Pastoral Americana: um dilema entre família e sociedade

O ator britânico Ewan McGregor estrela e faz sua estreia na direção, com o belo drama “Pastoral Americana”, adaptação de um livro escrito por Phillip Roth em 1997, sobre um homem bem-sucedido que vê sua idealizada família se diluindo aos poucos, no contexto social da contra-cultura e dos anseios revolucionários nos EUA da década de 1960.

Era Uma Vez… O Sonho Americano

Seymour Levov (Ewan McGregor) é um descendente de judeus, de família abastada, que, além de ter sido um grande atleta na época do colegial, casa-se com Dawn, uma ex-miss rainha de beleza da cidade, e herda a fábrica de luvas do seu pai, sendo um patrão bem-sucedido e íntegro. A filha do casal é uma doce e linda menina, chamada Meredith, ou simplesmente Merry.

O lar de Seymour representa a materialização do american dream. Uma família branca, de classe média, não-racista, de um casal de conciliação judaico-cristã (ela, católica; ele, judeu), com uma filha tão afeita à vida urbana quanto à vida rural. O que poderia dar errado nessa família?

Porém, o destino reservaria para essa família um destino trágico. Merry sofre de uma hipersensibilidade que a torna uma figura de instabilidade dentro da tranquilidade de seu lar. Uma consequência disso é sua gagueira, que chega a tornar-se incontrolável em certos momentos, a ponto de não conseguir concluir uma frase.

Ao sair de sua bolha existencial e se deparar com as tragédias da Guerra do Vietnã, Merry se revolta com o sistema norte-americano, bem como com o conformismo de seus pais, e passa a ser uma entusiasta revolucionária. Ao não corresponder às expectativas de seus pais, a convivência familiar torna-se insustentável, por resistências de ambas as partes.

Quando Merry decide sair de casa, Seymour se vê num impasse para conseguir manter os laços afetivos com sua filha. Após um atentado numa caixa de correio de um armazém na sua cidade, Seymour tenta encontrar equilíbrio emocional para lidar com o fato de que sua filha se tornara uma manifestante radical, que acabara praticando atos terroristas tão reprováveis quanto aqueles que a revoltaram. É nessa vulnerabilidade entre dois pólos de um caos social que o protagonista desperta o olhar do espectador para a impotência humana.

Ilustrando o Caos

É simbólica a cena do atentado na cidade de Seymour, em que um colega seu morre ao entrar no seu armazém após hastear a bandeira dos EUA em frente ao estabelecimento. Enquanto vemos o vento movendo a bandeira, ao fundo, o estabelecimento explode. É o sonho americano, que, por fora, parece belo e cheio de esplendor; por dentro, não sustenta o idealismo que evoca.

A fotografia convenientemente situa o incidente ao final da tarde, proporcionando uma coloração azulada que sintetiza a tragédia que trará a melancolia à família de Seymour. Após a explosão, ainda temos um close na bandeira, simbolizando a postura incólume dos EUA mediante sua posição na Guerra do Vietnã, mesmo com as retaliações que ela possa trazer.

Merry foge de casa para se tornar uma ativa militante esquerdista revolucionária. Seu senso irônico irrefutável e seu fanatismo político não conhece limites, e a dicotomia entre o macro e o microcosmos social torna irrevogável a situação de Seymour, que quer apenas ser um bom pai, marido e profissional.

A iluminação de determinada cena de um jantar aborda essa dicotomia entre a obrigação familiar e a obrigação social ou entre o seio do lar e a vida lá fora, colocando em holofote Seymour e Dawn conversando à mesa, enquanto há uma obscuridão ao fundo. O caos social afetando a harmonia do lar.

A obra parte de uma perspectiva conservadora no contexto de manifestação política, porém sua trama aborda os extremos de todos os pólos, desde a arbitrariedade nociva das forças policiais e do Exército para conter manifestantes negros em prol dos direitos civis (e o controverso “toque de recolher”, criticado em uma hilária frase de Merry), até o caráter desordeiro de tais reivindicações, que colocam em risco a vida de indivíduos tanto brancos quanto negros, mesmo dentro de suas propriedades.

Também é simbólico o plano em que Seymour e sua empregada estão fazendo vigília dentro da fábrica, para conter as depredações públicas. Não por acaso, o filtro esverdeado da fotografia, banhando de maneira visualmente turva o cômodo, evocando um senso melancólico mas otimista de esperança na igualdade entre brancos e negros, representada por Seymour e sua empregada posicionados sentados lado a lado.

As mesmas escolhas tonais que tendem ao verde também são vistas na cena em que Seymour e Dawn vão expressar suas condolências à viúva e ao filho órfão do homem do armazém. O diálogo muito bem escrito expressa o que também se evoca visualmente: no final das contas, as maiores vítimas são os pais do agressor e não os da vítima.

Não à toa, a mãe e o filho estão vestidos de azul e verde, as cores da melancolia e da esperança. Já Seymour e Dawn estão de ternos escuros e vestido preto, respectivamente, expressando luto.

As Escolhas de Roteiro e da Direção

Nunca havia ouvido falar no romance homônimo que deu origem ao filme, e desconheço até que ponto o filme é fiel ao livro. Porém, as escolhas do roteiro e da direção sintetizam bem as próprias ideias da obra.

As luvas fabricadas pela empresa de Seymour fazem uma alusão simbólica à ideia de se “encaixar” nos ideais sociais. É bem pensada a aparição da radical de esquerda, suposta informante de Merry, no escritório de Seymour, se passando por uma aspirante ao trabalho da fábrica, a quem Seymour decide preparar uma luva. Ela usa a luva, e, em seguida, tira, revelando o paradeiro de sua filha – para surpresa de Seymour. Isso serve para ressaltar o comportamento de Merry: mesmo se encaixando nos padrões sociais de sua família, ela renega seu estilo de vida e decide se despir dela. Merry não se encaixou no conformismo da família, representado pela luva.

Também são pertinentes as mudanças de figurino de Dawn conforme suas mudanças de humor. Nos momentos em que ela está aflita pelo paradeiro da filha, usa blusas e casacos com manga comprida e saias longas, como quem se esconde e se retorce em seu interior. Porém, ela chega ao cúmulo de enlouquecer, despindo-se não só de sua sanidade, como também literalmente, ficando nua, usando apenas sua faixa de miss, dentro do escritório de Seymour. Quando decide esquecê-la, volta a usar vestidos e roupas que revelam mais seus braços e suas pernas, como no tempo em que era feliz.

Cada diálogo está ali por um motivo. Desde a cena inicial, da conversa entre Dawn e seu sogro, apresentando a superação das barreiras judaico-cristãs, estabelecendo o ímpeto de Dawn e seu interesse e amor por Seymour, para depois, ao final do longa, mostrá-la traindo-o gratuitamente. É triste a decadência de sua conjugalidade.

Também pertinente é a abordagem da relação entre Seymour e seu pai. Durante uma cena na fábrica, ele pede para que seu pai não visite a fábrica diariamente, ao que este se sente incomodado. A presença de seu pai era constante demais até mesmo para Seymour, que mal sabia que haveria de lidar com a completa ausência deliberada de sua própria filha.

Uma Grata Surpresa

São mesmo curiosos os lobbys de Hollywood. Enquanto filmes medianos, por vezes, são premiados, alguns filmes excelentes podem passar despercebidos, às vezes. Certamente, este era o caso de “De Amor e Trevas” (2015), dirigido por Natalie Portman, assim como é o caso deste “Pastoral Americana”, dirigido por Ewan McGregor.

As coincidências são muitas entre os dois filmes para um cinéfilo tão espiritualizado quanto espirituoso quanto este que escreve. Ambos são dirigidos por duas grandes estrelas; ambos consistem em seus respectivos primeiros trabalhos na direção; ambos eu só cheguei a conhecer por acaso, nunca tendo ouvido falar antes; ambos são filmes de duas personalidades que eu conheci através do mesmo filme: “Star Wars: Ataque dos Clones” (2002). Quem diria que os intérpretes de Obi-wan Kenobi e Padmé Amidala ainda viriam a me surpreender tanto, com trabalhos tão intimistas, visualmente poéticos e competentes como estes. Que dirijam mais filmes.

Ah, faltou outra coisa: ambos são adaptações de célebres livros. E infelizmente padeceram injustamente do mesmo mal: são avaliados de forma enviesada, à sombra do material original, e não isoladamente, como filmes. Um equívoco de espectadores e críticos que não reconhecem a incompatibilidade entre a linguagem literária e audiovisual.

Se eu fosse avaliar filmes de roteiro adaptado sempre como sínteses do material original, e não simplesmente como filmes, “Ben-Hur” (1959) não seria o premiadíssimo filme que foi (um dos três filmes mais premiados da história do Oscar), visto que tive o privilégio de adquirir a obra literária, e chega a ser ridícula a discrepância entre a experiência de se ler o livro e de se assistir ao respectivo filme, que empalidece miseravelmente diante da riqueza de detalhes, informações, apuros psicológicos e espirituais, diálogos, descrições e sofisticação da escrita de Lew Wallace, que faz as vezes de historiador e romancista em sua obra.

Ainda em se tratando de “Ben-Hur”, não menos pertinente é o fato de que a minissérie britânica de 2010 funcionou mais para mim do que o longa clássico de 1959.

Da mesma forma, filmes como “Pastoral Americana” devem ser apreciados isoladamente de seu material original. Independentemente de eu chegar a ler o livro ou não, o fato é que o filme funcionou para mim, dentro de sua proposta.

Em tempos de uma guerra ideológica de narrativas no âmbito político, sobretudo no Brasil, em que se justifica uma ditadura pela outra, é saudável que filmes como esse retratem recortes sociais que nos permitem ter a dose de sobriedade e modéstia intelectual para discutir questões tão mais amplas do que nós mesmos.

São tantos os temas e percepções que a obra evoca – a importância dos laços afetivos; a instabilidade do lar em detrimento da revolução social; o zelo conservador mediante a postura desordeira; a fragilidade humana frente ao caos; a perda da ilusão idealista; a substância da guerra; a inconsistência das instituições; a incompatibilidade comunicacional nas relações humanas – tal qual apenas as grandes obras de arte proporcionam.

PS: É válido ressaltar o brilhantismo do cartaz, com o olhar de Merry servindo como tarja para as bocas de seus pais, que, por sua vez, não dão voz aos seus anseios, marcados pela ausência de sua própria boca.

O trailer do filme também constitui uma peça artística invejável. Sem narração e quase sem nenhum diálogo, as cenas do filme são mostradas apenas ao som de um cover da música “Mad World” (1982), de uma das minhas bandas favoritas dos anos 80, o “Tears for Fears”, aqui numa versão lenta, de voz e piano, interpretada por Jasmine Thompson. A letra da canção evoca muito bem a ideia de uma perspectiva incerta para o indivíduo, que se vê refém do mundo à sua volta, tal como o protagonista do filme: um herói trágico, que apenas tenta encontrar dignidade para si e para outros sem ter que derramar uma gota de sangue, e que acaba sendo vitimado – como diz seu irmão – “por uma guerra que não começou”.


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

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