Desenhos Incríveis, o Show: cartuns nada infantis

Nos primórdios do canal a cabo Cartoon Network, nos idos dos anos 90, havia um programa chamado “Desenhos Incríveis, o Show”. O bloco exibia curtas-metragens animados dos mais variados. Em uma votação dos espectadores, os mais apreciados eram selecionados para dar início a uma série de TV.

Foi deste bloco que surgiram grandes clássicos, como “O Laboratório de Dexter”, “Johnny Bravo”, “As Meninas Superpoderosas”, “A Vaca e o Frango” e “Coragem, o Cão Covarde”. O curta deste último chegou a receber uma indicação ao Oscar de Melhor Curta-Metragem de Animação.

Portanto, os curtas acabavam funcionando como um teste de episódio piloto para séries de TV. Dentre tantas obras, é relevante analisar a qualidade técnica e estilística das animações, bem como suas narrativas.

Alguns chamam particularmente a atenção por apresentarem premissas muito interessantes, um estilo visual único e o uso da linguagem exagerada da animação para explorar temas profundos em narrativas mais sofisticadas, apesar de simples, diferentemente do escapismo das histórias dos curtas clássicos dos Looney Tunes, Tom e Jerry e desenhos da Hanna-Barbera, por exemplo.

Porém, uma coisa é certa. Poucas produções ali poderiam ser consideradas exatamente infantis. Muitas tinham ênfase em um humor negro, piadas ambíguas e temas bem adultos, bastante custosos ao público-alvo do canal, que era de maioria infanto-juvenil.

No entanto, eram exibidos em pleno horário nobre na TV fechada, mesmo com ambições adultas e cenas perturbadoras demais para esse público. Muitos deles seriam dignos do bloco Adult Swim.

Aqui, destaco os exemplos mais representativos de abordagem adulta em animações infanto-juvenis.

 

1.    A Tragédia de “Tales of Worm Paranoia”

Este curta conta a história tragicômica de uma minhoca-macho, que tenta conviver pacificamente no mundo, mesmo com o fardo de ser pisoteada constantemente pelo Homem.

Um dia, cai a gota d´água, e ela decide se vingar do Homem, preparando um veneno. Porém, sua namorada o impede, fazendo com que ele acidentalmente deixe cair o veneno em si mesmo. Daí, seu rosto fica bizarramente desfigurado, e, comovido com sua auto-comiseração, decide se redimir com o Homem. Sem ter sua existência notada, é recebido com mais pisoteadas.

O que chama atenção é o olhar e o semblante extremamente bizarro do protagonista, em um close super fechado, enquanto quebra a quarta parede olhando para o telespectador. Nada mais desconcertante, e que evidencia a proposta da história, que é sobre um ser vivo desprezado que quer ser notado.

As expressões faciais e os gestos da minhoca transmitem todo misto de sentimentos de serenidade e angústia da mesma. Temos uma inspirada performance da minhoca durante um hilário monólogo.

A licença artística da linguagem cartunesca dão ao personagem braços e mãos que aparecem e se gesticulam conforme suas emoções, e sua boca se exprime com bastante nuances, de modo a evidenciar sua personalidade contemplativa e reflexiva.

Um show de animação que evoca o tom filosófico da narrativa, a partir de uma situação trivial que discute a fragilidade de formas de vida que são banais para a humanidade.

 

2.    A Depressão em “Malcolm and Melvin”

Este, sem dúvida, foi o curta mais bizarro e sombrio que já apareceu pelo bloco.

Melvin é um palhaço que, por alguma razão, sofre bullying de todas as pessoas que passam por ele durante uma certa noite. Vivendo sozinho em um apartamento e se sentindo extremamente solitário e desprezado pela sociedade, ele tem um acesso de loucura, que o leva a se contorcer, como se estivesse tendo uma espécie de convulsão psicológica.

O semblante do palhaço e seus movimentos exagerados, em meio a um cenário, cujas composições distorcidas lembram os ambientes estilizados do Expressionismo Alemão, dotam a obra de um senso de angústia que chega a remeter à clássica pintura “O Grito”, de Edward Munch.

A partir disso, ele decide se suicidar, jogando-se de sua janela (Sim, isso mesmo que você leu). Porém, é salvo por uma barata que toca um trompete, que o cativa.

Pra completar, o toque do trompete chama a atenção de uma jovem e sensual vizinha, que parte romanticamente pra cima de Melvin, por achar que é ele quem está tocando.

Interessante que os gestos de empolgação e arrebatamento da personagem sexy enquanto abraça Melvin são explorados de forma a gerar uma segunda camada de assimilação que remete às posições de uma relação sexual.

Porém, a barata decide sacanear Melvin, parando de tocar, o que faz a vizinha perder o clima e sair do apartamento. É como se ele tivesse frustrado um flerte, numa primeira camada de compreensão mais infantil do incidente; e/ou frustrado um momento sexual, numa segunda camada de compreensão mais adulta do incidente.

Ao ver a frustração de Melvin, a barata gargalha. Se sentindo zombado, Melvin mastiga a barata com seus dentes, de tanta raiva. (Sim, isso mesmo, ele mata o colega). O mais bizarro é que, em seguida, aparece ele sendo julgado numa espécie de Inferno das baratas, mas, depois, descobre que tudo não passou de um sonho e a barata ainda está viva.

Isso não tira a bizarrice da cena e da obra como um todo, pesada demais para uma produção de classificação livre.

E, de novo, sim, esse desenho passava em um canal infanto-juvenil e o mais assistido da TV. Não sei como meus pais não atentavam para isso e me deixavam assistir a essas coisas sem nenhum filtro. O bom é que eu assistia tranquilamente e achava tudo muito curioso e interessante, como um bom aficionado por desenhos, nunca tendo parado para assimilar a gravidade dos eventos mostrados.

Particularmente, nunca tive nenhum trauma de nada que eu tenha visto em “Desenhos Incríveis, o Show”, mas dá pra entender perfeitamente os vários comentários de gente se dizendo traumatizada em vídeos no YouTube com os curtas. Os seres bizarros de “Coragem, o Cão Covarde” ou filmes como “Coraline”, por exemplo, não soam tão sombrios quando comparados à atmosfera tão noturna quanto melancólica e perturbadora de “Malcolm and Melvin”.

Rever essas obras depois de adulto faz com que tenhamos um senso crítico mais pudico sobre a naturalidade de se exibi-las para crianças, uma vez que se entende o subtexto adulto que não era percebido antes. A sensação que fica é que estávamos vendo obras cuja densidade era maior e acabava não sendo percebida.

O mais irônico e incoerente é que, por outro lado, a indústria preferida para difamações moralistas por parte dos religiosos supersticiosos e de pais impressionáveis com teorias de conspirações da mídia sobre a “segurança psicológica” das crianças era a Disney, cujas produções para cinema sempre possuem, invariavelmente, um viés friendly-family mais do que óbvio e que já é de tradição da companhia, com lições de moral em narrativas basilares de Jornada do Herói, não tendo nada de tão controverso, sendo as teorias conspiratórias aquilo que de fato chegavam a traumatizar.

Enquanto isso, obras mais underground realmente controversas passam despercebidas de qualquer crítica, e muito menos, construtivas. Os alvos das teorias conspiratórias são frequentemente aquelas produções que mais fazem sucesso numa época, e que, portanto, são mais fáceis “de atacar”.

 

3.      A Violência de “Pizza Boy no Tips”

Calma, se ficou assustado com a premissa de “Malcolm and Melvin”, saiba que tinha coisa ainda pior. Se “Malcolm and Melvin” impressionava pela atmosfera sombria, aqui em “Pizza Boy no Tips”, temos uma hilária história de um jovem entregador de pizzas oprimido por seu chefe/pai a fazer uma entrega no menor tempo possível, para que possa ganhar uma gorjeta. A gorjeta passa a ser uma obsessão para o rapaz.

Sofrendo as mais variadas desventuras para conseguir entregar a pizza (detalhe: os clientes são esquimós que moram do outro lado do mundo), o entregador é mal recebido por eles e fica sem receber gorjeta.

A falta de empatia demonstrada  pelos clientes misturada à frustração faz com que o rapaz entre em um surto de fúria, e assim… bem, como dizer isso… ele acaba assassinando seus clientes. (É, eu disse que podia ficar pior). Apesar de não mostrar nada explicitamente, o fato de termos um corte para um plano externo do iglu onde os esquimós moram e alguns dos pedaços de gelo se projetando para fora, deixa claro o que ele fez.

Bem, pelo menos, claro para um adulto. Confesso que eu, quando criança, nunca entendi exatamente o teor daquela cena. Por não mostrar o ato explicitamente, talvez uma criança só consiga entender que ele surtou e que algo de ruim aconteceu. A primeira coisa que vem à cabeça é que ele pode ter simplesmente batido neles. Ah, a ingenuidade infantil!

Porém, numa olhada simples, óbvia e mais atenciosa, ao se perceber o fato de ele ter pego um arpão na cena anterior e da cena seguinte mostrar ele na cadeia tocando uma gaita não deixam maiores dúvidas.

 

Menção Honrosa

Uma cena específica que sintetiza bem o teor adulto presente em animações está no curta “HillBilly Blue”, quando um homem importuna um caranguejo que está segurando uma garrafa de ketchup, e este bate na sua cabeça com a garrafa.

O ketchupp, então, derrama-se pelo rosto do homem caído, fazendo as vezes do que seria o próprio sangue, como se este tivesse acabado de participar de uma briga de bar.

“Desenhos Incríveis, o Show” foi um dos maiores exemplos de que, nos anos 90, mais do que nunca, a linguagem da animação há muito tinha deixado de ser um veículo para contar apenas histórias infantis (se é que um dia exclusivamente o foi), e sim, histórias de qualquer natureza, desde as mais inofensivas às mais sombrias.

O exagero da linguagem animada estilizada proporcionava aos curtas o nível de expressionismo que os realizadores queriam explorar e que não seria possível através de pessoas de verdade.

 


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

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