Entendendo Christopher Robin (Com SPOILERS)

A turma do Bosque dos Cem Acres foi criada pelo escritor inglês A. A. Milne na primeira metade do século passado, lançado em livros com ilustrações de E. H. Shepard.

Através da aquisição dos direitos dos personagens pela Disney, o carismático protagonista das histórias da turma, o Ursinho Pooh, viria a se tornar um dos personagens mais famosos e carismáticos da cultura popular mundial.

Depois de uma safra de longas-metragens sobre o universo da Turma, alguns feitos para a TV; outros, para o cinema; além de séries de TV, dentre as quais a clássica “As Novas Aventuras do Ursinho Pooh” – que marcou minha infância – o personagem ressurge agora, anos depois, em um filme live-action que nos mostra um adulto Christopher Robin.

– Capítulo 1 – A História…

Christopher Robin (personagem que é o alter-ego do filho do próprio autor dos personagens) se vê obrigado a abdicar da criatividade de sua infância para “se dedicar” às responsabilidades da vida adulta. Isso ainda pequeno, quando o pai morre e ele se vê tendo que trabalhar desde cedo.

Assim, Christopher permite que sua criança interior adormeça. Ao se tornar um adulto muito ocupado, marido e pai, encontra as familiares dificuldades para conciliar a vida profissional e a vida em família. E, como sempre, a segunda é a que é sacrificada.

Agora, é necessário que certos “amigos do passado” voltem a encontrar Christopher para que ele volte a viver a alegria e a plenitude da imaginação, para que se torne um adulto melhor.

– Capítulo 2 – A Representação…

Muito bem interpretado pelo também britânico Ewan McGregor, Christopher interage com personagens computadorizados extremamente realistas, com a textura de pêlos que simulam perfeitamente bonecos de pelúcia, dando-nos uma dimensão visual mais visceral e ainda mais “fofinha” dos personagens, que, até então, só tínhamos visto em desenho animado. Dá vontade de apertar cada um deles.

Isso torna-se ainda mais revelador para grande parte dos espectadores que assistiam aos desenhos animados sem nunca terem “se tocado” que os bichinhos consistem não de animais fofinhos reais no universo da trama, mas de bonecos de pelúcia.

– Capítulo 3 – A Magia…

Sempre lembro-me que as histórias da turma do Bosque dos Cem Acres se passavam praticamente apenas no próprio Bosque em si.

Ao fazer, portanto, com que bonecos de pelúcia ganhassem vida nesse mundinho particular, as histórias de Pooh materializavam a imaginação de Christopher durante seus momentos de brincar.

É por isso que Christopher é um objeto de tamanha devoção por parte dos bichinhos. Eles devem a Christopher o anima presente em si. A criatividade de Christopher era o “fôlego de vida” que dava aos bonecos sua projeção animada.

Não é à toa que, neste longa, quando retornamos a ver Pooh depois de Christopher ficar adulto, todos os habitantes do Bosque estão amedrontados, escondendo-se de um tal “efalante” (uma espécie de bicho-papão do universo do Bosque), que, não obstante, aparece justamente no período em que Christopher está tão atolado em suas responsabilidades profissionais que faz com que sua mulher e sua filha queiram se mudar por um tempo.

O esquecimento do lúdico e a negligência afetiva por parte de Christopher projetam os assombros que amedrontam nossos singelos bichinhos, que também são parte dele mesmo. E é aí que o roteiro do longa permite-se brincar com a dualidade do real x imaginário.

Como sendo talvez a primeira narrativa relacionada a Pooh que não se passa exclusivamente no Bosque dos Cem Acres, a história do longa conecta Londres ao Bosque através de um portal fantasioso presente dentro de uma árvore – algo que lembra o guarda-roupa de “As Crônicas de Nárnia” – que não só é um portal para uma realidade paralela, como também é uma porta de entrada para a parte mais lúdica do interior do próprio Christopher.

Além dessa passagem física na forma de uma árvore, há também uma passagem imaginária, como quando o mel que Christopher deixa derramar sobre o antigo desenho que fez de seus amigos faz com que, no Bosque, o pote de mel de Pooh fique esvaziado.

O desenho de uma criança é a conexão desta para com a parte mais pura de sua imaginação, que ainda não reconhece racionalismos. É quando a emoção é mais importante que a lógica. Talvez por isso esse incidente na casa de Christopher interfira no Bosque.

O fato de Christopher estranhar que aquela árvore não ficava em Londres, evidencia que ela é algo que ele, no fundo, carregava dentro de si mesmo.

Quando permite-se brincar pela primeira vez depois de muito tempo, ele espanta a rigidez de si mesmo. As preocupações adultas eram o “efalante” que ele precisava enfrentar.

Na segunda metade do longa, porém, são os bichinhos que saem do Bosque e vão até o mundo real de Christopher, o que os torna não apenas projeções animadas do imaginário dele, como também bonecos literalmente vivos dentro da trama, e que, inclusive, precisam fingir estarem estáticos para brincarem – o que lembra “Toy Story” – o que seria o oposto do que Christopher precisava fazer para brincar com eles, que era projetar, daqueles seres estáticos, uma versão animada.

Dessa forma, o roteiro do longa imprime a ideia de que o imaginário é tão vivo quanto o concreto. A fantasia é tão importante quanto a realidade. De fato, inclusive, a primeira ajuda a mover a segunda.

O estímulo lúdico promove a contemplação para que todas as demais experiências na vida possam ser vividas. Não é esquecendo-nos da infância que tornamo-nos adultos. Pelo contrário, é justamente conservando a beleza contemplativa do brincar que tornamo-nos aptos a sermos adultos criativos e preparados. A criança que brinca hoje é o adulto que cria amanhã.

Mesmo no Evangelho de São Mateus, por exemplo, o próprio Cristo chega a dizer que o Reino dos Céus pertence aos que se tornam semelhantes às crianças.

Quem melhor para entender essa essência senão o próprio dono da companhia que adaptou esses carismáticos personagens para o audiovisual? Walt Disney, por si só, foi e continua sendo, após sua morte, a prova viva de que sonhos podem se tornar realidade. O visionário animador e empresário chegou a dizer a hilária frase: “Eu adoro o impossível. Lá, a concorrência é menor.” Nada mais Disney do que o Pooh.

– Capítulo 4 – Amigos, Doces Amigos…

Cada um de nós tem um pouco do temperamento de cada um dos personagens do Bosque. Inclusive, na infância, algumas dessas características encontram-se elevadas a certos extremos.

Pooh representa a ingenuidade, a inocência e os apegos básicos a algo pra chamar de seu – no caso, um pote de mel – tal qual a chupeta a uma criança.

Seu modo simples de enxergar a vida proporciona as frases mais memoráveis do filme, em diálogos tão singelos quanto enigmáticos e filosóficos.

Seu pêlo amarelado e sua blusa vermelha evocam sua singeleza e sua curiosidade, além de serem cores que estimulam a fome. Por isso, nosso simpático ursinho está sempre à procura de mel.

Talvez não haja no mundo um personagem mais adorável do que Pooh.

Bisonho – agora chamado de Ió – representa a melancolia. Seu modo trágico de enxergar a existência proporcionam os diálogos mais cômicos do filme.

Sua cor acinzentada transmite sua tristeza. É o único dos bichinhos que se comporta como um quadrúpede. Os outros, apesar de também serem representações de animais que andam igualmente em quatro patas, andam em duas. Essa postura prostrada de Bisonho é mais uma forma de evocar visualmente seu estado depressivo.

Nos desenhos, o fato de ele ser o único personagem do Bosque a ter uma parte do seu corpo colada em si – a cauda – talvez seja a única coisa que torna possível a uma criança perceber que os personagens são bonecos, o que o dota visualmente de uma frustração que ecoa sua depressão.

Leitão é quase a síntese da ansiedade – mais presente em adultos – e da inclinação excessiva ao pânico, presente em adultos mas de uma maneira singular em crianças, sobretudo na forma do medo de desprender-se por muito tempo dos pais ou responsáveis; medo do escuro; medo de dormir sozinho; medo de bichos imaginários; etc.

Sua insegurança e covardia, tornam-no um personagem que dá vontade de abraçar apertadinho…, digo, adorável. Sua pele cor-de-rosa evoca a passividade com que se torna refém de suas próprias emoções. O medo intenso faz com que sua coragem espalhe sobre si ainda mais virtude.

Tigrão, por sua vez, é a agitação em pessoa, digo, em tigre. Sua vontade constante de pular é a extensão da excentricidade física da infância (que criança, às vezes, não gosta de pular repetidamente sem motivo nenhum?), ou ainda, do motor inconsciente de motivação para os adultos.

A expressão “dar pulinhos de alegria” encontra sua literalidade em Tigrão. Não é à toa que ele é um tigre, e, portanto, seja marcado pela cor laranja, que estimula a criatividade e a ação.

Senti falta de ver um pouco mais dos outros personagens, como Abel (agora chamado de Coelho), Professor Corujão, Can e Guru, que aparecem pouco no filme.

Inclusive, creio que o Abel mereceria algum foco na história. Sua neurose de organização renderia ótimas cenas. Encontro muito desse TOC de Abel em mim quando pequeno, quando tratava meus pertences mais importantes com uma exagerada atenção, o que pode ser algo comum em crianças mais introspectivas do que danadas.

– Capítulo 5 – Fazendo Nada…

O Christopher menino e Pooh referem-se por vezes aos seus afazeres como “fazer nada”. Ao dizer isso, reproduzem uma palavra que cresceram ouvindo provavelmente dos adultos, que subestima os momentos “de bobeira”, como se fossem algo contraprodutivo.

“Fazer nada” é algo bastante subjetivo, afinal. Quantas ideias geniais não surgem… (como é mesmo?)… do “nada”? Quantos gênios não tiveram seu insight justamente enquanto “faziam nada” por um tempo?

Como bacharel em Design, sei que, no estudo de metodologia projetual, chamamos isso de “etapa de incubação”. É o momento em que o projetista, após identificar um problema a ser resolvido; a pesquisar toda informação pertinente ao tema no qual o problema está inserido; e definir seus critérios para geração de alternativas de solução, deixa-se relaxar, por assim dizer, ficando em um estado onde a mente procura por ideias inconscientemente.

É o que ocorre com Christopher ao final do filme. A centelha criativa se acende no momento mais crítico em que se encontra. Através da ideia que teve, Christopher consegue contornar a crise de sua fábrica.

E tudo isso começou com bichinhos falantes…

– Capítulo 6 – A Lição…

A preocupação com o futuro fez com que Christopher ignorasse seu presente. E foi apenas voltando à beleza do passado esquecido, que ele pôde vivenciar plenamente seu presente, e garantir o sucesso de seu futuro.

Essa é a mensagem desse simpático filme, que apesar de ser totalmente previsível e possuir clichês bem típicos de muitos filmes direcionados à família, encontra no carisma de seus personagens ímpares sua relevância.

Depois de tanto tempo sem assistir praticamente nada relacionado ao ursinho que tanto chegou a cativar minha infância, “Christopher Robin” acendeu em mim a vontade de rever esses velhos amigos.

Definitivamente, o longa é um filme feito para dialogar diretamente com adultos, que talvez encontrem-se perdidos em suas preocupações, assim como Christopher se encontrava. O fato de ser um live action imprime melhor isso.

Se você, adulto, não sentiu vontade de assistir a “Christopher Robin” apenas por tratar-se de um filme com bichinhos falantes, talvez deva ser porque você não assistia aos desenhos animados de Pooh na sua infância, ou porque tenha se permitido enrijecer-se perante os dilemas da vida adulta.

Sendo assim, talvez você precise lembrar de como é estar no seu Bosque dos Cem Acres e se divertir um pouco. Vai por mim, você sairá de lá mais feliz…

 

Fábio Reis é graduado em Design Industrial pela UFAM

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