Como se frauda um concurso

Resolvi escrever este artigo para orientar organizadores de concursos sobre as fraudes nas provas. Em 40 anos de magistério, testemunhei alguns atos ilícitos. Aqui não vou abordar a fraude por meio de equipamentos eletrônicos, pois o Amazonas não tem qualquer condição técnica para impedir o uso de aparelhos.

Em 1991, no vestibular da UTAM, hoje UEA, juntamente com alguns companheiros denunciei o vazamento das provas do vestibular que iria ser aplicado quatro dias depois. A diretora de instituição chorou decepcionada  e anunciou o cancelamento das provas.

No caso da UTAM, o vazamento aconteceu na própria gráfica. Entretanto, outras formas são utilizadas com frequência. A mais primária é a violação do lacre do pacote de provas. Um modelo é retirado e entregue para um professor desonesto que resolva as questões em tempo recorde. A prova é reintroduzida no pacote e o selo colado. Isso acontece no dia anterior à aplicação da prova, durante o transporte dos pacotes.

No final da década passada fui convocado pelo CETAM para explicar como as provas de um concurso vazaram. Expliquei a situação e afirmei que a prova tinha vazado no interior do Estado. Estavam presentes o diretor da instituição e um oficial da PM. Acertei em cheio.

Em 1983, fui convidado por dois professores da UFAM para ir até a reitoria que, à época, ficava localizada na esquina da 24 de maio com a Getúlio Vargas, para explicar como as provas poderiam vazar. Mostrei todo o esquema. À partir daí, apenas um professor passou a ter acesso ao banco de questões e o pessoal da gráfica ficava de quarentena durante a confecção e o término do último dia de prova.

Outras fraudes

Uma forma difícil de ser detectada consiste na utilização de uma identidade falsa com o nome do candidato, mas com a foto de uma pessoa que tenha habilidade para resolver as questões. Este processo aconteceu no início da década passada na UFAM, quando um candidato ao curso de Medicina foi substituído na prova de Redação. Quando o fraudador estava no 4º período, o caso foi descoberto e o aluno expulso da instituição. O candidato fraudador errou porque foi visto em lugares públicos de Manaus no horário que deveria estar fazendo a prova.

Uma forma de burlar a segurança e difícil de ser detectada é incluir o nome do candidato na lista de aprovado sem que ele tenha obtido nota para a classificação. O modelo de fraude exige uma rede de pessoas dispostas a se corromper, inclusive quem digita o resultado final.

Para manter a segurança de um concurso é fundamental que as provas não sejam aplicadas em escolas cujas janelas tenham acesso às ruas. Qualquer comunicação com o meio externo tem que ser vedado.

Outro fator para aumentar a segurança é reduzir ao máximo o número de pessoas que transportam os pacotes para as escolas. Se apenas uma pessoa transportar, qualquer violação é facilmente identificada.

No dia anterior à aplicação da prova da SEDUC-AM visitei externamente várias escolas e identifiquei problemas estruturais. Tive certeza que ocorreriam irregularidades. Tive esse trabalho porque duas pessoas da minha família participariam do concurso e minha veia jornalística me impeliu a estudar o caso.

As últimas notícias dão conta que várias pessoas fizeram as provas por outras. O sistema aplicado pelo Instituto Acesso é primário, infantil e desprovido de qualquer segurança. Tudo indica que o concurso foi pensado por pessoas inexperientes. O processo seletivo deveria ser todo cancelado.

Mesmo com a reaplicação das provas, estimo que 10% dos candidatos vão tentar métodos fraudulentos. As irregularidades podem se repetir se a Polícia Civil não for convocada para se infiltrar nas salas. Ficarei atento aos nomes dos aprovados. Tenho em mãos nomes de candidatos competentes que têm condições de aprovação, pois devem conseguir as maiores notas. Se forem superados por pessoas que têm dificuldade para desenvolver uma ideia, estará caracterizada a fraude.

*Rosalvo Reis é professor e jornalista