José do Egito (minissérie) – Análise

Em tempos de Game of Thrones – série tão falada atualmente que me faz sentir alienado por nunca ter assistido quase nenhum capítulo – é bom relembramos de um folhetim de super produção produzido aqui em terras tupiniquins (minissérie brasileira de maior orçamento): José do Egito. Produzida pela Rede Record e exibida originalmente em 2013, a obra conta a história do lendário herói bíblico, interpretado por Ângelo Paes Leme.

José do Egito foi o ápice de qualidade em termos narrativos e técnicos, dentro do currículo de adaptações teledramatúrgicas de histórias bíblicas que a Record fez. Foi o magnum opus da emissora, depois de A História de Ester, Sansão e Dalila e Rei Davi. Com cerca de 300 profissionais envolvidos, as filmagens foram feitas no deserto do Atacama, no Chile, além de Egito e Israel, com câmeras digitais Arri Alexa, muito utilizada em produções hollywoodianas.

A história do jovem que tinha o dom de interpretar sonhos, e cuja integridade despertou o ciúme enfurecido de seus onze irmãos, que o jogaram num poço e o venderam como escravo, e que depois se tornou governador do Egito, é contada com ótimas interpretações e ângulos formidáveis em cenários belíssimos. Com semblante calmo, olhar inocente e postura ereta, Ângelo concebe o herói em toda a sua pureza de alma e generosidade, desenvolvendo de maneira magistral a interpretação de Ricky Tavares, que fez o herói em sua fase mais jovem.

A série mostra, com grande beleza visual e realismo em computação gráfica, os sonhos tidos por José. A dinâmica da vida em família, com o patriarca Jacó e seus onze irmãos, são mostradas com belos diálogos e situações. Começando com o trágico abuso da irmã Diná pelo príncipe de Siquém, os primeiros capítulos já são intensos. A adaptação preenche as lacunas e a falta de detalhes do texto sagrado, com subtramas interessantes, como, por exemplo, a paixão de um dos filhos de Jacó – Rúbem – por uma das esposas do pai (algo absolutamente fácil de ocorrer visto que o povo hebreu, nessa época, se resumia a um pai polígamo e seus doze filhos).

A fuga de José dos mercadores antes de ser finalmente vendido a Potifar (primeiro-ministro de Faraó), é contagiante e um ponto de virada importante na narrativa, pois o faz esbarrar em Azenate, sua futura esposa, personagem reduzida a uma citação no texto sagrado, e que ganha substância com a interpretação de Maytê Piragibe.

Dos doze irmãos, é dada uma maior ênfase nas personagens com importâncias narrativas maiores, como o invejoso Simeão, o relutante Rúbem e o mais prudente Judá, brilhantemente interpretados por Caio Junqueira, Guilherme Winter e Victor Hugo.

Taumaturgo Ferreira constrói um Potifar carismático e único, que nos faz pensar que nenhum outro ator poderia ter ficado com esse papel, a não ser ele. A sedução de José pela esposa de Potifar é um dos pontos altos da trama, cuja acusação leviana o leva a ser preso. O período de prisão de José é um dos pontos fortes da trama. O calabouço no qual José fica preso é sombrio e agonizante. É durante esse período que o roteiro de Vivian de Oliveira dá um show de adaptação, proporcionando um belo desenvolvimento de personagem, quando a sabedoria de José o leva a ser uma espécie de administrador da produção na pedreira onde os presos trabalham. Um motim que ocorre posteriormente faz com que os presos atentem contra a vida do mais odioso dos carcereiros, o qual José ajuda, e ganha confiança do mesmo, fazendo surgir desta redenção uma amizade.

O Egito é absolutamente bem representado pelos templos e obeliscos feitos no complexo RecNove e complementado com horizontes cheios de pirâmides em panorâmicas feitas em CGI.

Em torno de todas essas reviravoltas, a cultura e as crenças do povo egípcio é abordada de maneira interessante, proporcionando oportunidades narrativas, como quando personagens com menos pudor aproveitam para se encontrarem à noite, secretamente, visto que, de noite, os egípcios tinham medo de sair de suas casas, por não cuidarem estar contando com a proteção de Osíris.

Além disso, Vivian de Oliveira encontra espaço para conceber um ótimo vilão, que é o cúmulo do sogro que ninguém quer: o sumo-sacerdote Pentephres (ou Potífera), pai de Azenate, que encontra sua posição social e sua reputação ameaçada quando da chegada de José ao palácio. Eduardo Lago constrói uma personagem irônica e cínica em suas colocações e sem escrúpulos em suas tentativas de atentar contra a vida de José. Seu jeito calmo e pouco empolgado de se expressar me faz lembrar o Scar de O Rei Leão. Pentephres é um vilão digno de um filme da Disney, que o público ama odiar. O selamento de seu destino na conclusão da trama é visualmente belíssima e ambiguamente mística, quando vai se encontrar com os deuses egípcios no deserto, depois de ser expulso de Avares, não se sabendo se, de fato, sua alma foi absorvida pelos mesmos ou se as aparições são projeções de sua mente alucinada.

A trilha sonora de Daniel Figueiredo confere um caráter ainda mais épico à trama. As músicas são ridiculamente lindas, com uso de harpas, shofares e cantos gregorianos. Um trabalho que merece ser reconhecido, ainda mais pelo fato de que eu desconheço produções televisivas brasileiras que possuam uma trilha sonora absolutamente original, como é o caso das séries bíblicas da Record, que pelo contexto épico e antigo, precisaram compor música extradiegética especialmente para a trama (e não aproveitar sinfonias pré-existentes, como é o caso da maioria das minisséries e novelas brasileiras).

Por essas e outras, a clássica narrativa do Gênesis tem na minissérie da Record sua mais competente representação. Assim como, por exemplo, as versões da Disney são as primeiras coisas que nos vêm à mente quando pensamos nas figuras de personagens como Aladdin, A Bela e a Fera, A Pequena Sereia, Branca de Neve e outras mais, de igual modo, a versão de Ângelo Paes Leme como José fincará o herói bíblico no inconsciente coletivo da população de maneira definitiva.

Fábio Reis é formando em Design Industrial

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