“À Caminho da Fé” (Netflix): um questionamento ao fundamentalismo

Baseado em eventos reais, o drama religioso “À Caminho da Fé” (no original, Come Sunday) conta a história de como Carlton Pearson, um famoso pastor e televangelista norte-americano, fundador da Igreja Higher Dimensions, perdeu seu ministério e prestígio entre os fiéis, após mudar sua visão religiosa e o tom do seu discurso.

De formação cristã pentecostal, Pearson cresceu com uma mentalidade extremamente fundamentalista (como infelizmente é o caso da maioria das igrejas cristãs) e começou a pregar desde muito cedo, tornando-se um dos maiores nomes do evangelismo na década de 1990, com uma das maiores igrejas em Tulsa, Oklahoma.

Mas após meditar sobre os atentados em Ruanda em 1994, Pearson se vê num impasse teológico, pela angústia que sente pelas crianças africanas mortas, não apenas pelo horror da própria guerra em si, como também pelo fato de que, segundo suas crenças, todas aquelas vítimas iriam inevitavelmente para o Inferno, meramente pelo fato de não serem cristãs.

A partir daí, o bispo passa a defender a ideia da salvação universal e a não-existência do Inferno, o que o torna marginalizado pela Igreja e acusado por heresia.

Como este que vos escreve tendo nascido em berço cristão, e nunca tendo ouvido falar sobre Carlton Pearson antes, depois de muito pensar sobre se deveria ou não tecer esta resenha – por se tratar de um assunto muito polêmico – decidi, enfim, que era um dever esclarecer em alguns tópicos o motivo da pertinência de um filme como este (bem como do porquê de eu ter amado muito tudo isso…).

• Questões Teológicas

1. O Conceito de Salvação

Muito do que entendemos por “salvação” está associado ao destino da alma, na dicotomia “Céu x Inferno”, entendida a partir da tradição católica, que desenvolveu a compreensão dos textos do Novo Testamento a partir de uma limitada mentalidade greco-romana, o que proporcionou ônus e bônus na compreensão do Evangelho, em muito adulterando várias de suas reais intenções.

Deste modo, temos o significado de “salvação” como sendo exclusivamente: a conversão de um indivíduo à teologia cristã e/ou a consequente ida da alma deste indivíduo ao Paraíso, após a morte do corpo.

Se lermos atentamente os Evangelhos, na verdade vemos que o Senhor Jesus lida com princípios e valores éticos e espirituais, mais do que qualquer outra coisa. Ao longo de seu ministério, Cristo basicamente ensina aos seus discípulos e ao povo aspectos da sensibilidade humana que devem ser evocados para fazer de nós indivíduos plenos.

O Sermão da Montanha (Mateus 5 – 7) é a maior síntese da mensagem de Cristo, que eleva-nos ao amor, à paz, à compreensão e noção da Justina Divina. Portanto, para Cristo, salvação é muito mais do que a obtenção de uma informação para uma conversão teológica; é, sobretudo, a elevação da alma humana à dignidade.

2. O Conceito de Inferno

Para os que se entregam às paixões infames, o Senhor Jesus se dirige de maneira enfaticamente rígida, destinando-os a uma dimensão de penitência, utilizando expressões como “fogo eterno”, além de “trevas exteriores” e “choro e ranger de dentes” na parábola dos talentos (na maioria das nossas traduções que temos em mãos).

Porém, é no mínimo fortuito não considerar que, na parábola do credor incompassivo, a representação que Cristo faz é a de uma venda a verdugos ou atormentadores, “até que se pagasse o último ceitil (dívida)” – o que indica que o Inferno não seria eterno, pois existe um limite de penitência proporcional à gravidade da injustiça cometida.

Ignora-se também completamente um dos capítulos finais do Apocalipse, que, além de relatar sobre a extinção do Inferno, diz que “os mortos foram julgados, segundo as suas obras.” (20:13) – o que indica uma medida de sentença para cada indivíduo e não uma mesma sentença para todos; e que, mesmo após a morte, haverá um julgamento final das almas; ou seja, onde quer que essas almas estivessem vagando, não estariam em um lugar do qual não se poderia sair jamais. Só depois desse Julgamento é que se faz alusão a um lago de fogo. Isso põe em cheque a doutrina de que a alma vai imediatamente ao Céu ou ao Inferno após a morte do corpo.

Ademais, as expressões bíblicas traduzidas como “inferno”, por vezes também se traduzem por “abismo” ou “sepultura”, outras vezes preservando os termos hebraico e grego, respectivamente, Sheol e Hades, que referem-se tanto a uma conotação física de morte quanto a uma visão espiritual genérica de um reino em que as almas dos mortos vagam. Não se tem a noção de tortura eterna.

No próprio Salmo 139, o Rei Davi clama: “Se eu subir aos céus, lá estás; se no Sheol (também traduzido por abismo ou inferno) eu fizer minha cama, também lá estás.”
(Sim, Deus também habita no Inferno!).

No Salmo 16: “Pois não deixará minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção (também traduzido por decomposição).”. Davi não apenas faz uma alusão à redenção após uma angústia espiritual, mas também à regeneração física (a ressurreição, que viria a ser sintetizada representativa e literalmente por Cristo, quem teria ido ao próprio Inferno entre Sua morte e Ressurreição).

Porém, a noção de Inferno que a Igreja costumeiramente impõe ao inconsciente coletivo da sociedade é a de um campo de concentração eterno, praticamente caracterizado pela ausência de Deus – o que iria contra a noção de Onipresença – ao qual Ele viraria suas costas ao sofrimento humano. É de um sadismo absurdo, que torna Jesus um Nabucodonosor cosmológico, e não o Messias que vemos nos Evangelhos.

E talvez seja desse Inferno que o bispo Pearson passou a desacreditar, obviamente. O Inferno das imagéticas horrendas herdadas do Tártaros da mitologia greco-romana incorporadas ao Cristianismo, e que traga pessoas pecadoras indiscriminadamente.

Está muito claro que o Senhor Jesus evocou a ideia de Justiça Divina – consolo para os oprimidos e punição para opressores. Mas não há embasamento para a defesa de uma realidade de sofrimento absoluto, nem tampouco eterno. O Inferno é uma das doutrinas mais irracionais e vagas na História da Igreja.

3. O Fundamentalismo Evangélico

Tudo fica pior quando a Teologia fica acima da Ética. É com isso que temos o Fundamentalismo.

A saudação da Boa Nova é “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade.” Não apenas aos judeus, mas aos homens de boa vontade. Segundo o Sermão da Montanha, bem-aventurados são os mansos, os humildes, os que choram, os pacificadores. Cristo evoca virtudes, não formas de crença.

Porém, o fundamentalismo evangélico sugere que indivíduos, independentemente de seus preceitos éticos, estariam em pecado simplesmente por não serem partidários da fé evangélica.

Infelizmente, o Cristianismo Romano e suas bifurcações – o que inclui nossa Igreja Evangélica – cresceu, em grande parte, na base do fundamentalismo. A sugestão de que pessoas de outras religiões (fora do contexto judaico-cristão ou até mesmo algumas vertentes do próprio Cristianismo) estão fadadas ao Inferno é sempre presente.

Eu nem preciso dizer como isso é absurdo, pois que implicaria a relativização dos preceitos éticos das mesmas. Por esse raciocínio, Deus só se importaria com o adultério de um cristão, e não com o adultério de um budista, por exemplo, que independentemente de ser adúltero ou não, estaria fadado ao Inferno simplesmente por ser budista.

Por esse raciocínio, também, todo pecado teria o mesmo nível de gravidade. Um homicida ou genocida iria para o Paraíso, se arrependendo antes de morrer, mas um fumante iria para o Inferno, se morresse sem se arrepender. Eu nem preciso mencionar que o canal de humor Porta dos Fundos fez um vídeo genial a esse respeito.

Dessa forma, o proselitismo religioso cristão deixa de ser UM caminho de iluminação para as pessoas, e passa a ser O caminho de iluminação para as pessoas. A Graça do Todo-Poderoso fica refém da ação humana. Eu nem preciso ressaltar o contrassenso e a prepotência implícita nisso.

O literalismo não entende que as palavras de Cristo devem sempre ser analisadas segundo um contexto e o público ao qual se refere. Quando Cristo diz “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.” em João 14:6, ele está tão somente se colocando como a referência a ser tomada como exemplo para se chegar à plenitude do conhecimento de Deus, diante de uma sociedade marcada pelo fundamentalismo da ortodoxia judaica e dos excessos do mundo greco-romano. Não seria uma afirmação egoísta que desconsidera qualquer virtude e beleza presente nas várias formas de crença existentes. Nosso Senhor encarnou a tolerância, e é por isso que Ele é o Caminho.

Porém, pelas palavras de pregadores fundamentalistas como Pearson era no início, as pessoas não se convertem à Luz, e sim ao temor. Os fiéis são levados a praticar boas-obras pelo medo do Inferno, e não pelo simples prazer de fazer o bem. Sua visão unilateral da fé o leva inevitavelmente a discursos cheios de intolerância. É a chantagem psicológica que os faz seguir a Cristo; ou seja, não entenderam o que é o Evangelho.

Visão essa que não consegue, sequer, discernir entre uma falha ética e uma condição humana – como a sexualidade. Dessa forma, como se entende que as Escrituras tipificam tudo isso como “pecado”, logo, homossexuais têm sua condição irracionalmente equiparada aos crimes de um ladrão ou de um homicida.

• A Dramaturgia

O filme acerta em contar de forma tão básica a narrativa, conforme a própria estreiteza de pensamento dos personagens. Com planos básicos e uma fotografia bem uniforme e um tanto fria, se expressa bem o ambiente mental do pastor.

A representação dos atores e a maneira como os diálogos são concebidos, de modo a expressar os discursos rasos que beiram o ridículo, são tão viscerais que chegam a ser honestamente constrangedores. Qualquer criança em sua idade mais tenra teria uma percepção mais sensível e madura da vida e de suas relações interpessoais do que os adultos retratados.

O protagonista – brilhantemente interpretado por um inspirado Chiwetel Ejiofor – chega a ser a personificação de seu próprio discurso, pois a lógica de se achar que pessoas podem ir para o Inferno a qualquer momento, por não receberem a Palavra, é que, necessariamente, isso implicaria que, a todo momento, nós estivéssemos dispostos a sermos mais fervorosos do que Testemunhas de Jeová em visitar residências.

Os personagens secundários do filme, como a esposa de Carlton, Gina Pearson; o jovem Reggie e o pastor Oral Roberts – interpretado pelo incrivelmente eficiente Martin Sheen – são explorados de maneira sempre periférica, como que sendo as peças que fazem parte desse sistema de poder e influência religiosa, adjacentes à figura de Carlton.

• Ponto de Virada (O Drama de Pearson)

O que Pearson sentiu ao assistir o noticiário sobre o caos em Ruanda não foi uma epifania ou uma visão, foi seu coração se rendendo à compaixão. Pois a verdade é que Céu e Inferno, sobretudo, residem dentro da alma humana.

“O Reino de Deus não vem com aparência exterior. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou ei-lo ali; porque eis que o Reino de Deus está em vós.” (Lucas 17:20-21).

Pearson, enfim, se rende ao amor pelas almas. Ele permite que o Reino de Deus se abra de dentro dele, não tratando com arbitrariedade a consciência do Amor Incondicional de Deus.

“Se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas a vossos filhos, quanto mais Vosso Pai, que está nos Céus, dará aos que lhe pedirem?” (Mateus 7:11).

Se nós podemos desejar o Céu a nossos irmãos, que dirá o próprio Deus, cujo amor é imensurável? Pearson é marginalizado do status quo da Igreja, por expressar a obviedade do amor.

Interessante perceber que, ao saírem da congregação de Pearson, os fiéis sequer apresentam argumentos contra seu posicionamento. Simplesmente saem. A simples leitura de passagens do próprio Novo Testamento os afugenta, como se desfizessem da própria Graça.

Quando seu amigo, Reggie, o indaga sobre a diminuição de fiéis ser a comprovação do erro de Pearson, ele apenas parece esquecer que o próprio Cristo morreu pelas petições da maioria do povo, e também de que: “onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.”. (Mateus 18:20).

A seguir, a trama evidencia que os equívocos da Igreja não se restringem apenas ao âmbito puramente dogmático, como também ao próprio exercício de escolhas básicas, como querer ou não casar. Gina é nitidamente uma mulher de espiritualidade simples, desiludida pelo reconhecimento das próprias frustrações que a instituição eclesiástica proporcionou à sua vida pessoal.

O próprio casamento com Carlton, cuja consistência é apenas a da aparência e do incentivo eclesiástico, que não chega perto do ideal que ela ambicionou que fosse, também não encontra alternativas que lhes sejam muito melhores. Ela ama Carlton, afinal.

Apesar de não ser fácil não ser mais do que uma mulher de apoio moral ao marido pregador, é justamente quando Carlton comete sua cisma é que ela pode agora se tornar também uma esposa melhor, e uma mulher mais plena. É a partir de então que ela pode mostrar que seu apoio é muito mais do que o institucional, é o apoio humano. Seu apoio, de tão incondicional, leva o marido até a desconfiar da legitimidade do mesmo. Afinal, o que a Igreja uniu, a própria Igreja separava. Agora que Carlton saiu do sistema, ela pode, enfim, ter a atenção dele.

• E Agora?

O processo de iluminação de Pearson passa por níveis, o que é representado pela presença da figura de Reggie: o jovem homossexual, que encontrou na vivência comunitária religiosa o apoio contra a repressão imposta pela própria.

Após a cisma de Pearson, o jovem encoraja-se para se entregar a alguém, pelo que fica implícito, e chega a contrair uma doença. Apesar de não sabermos o que exatamente aconteceu (será que isso foi para representar como a Igreja, muitas vezes, está distante de seus fiéis?), sabemos que ele passa a condenar a si mesmo.

Vamos da ideia de uma condenação eterna, a uma ideia de condenação terrena, até, enfim, não haver mais condenação. A canção que os dois entoam juntos é contagiante. É a Graça de Deus manifesta.

Uma cena a seguir mostra Pearson derramando gotas de água de um rio sobre si mesmo. Temos o símbolo de um novo batismo. Um batismo realizado por ele sobre si mesmo. Para os seus desafetos, um ato de arrogância. Para os seus admiradores, um ato de auto-determinação.

Afinal, se é verdade que “bem-aventurado aquele que não condena a si mesmo naquilo que aprova.” (Romanos 14:22), quem vai dizer o contrário?

Fábio Reis é graduado em Design Industrial pela UFAM

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