chamavam Gêmeos?! Não sei se era para ter um mistério interno ou se, de novo, os Homens de Preto existem de verdade e neuralizaram os produtores. Vou parar, senão essa teoria vai acabar pegando. Tem doido pra tudo.

Avaliação das obras da saga:
(de 1 a 5 estrelas)
– MIB 1: *****
– MIB 2: **
– MIB 3: ****
– MIB – Internacional: ***
– MIB – A Série Animada: *****

O Futuro da Franquia

Dito tudo isso, vindo de um longíncuo fã da franquia, que vive a vários parsecs de Hollywood, é conveniente perceber que, se a saga ainda tiver um futuro nas telonas (vide o fracasso de crítica e bilheteria de MIB: Internacional), há infinitas possibilidades a serem exploradas.

E seria muito bom se víssemos nomes em ascensão como J.J Abrams (Star Trek), Rian Johnson (Os Últimos Jedi), Jon Favreau (Homem de Ferro, Mogli, O Mandaloriano), Taika Waititi (Thor Ragnarok, Jojo Rabbit), Cathy Yan (Aves de Rapina) ou Peyton Reed (Homem-Formiga) escrevendo e dirigindo um projeto relacionado a essa franquia, que tem tudo para resultar em ótimos filmes ou séries, nas mãos certas.

Isso sem falar em possíveis novas HQ´s, que sejam spin-offs do universo dos filmes; e até games, mídia na qual a franquia nunca obteve êxito.

Há muito espaço para se conceber outros agentes, outros personagens e outros tipos de história, que se debrucem, inclusive, sobre um tema importante para os dias atuais, que foi abordado apenas de forma subjacente no filme original: a imigração ilegal. Preconceito, abuso de poder policial, colonização extraplanetária, bioética, e até mesmo pandemias (como a que vivemos agora) poderiam ser ótimos temas a serem retratados na saga. Há espaço para muitas narrativas para além do mero entretenimento fugaz.

Minha Fanfic

E, por falar nisso, este que vos escreve já começou a colocar em prática sua própria versão do que seria uma sequência alternativa do filme original de 1997, que propõe um desenvolvimento dos personagens tradicionais, baseado na sugestão mencionada no terceiro tópico deste texto.

Para quem quiser conferir esta minha singela e humilde contribuição a essa saga que eu amo tanto, segue o link para minha fanfic MIB: O Caos Invisível, disponível no Portal Nyah! Fanfiction:

https://fanfiction.com.br/historia/781276/MIB_-_Homens_de_Preto_O_Caos_Invisivel/

Ou melhor, queiram me acompanhar até esse link… e façam o favor de olhar para esse ponto de luz azul, por gentileza…

(Memória dos filmes 2 e 3 deletados com sucesso).


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

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