Ciência de luto, morre o físico Stephen Hawking

“Este não seria um grande universo se não fosse a casa das pessoas que amamos”

O maior cientista do séc. XXI, Stephen Hawking, que surpreendeu os médicos ao viver mais de 50 anos com esclerose lateral amiotrófica, morreu aos 76 anos, nesta quarta-feira, 14/3, na sua casa em Cambridge, Inglaterra.
Os filhos Lucy, Robert e Tim confirmaram a notícia em comunicado.

“Foi um grande cientista e um homem extraordinário cujo trabalho e legado irão viver durante muitos anos”, pode ler-se na declaração citada pelo The Guardian.

No texto, os filhos de Stephen Hawking acrescentam que a sua coragem e persistência, assim como a sua inteligência e humor inspiraram pessoas por todo o mundo.

“Ele disse um dia que ‘este não seria um grande universo se não fosse a casa das pessoas que amamos’“, acrescentam os filhos.

Hawking é um dos cientistas com maior destaque desde o físico alemão Albert Einstein. A sua obra “Uma Breve História do Tempo” é um dos livros mais vendidos no mundo.

“O meu objetivo era escrever um livro que vendesse nas livrarias dos aeroportos”, confessou na época, dizendo que testara a obra nas enfermeiras que dele cuidavam. “Acho que elas perceberam praticamente tudo”, comentou orgulhoso por o livro conter apenas uma equação matemática.

Apesar de sofrer de esclerose lateral amiotrófica desde os 21 anos, Hawking surpreendeu os médicos ao viver mais de 50 anos com esta doença fatal, caracterizada pela degeneração dos neurônios motores, as células do sistema nervoso central que controlam os movimentos voluntários dos músculos.

Em 1985, uma grave pneumonia deixou-o a respirar por um tubo, forçando-o, desde então, a comunicar através de um sintetizador de voz eletrônico.

“Eu vivi cinco décadas mais do que os médicos haviam predito. Eu tentei fazer bom uso do meu tempo”, disse no documentário “Hawking”, de 2013. “Porque todos os dias pode ser o meu último, eu desejo tirar o máximo de cada minuto”, acrescentou.

“Eu vivo com a perspectiva de uma morte precoce há 49 anos, não tenho medo da morte, mas não tenho pressa de morrer, há tantas coisas que eu quero fazer primeiro”, disse em entrevista ao The Guardian, em maio de 2011.
Mas Hawking continuou a desenvolver as suas pesquisas na área da ciência, a aparecer na televisão e casou-se pela segunda vez.

No livro My Brief History, que lançou em 2013, confessou que a doença o fez trabalhar mais, mas também contribuiu para o fim dos dois casamentos – com Jane Hawking, entre 1965 e 1995, e com Elaine Mason, entre 1995 e 2006.

Professor de matemática na universidade de Cambridge, Hawking fez parte de uma das mais importantes pesquisas no ramo da física, sobre a “Teoria do Tudo”.

Aquela teoria resolveria as contradições entre a teoria geral da relatividade, de Einstein, que descreve as leis da gravidade que determinam o movimento de corpos como planetas, e a teoria da mecânica quântica, que lida com partículas subatômicas.

Para Hawking, aquela pesquisa era uma missão quase divina, pois dizia que encontrar a “Teoria do Tudo” permitiria à humanidade “conhecer a mente de Deus”. Mais tarde, contudo, Hawking admitiu que teoria talvez não exista.
Num outro livro, “O Universo Numa Casca de Noz”, explica conceitos como a super gravitação, singularidade nua e a possibilidade de um universo com onze dimensões.

Em 2007, o cientista teve a experiência do que é escapar à gravidade terrestre, ao ser levado num voo parabólico de “zero-G” da NASA, o mesmo utilizado no treino de astronautas.

Dez anos depois, em 2017, anunciou que tinha aceitado o convite de Richard Branson para viajar ao espaço, num voo da Virgin Galactic, a Companhia que fará voos suborbitais (não chegam a entrar em órbita, mas chegam a uma altitude que já é considerada “espaço”) para turistas. Essa viagem nunca se concretizou.

A combinação entre a sua obra e o facto de permanecer quase totalmente incapacitado – no final podia apenas contrair alguns músculos do rosto – fez com que se tornasse um dos cientistas mais conhecidos do mundo.
Lançado em 2014, o filme The Theory of Everything (A Teoria de Tudo), retrata a sua vida e carreira acadêmica. Prova da sua popularidade, fez uma aparição na série Star Trek: Next Generation e teve direito a uma caricatura em Os Simpsons. Fez também participações especiais em A Teoria do Big Bang, uma sitcom em torno de um grupo de cientistas que estudam na Caltech, a universidade californiana onde Hawking fez vários seminários e fez investigação entre 1974 e 1975.

Surpresa na Wab Summit

Em novembro do ano passado, Stephen Hawking foi um convidado surpresa na Web Summit e, por videoconferência, falou de inteligência artificial, os seus desafios, os riscos que acarreta mas também as oportunidades que contém.

“Não podemos prever o que vamos produzir na área da inteligência artificial, mas poderemos resolver alguns dos problemas criados pela industrialização”, afirmou.

Hawking não tinha dúvidas que este tipo de tecnologia fará com que “todos os aspetos das nossas vidas sejam transformados”. Mas alertou: “não sabemos simplesmente se seremos ajudados ou ignorados pela inteligência artificial”.

“Há o potencial de este ser o principal risco para a humanidade, como as armas automáticas. Também pode criar disrupção na economia”, disse. No entanto – porque “somos os cientistas” – “temos de desenvolver a ideia. É preciso maximizar o sucesso da inteligência artificial na sociedade”.

Nos últimos anos, o físico alertou várias vezes para a necessidade de proteger o planeta. “Acredito piamente que devemos começar a procurar possíveis alternativas para se viver. Estamos a ficar sem espaço no planeta Terra. Precisamos de acabar com as limitações tecnológicas que nos impeçam de viver num outro lugar no Universo”, disse em maio do ano passado, defendendo que só temos mais um século para viver na Terra.

Fonte: The Guardian

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