La Luna: a poesia visual da Pixar

As sessões de filmes produzidos pelo estúdio Pixar tornaram-se notórias por exibirem, antes de seus longas-metragens, curtas-metragens também produzidos pelo estúdio.

Tem sido assim desde “Geri´s Game” (O Jogo de Geri – 1998), um curta sobre um senhor bem idoso que joga xadrez contra ele mesmo, obra que antecedeu o clássico “Vida de Inseto” (1998).

O jeito Pixar de fazer curtas

Geralmente, os curtas da Pixar apoiam-se em uma fórmula narrativa baseada em típicas gags de cartoon, lembrando as clássicas animações de Chuck Jones, em que o protagonista sofre sucessivas frustrações – sempre em situações com o uso de uma violência estilizada – na busca de um objetivo.

Por exemplo, para o boneco de neve de “Knick-Knack” (1989), o objetivo era sair de dentro de seu souvenir. Para o soldadinho de brinquedo de “TinToy” (1988), era fugir do bebê bizarro. Para o mágico de “Presto” (2008), era conseguir domar o coelho de sua cartola. Para o alienígena de “Lifted” (Quase Abduzido – 2007), era conseguir fazer a abdução perfeita de um humano. Para a cegonha de “Partly Cloud” (Parcialmente Nublado – 2009), era conseguir transportar com segurança filhotes dos animais mais ferozes da Terra sem se machucar.

Até então, as únicas exceções de curtas que não seguiam esse estilo de humor mais físico eram o já citado “Geri´s Game” (O Jogo de Geri – 1998), o antigo curta melancólico “Red´s Dream” (O Sonho de Red – 1987) e o pequeno musical “Boudin´” (Pular – 2004).

Magnum Opus

A outra feliz exceção, que viria após todos estes, seria aquele que considero o melhor curta-metragem da Pixar. “La Luna” (2012) é um deleite visual e um singelo poema sobre o amadurecimento. Com sua singeleza e originalidade, o curta ficaria marcado por ser mais tocante até mesmo do que o longa-metragem que o precedera, “Valente” (2012).

O curta conta a história de um garoto que acompanha seu pai e seu avô em seu dia de trabalho. Porém, o ambiente ficcional em que a obra se passa é nada menos que singular. Em uma pequena canoa, eles viajam até uma certa região marítima para alcançar a Lua (sim, isso mesmo).

O trabalho deles consiste em observar uma inexplicável queda de estrelas sobre a Lua e subir até ela para varrer a constelação, de maneira que a iluminação lunar seja moldada.

É interessante notar que, durante a viagem, o menino é o único que olha com entusiasmo para fora da canoa, observando os mares. É a curiosidade infantil em conhecer o mundo ao seu redor. Na primeira vez que o menino aparece, só podemos ver seu rosto, com seus olhos curiosos. Seu pai e seu avô não aparecem por inteiro no plano, já que a câmera enquadra o plano ao nível da estatura do garoto. Isso já estabelece visualmente a pequenez do menino, e, analogamente, sua inexperiência diante dos mais velhos.

As discussões entre o pai e o avô servem para ilustrar o choque de gerações e/ou a divergência de opiniões na formação de um indivíduo. O boné que o garoto ganha de presente simboliza a influência de seus tutores sobre si, uma vez que o boné é idêntico ao utilizado pelo pai e pelo avô. Um decide posicionar o boné de um jeito na cabeça do garoto, e o outro decide posicionar o boné de outro jeito. Isso representa o dilema entre duas partes tutoras sobre como um filho deve ser criado e educado. Geralmente, nossa personalidade é o resultado da mistura entre dois pólos de influência. Nossos pais, por exemplo, por mais concordantes que sejam entre si, costumam ter posturas diferentes em algumas coisas, em como lidar com o filho.

Os diálogos ininteligíveis entre o pai e o avô são uma ideia genial para evidenciar o temperamento dos personagens. Não importa o que exatamente eles estão falando, e sim o modo como estão falando. A intenção do autor da obra não era trabalhar o conteúdo das falas, e sim, a forma delas. O menino é um alter-ego do autor do curta, que é um homem de descendência italiana. Portanto, os personagens possuem trejeitos tipicamente italianos, porém sem falar exatamente o idioma italiano, mas algo que se parecesse com o mesmo. Assim como a maioria dos curtas da Pixar, que são mudos, “La Luna”, de certa forma, não o deixa de ser. As únicas falas do filme não passam de balbucios sem significado linguístico, pois a ideia era dar significado emocional.

Se já não bastasse a curiosa ambientação fantástica em que a história se passa, a narrativa se trata de uma metáfora sobre o processo de amadurecimento humano, através da figura do protagonista mirim. O menino é incumbido por seu pai e seu avô a usar uma escada para subir até a Lua e ancorá-la à canoa.

A escada representa um caminho de responsabilidade que o menino deve trilhar. O receio com o qual ele olha para a escada é cativante e ilustra a insegurança do homem em sair de sua zona de conforto.

Ao chegar a Lua, o menino maravilha-se com o brilho das estrelas. Na hora de varrer as estrelas, pai e avô discutem novamente um com o outro, dessa vez sobre o modo correto de se varrer. O menino se vê apenas inerte diante da neutralidade, porém ainda encontra espirituosidade em identificar nos objetos que usa seus respectivos donos. Nota-se a exploração do lúdico para dispersar o deslocamento funcional.

Porém, algo inusitado acontece. Uma estrela gigante pousa no local. Pela primeira vez, pai e avô não sabem o que fazer quanto a alguma coisa. Enquanto iniciam uma nova briga, o menino parece ter uma ideia, e, assim, vai até a estrelona.

É interessante perceber que, um pouco antes de ir até a estrela, o menino arruma, ao seu próprio modo, o boné em sua cabeça. Isso pode simbolizar a chegada de sua autonomia. Afinal, finalmente, ele tomou uma decisão por conta própria.

O menino teve a “brilhante” ideia (literalmente) de dar um pequeno golpe com o martelo na estrela, o que a faz despedaçar-se em várias estrelas menores. Assim, eles podem continuar a varrer a constelação.

A cena em que o menino realiza seu feito é de uma bela composição. Vemos o garoto numa pequena queda; e apesar de estar caindo, sorri. É a alegria da iniciativa e da curiosidade, que resulta em atos que, apesar de imprevisíveis, levam à conquista. Nesse momento, os olhos do pai e do avô revelam-se pela primeira vez. Nada mais simbólico. A sabedoria de uma nova geração surpreende e ilumina a antiga geração.

Um punhado da própria constelação formada amortece a queda do menino. Ele dá um pequeno riso aos seus tutores. Portanto, a utilidade de um indivíduo é seu meio de realização pessoal e orgulho de sua família.

Dado o devido espaço, filhos podem fazer coisas incríveis, que resultam no crescimento dos próprios pais. A superproteção dos pais pode ser tão nociva quanto a ausência. Assim, nunca saindo de perto de seu pai e seu avô, o menino se expressa livremente.

O que vemos a seguir é o resultado do trabalho deles. A disposição da constelação forma a iluminação de uma lua minguante. Assim, a beleza de mais uma noite está garantida. Portanto, a conjunção entre a experiência dos mais velhos e a curiosidade e questionamento dos mais novos perpetua a iluminação de novas eras.

São obras como esta que nos fazem lembrar de porque é tão bom ser cinéfilo. A experiência de se assistir “La Luna” é emocionalmente transcendental. Em uma primeira assistida, apenas nos encantamos com aquele universo, sem entender exatamente tudo o que estamos vendo. Porém, ao revisitarmos a obra, podemos perceber seus simbolismos e a beleza ímpar de sua história.

Sem dúvida, “La Luna” pode ser considerado a obra-prima dentre os curtas da Pixar.

PS: Na época em que assisti o curta, eu já havia perdido duas das pessoas mais importantes da minha vida: justamente meu pai e meu avô. Ou seja, a identificação para com os personagens do curta foi imediata, e me vi totalmente representado na figura do garoto. Talvez até hoje eu me sinta como o protagonista, acreditando que posso estar, de alguma forma, dando orgulho aos meus entes queridos, e honrando seu legado, com minha tão perseverante, porém, às vezes tão perdida existência nesta Terra.

Dedico esse texto em memória ao meu saudoso pai, Sebastião Reis, e a meu saudoso avô, Sotel Vieira. Que um dia, eu possa velejar até vocês novamente, e possa estar ao seu lado, contemplando as belezas que fizemos juntos!!!


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

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