Oscar 2020

A 92ª cerimônia de entrega dos prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas ocorreu neste domingo (9), com não muitas surpresas e algumas bem positivas.

“Parasita”, filme sul-coreano de Bong Joon-Ho, foi a grande surpresa da noite, levando os principais prêmios: Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro Original e Melhor Filme Estrangeiro. O grande filme da noite, portanto, foi o primeiro filme sul-coreano a ganhar um Oscar de Melhor Filme.

A segunda grande surpresa foi o subestimado “Ford vs Ferrari”, que acabou, felizmente, levando duas estatuetas: a de Melhor Mixagem de Som (que é bem compreensível) e a de Melhor Montagem, (bem menos esperada).

“Coringa” foi o filme com maior número de indicações (11), levando apenas duas estatuetas. Logo atrás, com 10 indicações cada, vinham “O Irlandês”, o épico de máfia de Martin Scorsese, que acabou não levando nada para casa; “1917”, filme de guerra de Sam Mendes, que levou 3 estatuetas; além de “Era Uma Vez… em Hollywood”, com duas estatuetas.

Palco

Com um número musical em um cenário que remete ao filme “Um Lindo Dia na Vizinhança” (que rendeu a Tom Hanks uma indicação a Melhor Ator Coadjuvante), com direito a vários dançarinos vestidos como personagens dos principais filmes indicados, a cerimônia começou bem.

Devido à falta de representatividade negra e feminina entre os indicados às principais categorias deste ano, muitas das apresentações da noite foram estreladas por cantores negros e cantoras negras, além de muitos prêmios serem dados por grandes atrizes.

Animações

Essa falta de diversidade foi devidamente compensada com a vitória de algumas categorias, como o fato de o prêmio de Melhor Curta-Metragem de Animação ter ido para o singelo “Hair Love”, numa narrativa em que a representatividade e a originalidade da trama se confundem, sobre a questão do cabelo dos negros, um tema tão custoso à população negra, abordada de forma bem-humorada e cativante.

Para a categoria de Melhor Longa-Metragem de Animação, o queridinho “Toy Story 4” foi merecidamente agraciado. Apesar da frustração de uma produção mais alternativa e diferenciada, como “Perdi Meu Corpo” não ganhar, é inegável a beleza e singeleza da narrativa do quarto capítulo da franquia da Pixar, que se favorece do apelo à memória afetiva e cujo belíssimo trabalho de direção de arte também chama a atenção, igualmente ao surpreendente “Klaus”, que reproduz e revitaliza o estilo tradicional 2D, porém com uma história um tanto mais previsível.

Documentários e Curtas

Não tive a oportunidade de assistir a todos os curtas-metragens em live-action, pois nem todos estão disponíveis na internet. Porém, entre “The Neighbor´s Window” (A Janela do Vizinho, em tradução literal), e “Nefta Football Club”, os de mais fácil acesso, o primeiro, definitivamente, tem uma história mais interessante e uma mensagem bastante singela, sendo merecidamente premiado.

Na categoria de Melhor Documentário em Longa-Metragem, o Brasil ainda não levou a melhor dessa vez, com o documentário “Democracia em Vertigem”, perdendo para o igualmente interessante “American Factory” (Indústria Americana), uma abordagem dos desafios de operários americanos frente a uma rígida liderança asiática de uma empresa, com o advento da crescente informatização dos serviços.

Em Melhor Documentário em Curta-Metragem, não tive a oportunidade de assistir a nenhum dos indicados. O vencedor foi a obra com o hilário título de “Learning to Skateboard in a Warzone (If You´re a Girl)” (algo como “Aprendendo a Andar de Skate numa Zona de Guerra (Se Você for uma Garota)”, trazendo um importante retrato social otimista em um contexto trágico.

Categorias Técnicas

Na categoria de Maquiagem e Cabelo, bem que poderíamos ter um apoio a um filme menos prestigiado, como “Malévola – Dona do Mal” que, a despeito de qualquer coisa, é visualmente surpreendente. Angelina Jolie é absolutamente crível com suas bochechas cavadas no filme. Mesmo “Coringa”, que parecia ser, tecnicamente, o mais fraco nesta categoria, tem uma função mais artística e narrativa no trabalho de maquiagem do personagem, que poderia ter sido reconhecida. Mas “O Escândalo” acabou levando a melhor, com um trabalho de maquiagem que, a meu ver, apesar de tecnicamente bem realizado, é bem perceptível, além de narrativamente gratuito.

Em Efeitos Visuais, “1917” acabou sendo agraciado, desmerecidamente, a meu ver. Por mais impecável que seja o trabalho deste singular filme de guerra, é incompreensível como isso pode ser superior a todos os outros indicados, que possuem personagens totalmente criados e animados em CGI. O visual de “O Rei Leão”, “Os Vingadores: Ultimato” e “Star Wars: A Ascensão Skywalker” beira a perfeição, com personagens, elementos e cenários inteiros feitos em computador. Imagina o trabalho surreal de chroma-key. Não deu para entender a vitória dessa categoria.

“1917” acabou também levando estatuetas por Mixagem de Som e Fotografia. O primeiro é bastante compreensível, em se tratando de um filme de guerra, mas o segundo poderia muito bem ter ficado para “Coringa” em que cada enquadramento é um plano memorável. Talvez pela delicadeza da questão do plano-sequência, o filme de Sam Mendes tenha levado a melhor.

Em Melhor Direção de Arte, apesar da beleza visual de “Jojo Rabbit”, digna de nota, “Era Uma Vez… em Hollywood” não tinha muito como perder, com sua formidável reconstituição da Los Angeles do final da década de 60.

O prêmio de Figurino estava bem acirrado, mas realmente a sofisticação de um drama de época nos requintes de “Adoráveis Mulheres” dificilmente é superável. O filme de Greta Gerwig acabou ganhando seu único e merecido prêmio. Apesar da injustiça de não ter sido indicada à Melhor Direção, Greta foi reconhecida com a indicação à Melhor Roteiro Adaptado.

Roteiro

Curiosamente, parece que todos os indicados a Melhor Roteiro Adaptado eram também os próprios diretores dessas obras. Apesar do admirável trabalho de Greta Gerwig em atualizar um texto de uma obra literária bem antiga como “Adoráveis Mulheres”, Taika Waititi acabou levando a estatueta por “Jojo Rabbit”. O trabalho de Waititi é muito bom, mas minha torcida era por “Coringa” também nesta categoria, já que Todd Phillips e Scott Silver se permitiram a delicada tarefa de fornecer uma história de origem para um dos vilões mais icônicos da história da cultura pop, mantendo a essência de um personagem tão complexo e ambivalente, que já foi explorado nas mais diferentes mídias e de várias formas.

Por se destacar dos demais nesse aspecto, não sendo exatamente um roteiro adaptado, e sim um roteiro original para um personagem previamente existente, seria merecida a vitória de “Coringa”. Não sei se esse aspecto poderia dar mais pontos ou menos pontos ao filme. Porém, estamos falando do filme que a sociedade parou para ver e comentar, e do primeiro filme que me lembro cujo roteiro adapta algo advindo da literatura de quadrinhos. Todos os outros consistem em adaptações de romances literários, ou seja, um material bruto mais concreto em mãos. Então, a vitória do filme de Todd Phillips seria um feito e tanto.

Porém, é destacável a obra de Taika Waititi, que se apoia mais no seu estilo de humor satírico numa obra cujo material original era mais dramático. “Jojo Rabbit” consegue a façanha de ser uma sátira ácida de humor negro ao nazismo, e um filme infanto-juvenil, ao mesmo tempo.

Em Melhor Roteiro Original, o vencedor do Globo de Ouro Quentin Tarantino ficou para trás do suspense sul-coreano de Bong Joon Ho e Han Jin Woo, “Parasita”, que possui, de fato, uma trama mais coesa e conclusiva do que o épico sessentista sobre o atentado da família Manson.

Música

A categoria de Melhor Canção Original estava bastante difícil. O favorito, Elton John, levou por sua música “(I´m Gonna) Love Me Again”, composta para o filme de sua própria biografia, “RocketMan”. Uma surpresa seria agradável nesta categoria, já que todas eram muito boas.

Destaque para “Stand Up” do filme “Harriet”, com uma arrebatadora performance de Cynthia Erivo, também indicada em Atriz Coadjuvante, pelo mesmo filme; e “Into the Unkown” de Frozen II. A Disney mais uma vez demonstra seu talento em composições musicais, já que, além de Frozen II, o lendário Randy Newman também foi indicado por “I Can´t Let Through Yourself Away” de Toy Story 4, dando à franquia mais uma indicação à Música (todos os outros filmes de Toy Story foram indicados nesta categoria, sendo que o terceiro filme venceu).

O filme religioso “Superação: O Milagre da Fé” também teve sua bela música “I´m Standing With You” indicada. A ótima interpretação de Chrissy Metz – também atriz do filme – aliado a um coral gospel arrebatador, não tem como não arrepiar os cabelos do braço.

Em Melhor Trilha Sonora Original, a bela composição musical intimista, sombria e melancólica de Hildur Guonadóttir para “Coringa” foi a premiada.

Principais Categorias

Sem maiores surpresas nas categorias de atuação, todos os que já vinham vencendo os prêmios do circuito, tiveram também o mesmo reconhecimento na maior premiação do cinema. Assim, Laura Dern levou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante, por “História de um Casamento”; Brad Pitt, o de Melhor Ator Coadjuvante, por “Era Uma Vez… em Hollywood”; Renée Zellwegger, o de Melhor Atriz, por “Judy: Muito Além do Arco-Íris”; e, o favorito da noite, Joaquin Phoenix, vencedor do prêmio de Melhor Ator por “Coringa”.

Meu favorito para Melhor Ator Coadjuvante era Anthony Hopkins por sua atuação em , em que tem uma performance tão vigorosa quanto sutil. Mas Brad Pitt levou seu primeiro Oscar de atuação para casa.

O prêmio que mais poderia ter tido surpresas seria o de Atriz. Não tem como não destacar as performances de Scarlett Johanson em “História de um Casamento” e Saoirse Ronan em “Adoráveis Mulheres”, de forma tão natural que chega a surpreender. Mas a Academia, mais uma vez, dá a preferência para performances que simulam os trejeitos de uma pessoa famosa numa cinebiografia. Um bom retorno ao estrelato de Renée Zellwegger, por interpretar a diva do cinema Judy Garland.

Novatos entre Gigantes

As categorias de Melhor Trilha Sonora Original e Melhor Direção foram historicamente significativas, já que deram a novatos na cerimônia a vitória, dentre tantos veteranos.
A compositora Hildur Guonadóttir, por seu trabalho em “Coringa”, venceu de gigantes, como o já citado pela canção de Toy Story 4, Randy Newman (lenda viva do jazz) por “História de um Casamento”, John Williams por “Star Wars: A Ascensão Skywalker”, e Thomas Newman (primo de Randy), por “1917”.

Hildur Guonadóttir tornou-se a quarta mulher na História a receber esse prêmio, e a primeira a recebê-lo após a mudança em que o prêmio de Trilha Sonora foi unificado (antes, a categoria era dividida entre Drama e Comédia/Musical).

Da mesma forma, o diretor Bong Joon Ho, venceu de seus próprios ídolos em sua categoria. Os veteranos Martin Scorsese, Sam Mendes, Quentin Tarantino e o também novato Todd Phillips foram homenageados no discurso do sul-coreano.

Sendo assim, apesar de maioria previsível de prêmios, tivemos gratas surpresas, e termômetros do Globo de Ouro bem justos. Não foi dessa vez que Tarantino teve seu maior êxito, nem foi dessa vez que um filme sobre um vilão de quadrinhos levou o prêmio máximo. Mas, pelo menos, foi dessa vez que tivemos um filme estrangeiro ser o maior de todos.


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

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