Arlequina: Maior, Melhor e Mais Colorida

A DC já começou bem o ano, surpreendendo com “Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa”, um filme hilário – a começar pelo título – que, a despeito de sua originalidade e inventividade, precisou ser alterado em alguns cinemas, por não ser considerado comercializável, mudando para “Arlequina em Aves de Rapina”.

Uma pena, porque o título original (escolhido pela própria atriz Margot Robbie) já carrega toda a irreverência da obra, que é condizente com a personalidade de sua protagonista, como se a própria Arlequina o tivesse criado, inclusive, escrevendo o subtítulo com uma canetinha.

Um pouco de contextualização, rapidinho… (cof-cof)

Para quem caiu de pára-quedas na Terra e não sabe sobre do que se trata o filme, trata-se de uma aventura solo da personagem Arlequina, a capanga/sidekick/amante do Coringa nas histórias do Batman, criada em 1992 para a clássica série animada do homem-morcego, pelas mãos do roteirista Paul Dini e do ilustrador e animador Bruce Timm.

A personagem, originalmente escrita para ser apenas uma parceira do Coringa em um único episódio, acabou caindo nas graças do público, aparecendo em mais episódios e consolidando-se como personagem fixa da série. Posteriormente, teve uma história de origem desenvolvida por seus próprios criadores, para os quadrinhos, a premiada “Mad Love (Louco Amor)”, adaptada posteriormente para a TV como um episódio da série icônica.

De lá pra cá, a personagem foi incorporada ao cânone da franquia do Batman, aparecendo em várias HQ´s, séries e jogos. A palhacinha do crime alcançou o auge da popularidade a partir do lançamento do filme “Esquadrão Suicida” em 2016, ao ser interpretada por Margot Robbie, tornando-se um fenômeno da cultura pop.

Apesar da popularidade da personagem, “Esquadrão Suicida” foi um fracasso de crítica e público, por seu roteiro simplório, montagem mal-trabalhada e uma performance estranha e constrangedora de Jared Leto como Coringa, que, para completar, mal apareceu no filme, apesar de ser a grande promessa do mesmo. Problemas durante o processo de produção do longa, tendo várias de suas ideias alteradas, pela recepção mista do filme anterior do estúdio, “Batman vs Superman”, fizeram com que o resultado final fosse essa zona. Zona da qual o único elemento positivo havia sido a performance de Margot Robbie como Arlequina, cujo carisma encantou o público.

Eis que, para se redimir dos fãs da personagem, a DC resolve reaproveitá-la em um novo filme, através de um spin-off que tenta se distanciar ao máximo do filme anterior, nessa nova fase da DC de filmes independentes entre si.

Agora sim, partiu pro filme

A trama se desenvolve após Arlequina ter sido enxotada pelo Coringa, algum momento após os eventos de “Esquadrão Suicida”. A ideia da perspicácia de Arlequina ser, às vezes, maior que a do próprio Coringa, é utilizada como justificativa para o fato de ele querer separar-se dela. Isso é bem condizente com a essência da personagem, mostrada em “Louco Amor”, que gira justamente em torno disso.

Obviamente, a separação entre Arlequina e Coringa era a deixa narrativa que a personagem precisava para cativar por conta própria, fazendo o público esquecer de vez do Coringa de Jared Leto, que decepcionou a maioria dos fãs. Bom para o público, pois Arlequina também quer esquecê-lo. E agora, ela terá que lidar sozinha com criminosos que querem sua cabeça.

Enquanto tenta fugir dos capangas de Roman Sionis/Máscara Negra, brilhantemente interpretado por Ewan McGregor, a loirinha desvairada acidentalmente cruza seu caminho com a de uma pequena ladra, chamada Cassandra Cain, além da imbatível Caçadora, uma justiceira que está numa jornada de vingança contra os assassinos de sua família. Somada a isso, há a perseguição implacável da policial Renee Montoya, que investiga o assassinato dos mafiosos mortos por Caçadora.

Assim, as bases estão postas para a formação do que viria a ser o grupo conhecido como Aves de Rapina. E é bastante orgânico o modo como as histórias das personagens se cruzam, de formas bem acidentais. A formação do grupo de heroínas é ironicamente formada pela anti-heroína/vilã, sendo uma consequência de um plano acertado, mesmo partindo de uma louca. A história não tem a intenção de fornecer uma plena redenção à protagonista, mas explorar sua falta de escrúpulos e alguma bondade dentro daquele coração alucinado.

Decupagem à la Arlequina

A história, apesar de simples, é contada através de um roteiro muito ágil, frenético e com uma montagem intencionalmente não-linear, por contar com uma narração em off da própria Arlequina, que pausa a trama em vários momentos para contar detalhes esquecidos. A edição do filme segue a confusão que é a mente da própria Arlequina.

O roteiro é preciso em fazer essas pausas justamente em momentos de tensão e perigo. Além do hilário vai-e-volta narrativo, há pausas hilárias com inserção de recursos gráficos, que seriam desenhos, rabiscos e escritos da própria Arlequina ao identificar seus algozes, um elemento de humor que já era visto desde a HQ “Louco Amor”, em que ela fazia desenhos depreciativos do Batman enquanto tratava Coringa no asilo Arkham, e cuja visão confusa e deturpada da realidade proporcionava o humor negro da história, mostrada também através de pensamentos.

O design de produção do filme é algo absolutamente invejável. Sai a Gotham sombria e escura com a qual estamos acostumados, e entra uma Gotham espalhafatosa e deslumbrante. Os figurinos e os cenários mostram uma explosão multicolorida que cativa os sentidos. A explosão literalmente colorida da cena em que Arlequina explode a indústria química em que ficou com Coringa, é de uma beleza incrível, e sintetizam a visão estilizada que a própria Arlequina tem do mundo ao seu redor.

De fato, numa certa cena, Arlequina se esconde atrás de um estoque de sacos com drogas, que são rasgados com os tiros disparados pelos capangas atrás dela, o que faz com que o pó se espalhe e ela inspire-o, o que a torna enérgica para uma cena de luta. Isso reitera o teor alucinógeno de muito do que vemos nas cenas.

Algumas armas cheias de confete deixam o espectador na dúvida sobre o que é real e o que é imaginário nas cenas, e isso é interessante, pois mostra a ambiguidade da personagem, sem compromissos com nada, devaneios de uma louca que vive uma vida em que matar pessoas se tornou algo tão comum quanto comer o seu sanduíche preferido.

Portanto, o filme incorpora os elementos explorados em “Esquadrão Suicida”, porém aqui de forma competente. De fato, este filme foi o que o anterior deveria ter sido e não conseguiu.

Fala mais de mim, que tô gostando

Margot Robbie nasceu para viver a Arlequina, dando mais camadas à personagem, que nos foi breve e confusamente apresentada em “Esquadrão Suicida”. Mesmo sendo a mesma personagem do filme anterior, é nítido o desenvolvimento mais apurado de sua performance, mostrando todo o potencial da personagem.

Ela deixa de ser o interessante, porém limitante fetiche ambulante, e passa a ser uma personagem mais decidida e independente, não obstante sendo menos sexualizada, com figurinos que não evidenciam tanto assim suas curvas e coxas.

A periculosidade sempre sugerida, mas nunca mostrada, no filme anterior, aqui é mostrada com visceralidade. A Arlequina de “Esquadrão Suicida” parece apenas uma inofensiva adolescente revoltada perto da psicótica que vemos aqui.

As expressões faciais e movimentos da performance de Margot Robbie são talentosamente cartunescos. Essa composição faz todo sentido, homenageando a origem da personagem, que surgiu em um desenho animado, e depois migrou para outras mídias. A violência estilizada e as coreografias das cenas de luta são perfeitamente trabalhadas de modo plástico, lembrando, em muitos momentos, um desenho animado ou uma apresentação circense. Tudo isso de forma crível e explorada a partir da personalidade da protagonista, sem nunca ser piegas (né, “Batman e Robin” (1997)?).

De fato, há uma cena em que Arlequina leva Cassandra para seu apartamento (ou seja lá o que for o seu lar), e, não à toa, estão assistindo na TV justamente um curta de Piu-Piu e Frajola, o que já é uma referência ao tom cartunesco da obra, além do tema de uma ave que quer se ver livre de seu predador, tal qual as mulheres querem se ver livre de seus algozes masculinos, nesta trama. Daí a alusão para o título “Aves de Rapina”.

Mudança na Dublagem

Sobre a versão brasileira do filme, infelizmente, tivemos a triste notícia da aposentadoria de Iara Riça, a dubladora oficial da personagem no Brasil. Em seu lugar, ficou Evie Saide, que possui uma voz um pouco parecida, e mais jovial.

Apesar do bom trabalho de Evie Saide, fica a frustração para os fãs da personagem, que perdem a interpretação vigorosa e inspirada de Iara Riça. Por conta de conflitos criativos entre a dubladora e a diretora de dublagem, Andrea Murucci, a intérprete pediu demissão.

É uma lástima que isso tenha ocorrido justamente em um filme sobre emancipação feminina, cujo trabalho de Iara já havia quase concluído todo seu trabalho de dublagem para o filme! Isso chega a ser um desrespeito aos fãs e espectadores.
Aparentemente, a direção considerou que sabia mais sobre como interpretar a Arlequina do que a própria profissional que já a interpreta há mais de 20 anos, desde o seu surgimento! Realmente uma lástima.

Girl Power

Apesar de sua proposta despretensiosa, o filme aborda problemas sociais relacionados à mulher, como o relacionamento abusivo, o assédio sexual, e até uma tentativa de estupro, além da desvalorização da mulher em ambientes de trabalho dominados por homens.
Essa dominação masculina é bem evidenciada pela música cantada por Canário Negro, “It´s a Man Man Man´s World”, em que faz uma performance na boate de Roman Sionis.

Exatamente um único personagem masculino do filme é bom. Todos os outros são criminosos ou pessoas relacionadas ao crime de alguma forma, como o amigo que trai a Arlequina. Uma alegoria de que, às vezes, as mulheres têm que se virar por conta própria, dentro de uma estrutura social cujo topo da pirâmide é liderado por homens, que nem sempre são confiáveis.

O filme pode ser, a grosso modo, descrito como uma mistura de “Thelma e Louise” com “Deadpool”, que, em nenhum momento, cansa.

Diferentemente dos outros filmes mais leves e cômicos dessa nova fase da DC, aqui, a ação e o humor são muito bem dosados. A mise-en-scene sabe privilegiar cenários e elementos de beleza visual, de forma orgânica à narrativa, e não apesar dela. Com uma direção precisa, Cathy Yan consegue fazer com que a câmera opere fluidamente sem sacrificar a percepção do espectador em se situar entre os vários focos de ação numa cena de luta (característica em que “Aquaman” falhou um pouco), e sem interromper lutas para fazer piadas forçadas que tiram a noção de imersão do perigo (como em algumas cenas de “Shazzam”).

Além do mais, não há o fatídico recurso do uso de cortes de um enquadramento para outro para manipular a criação de tensões, um cacoete muito típico oriundo de filmes de suspense e terror, que “Aquaman” e “Shazzam” emprestaram, muito provavelmente por terem sido dirigidos por realizadores que vinham de trabalhos desse gênero.

Aperfeiçoando a identidade da DC

Talvez este seja o melhor exemplar dentre a safra de projetos mais despretensiosos da DC, conseguindo casar de forma magistral um humor mais autodepreciativo, um pouco semelhante ao dos filmes anteriores, com um realismo gráfico de violência, que o torna quase uma obra tarantinesca. A obra também possui a elegância de tocar em questões delicadas, sem ser panfletária, ao mesmo tempo em que entrega um entretenimento fugaz.

Se o filme “Coringa” queria nos fazer refletir e pensar como cidadãos, propondo um estudo de personagem, que rastreasse as raízes da loucura, e as mazelas psicológicas e sociais que levam a ela, “Aves de Rapina” está mais interessado em entreter e divertir, uma vez que essa loucura já está posta. E beira à perfeição, dentro de sua proposta.

Ah, fala algum defeito só pra eu não ficar me achando muito, vai

O filme entrega tudo aquilo a que se propõe, superando as expectativas com sua visceralidade e com a imprevisibilidade das situações mostradas.

Se for para citar pontos negativos, destaco a falta de um aprofundamento maior na apresentação da Arlequina na abertura do filme. A hilária animação que abre o longa poderia usar de sua linguagem a favor da história, mostrando quais foram as coisas mais abusivas que aconteceram com Arlequina enquanto estava com Coringa, inclusive utilizando desenhos para amenizar o tom violento das situações, por serem coisas que a Arlequina quer esquecer.

Além disso, isso serviria para mostrar mais do seu passado como ginasta e como assistente do Coringa, para explicar como ela se tornou uma mulher tão boa de luta.

Caçadora e Montoya, por seus ofícios, não precisariam de maiores apresentações. Porém, Arlequina e Canário Negro lutavam bem até demais para mulheres comuns. Apesar da bela condução das cenas de luta, os capangas apanhavam mais do que se poderia esperar de stormtroopers em Star Wars.

Arlequina é tão indestrutível que parece ter sido treinada pelo Exército ou coisa parecida. Faltou apelar um pouco mais para uma fragilidade da personagem, de modo a criar ainda mais empatia por ela nas cenas de luta, mostrando como a mulher precisa redobrar seus esforços nos embates contra homens, pois eles possuem um maior padrão de massa muscular. Nem mesmo a Mulher-Maravilha (que é uma divindade grega!), parecia ser tão invencível em seu próprio filme.

Outra coisa que poderia ser mais explorada é a tentativa de brincar com as cenas de luta como se fossem uma dança, algo que a Canário Negro chega a protagonizar numa determinada cena.
Os devaneios de Arlequina também poderiam ser mais explorados, fornecendo analogias interessantes, dando eco a uma das melhores cenas do filme, quando ela, ao ser espancada por Máscara Negra, se vê idealizada como uma Marilyn Monroe que quer mostrar sua garra. A beleza da cena dá um gostinho de ‘quero mais’.

Isso sintetiza o que é “Aves de Rapina”, um filme que brinca consigo mesmo, sendo leve e depreciativo, ao mesmo tempo em que é bastante violento, e, apesar de não se levar a sério, tem geniais cenas de teor simbólico e psicológico.

Além de ser contagiante e divertido, é dirigido, escrito e produzido por mulheres, sendo um pertinente avanço da DC em relação à Marvel no que concerne à representatividade feminina.

Bingo! Mais um ponto para a DC!


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

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