Sedusa e o fator má-drasta

Desde sempre, a figura da madrasta é representada de uma maneira vilanesca nas grandes narrativas populares, desde os contos de fada.

Seja por representar a substituição de uma insubstituível figura materna legítima e idealizada – pela perspectiva do órfão (negatividade subjetiva), – seja por sua presença realmente significar uma afinidade não verdadeira e sim oportunista, como justificativa para se aproveitar das ofertas de um lar incompleto e vulnerável (negatividade real), a figura da madrasta é frequentemente tratada de maneira negativa, para servir como conflito familiar para o amadurecimento da protagonista órfã que é o herói ou a heroína em uma narrativa.

E não há nada de cartunesco nem fantasioso na segunda abordagem; pelo contrário, o arquétipo de sombra (antagonista) em torno da figura da madrasta é tão existente na vida real quanto a primeira abordagem. Um certo programa do Discovery ID que o diga.

Se nos clássicos contos de fada, a madrasta vilã virou uma marca, mesmo em narrativas populares posteriores e/ou modernas, assim como há pais adotivos amorosos (os Kent de Superman; os Lars, do Luke Skywalker de “Star Wars”), há também muitos outros exemplos de figuras adotivas cruéis (os Thenardier, da Cosette de “Os Miseráveis”; as tias de James, de “James e o Pêssego Gigante; “os Dursley de Harry Potter; o Conde Olaf, dos Baudelaire de “Desventuras em Série”, etc).

Era uma Vez… na Cidade de Townsville…

Em um determinado episódio de “As Meninas Superpoderosas”, chamado “As Aparências Enganam”, conhecemos uma personagem que está no hall dos principais vilões das pequenas super-heroínas: Sedusa.

Com uma aparência quase angelical, a senhorita Sônia BoaDama chama a atenção do nosso querido Professor Utônio, que fica literalmente sem palavras ao vê-la.

Após um primeiro encontro (que rápido!), ela passa a ser a madrasta das meninas. Porém, ela começa logo cedo a demonstrar um comportamento rígido e deselegante. Agora que ela conseguiu o que queria – ser incorporada a um lar e uma família – ela pode, enfim, “soltar suas garras” (ainda não literalmente).

Enquanto o Professor e as meninas dormem, a senhorita BoaDama converte-se em Sedusa, saindo de casa para praticar roubos. Tirando o disfarce, ela pode usar suas garras (agora, literamente). Depois, retorna para casa, voltando a ser a senhora do lar.

É claro que, posteriormente, as Meninas acabam descobrindo quem ela realmente é, e, ao final do episódio, o Professor descobre que foi enganado, e entrega-a à Polícia de Townsville.

Até mesmo em Townsville houve espaço para explorar a figura antagônica da madastra, em meio a tantos vilões excêntricos, mutantes, chefes de quadrilha e sociopatas.

Bonitinha mas ordinária

O interessante de rever esse episódio depois de adulto é perceber a genial alegoria que ele faz de um problema familiar comum em vários núcleos sociais: a obsessão materialista de madrastas cruéis.

Se pararmos para pensar, o episódio pode carregar uma conotação subliminar de censura a uma decisão matrimonial precoce por parte do Professor, ou mesmo a eficácia de um ardil sedutor quase mágico, por parte de Sedu… digo, Senhorita BoaDama, ainda.

E que feitiço melhor do que a sedução feminina, não? Dalila, na Bíblia; as sereias, na mitologia greco-romana, e a mãe de Grendel, de “Beowulf” da literatura nórdica antiga, que o digam. A femme fatale é uma outra importante figura mítica muito presente nas narrativas lendárias.

O interesse de BoaDama no Professor não passa de um plano para que ela possa manter as Meninas em casa, e, assim, possa sair para roubar “em paz”. Fingindo ser uma tutora cautelosa e super protetora, ela solicita uma série de privações às Meninas. E é hilário que uma das coisas as quais ela proíba as Meninas de fazerem – além de dormir tarde – seja, justamente, combater o crime.

O uso desse absurdo cômico – o fato de se fazer uma analogia do combate ao crime como uma brincadeira ou uma atividade de lazer para as Meninas, digna de se proibir; além do fato da madrasta tratar a proteção à cidade como algo banal – abordagem que viria a ser usada anos depois em uma determinada cena de “Os Incríveis”, entre Gelado e sua esposa, ali era apenas uma gag numa cena aleatória; já nesse episódio das Meninas, é o tipo de conflito central da narrativa, pertinente para estabelecer a personalidade de BoaDama: uma mulher falsa, que precisa ser uma esposa e tutora autoritária dentro de casa para ser uma ladra fora dela. Uma alegoria da madrasta que se relaciona com um homem não pelo amor, mas pelo seu dinheiro.

A diferença de Sedusa para as madrastas da vida real é que ela sai de casa para roubar a prefeitura. Já na vida real, o que acontece, geralmente, é que as madrastas justamente exploram o patrimônio da própria família, retendo para si os bens materiais que seria de direito legítimo dos filhos.

Ao contrário da representação do desenho – em que a obsessão materialista da madrasta é passível de criminalização, pois Sedusa atua como uma típica ladra de rua – na perspectiva realista, esse roubo dificilmente conseguiria ser reconhecido pela legislação como tal, pois a acusação recairia como uma interpretação subjetiva por parte da vítima. Como um(a) enteado(a) poderia provar por vias de fato que sua madrasta é uma ladra, se tudo o que ela faz parte do endosso de um esposo extremamente passivo e inseguro, e mesmo seus enganos não são passíveis de verificação?

Dessa forma, o tom alegórico da obra faz a justiça da causa. E a falsidade de Sedusa se evidencia ainda mais pelos trajes e visual excêntrico que ela adota enquanto pratica seus crimes – uma maneira de representar o mal de maneira bem gráfica para os espectadores mais mirins. Parecendo uma personagem saída de Gotham City, Sedusa é quase uma mistura de Mulher-Gato com Hera Venenosa.

O que é uma vilã sem sua fantasia?

O vermelho do seu figurino que mais parece uma lingerie evoca o perigo da sedução e o crime. Interessante ela tirar o traje de boa moça que usa dentro de casa para revelar sua lingerie ao sair para praticar o roubo, quando o contrário é o que faz sentido na vida real. Usar a lingerie em locais públicos é mais uma autoexpressão de vilania do que de uma necessidade, já que é justamente o aparente aspecto recatado que ela utiliza como sedução, e não propriamente suas curvas.

O cabelo branco e curto revela-se ser uma peruca, que dá lugar a um cabelo preto, comprido e de mechas grossas com extremidades pontiagudas, pela silhueta bem delimitada, que constitui praticamente uma entidade viva, capaz de segurar objetos. A aura recatada e pura dá lugar à sua essência sombria e agressiva.

O cabelo vivo, além de ser uma clara referência à Medusa da mitologia grega, cujos cachos consistiam de pequenas cobras, explora de maneira animada o atributo físico não erótico mas sensual mais marcante da figura feminina: o cabelo. E se a figura mitológica convertia os humanos que olhassem para ela em pedra, a vilã mais perigosa das Meninas Superpoderosas deixou o Professor Utônio literalmente imóvel de tanto encantamento, e também figuradamente, pela passividade deste em relação às suas decisões.

O Porquê da Vilã

Dessa forma, esse episódio tão memorável da série fornece ao arquétipo de sombra frequente em madrastas mais uma representação, dentro de uma história infanto-juvenil de super-herói, muito marcante para a infância de quem cresceu com a série.

Pelo fato de as Meninas sequer possuírem uma mãe – já que foram concebidas de um experimento do Professor Utônio – os roteiristas encontraram um espaço pertinente para criação de uma história que desse às Meninas o papel social e narrativo equivalente ao dos heróis órfãos, e ao Professor o papel de homem solteiro, que dedicou a vida mais à ciência do que às relações interpessoais.

Infelizmente, muitos pais viúvos por aí sofrem desse estado preocupante de vulnerabilidade emocional que os tornam presas fáceis de criminosas sofisticadas, que valem-se não de máscaras, armas ou carros roubados, mas de sua simples habilidade de sedução e de aparente expressão de inocência, para destruir lares.

Essa alegoria, explorada de uma maneira genialmente leve, para uma produção infanto-juvenil, encontraria grande espaço para ser trabalhada de maneira mais adulta e visceral em um possível filme de suspense, terror e/ou fantasia que explorasse de maneira analogamente exagerada a figura da madrasta má, assim como o filme “Corra!” trabalhou a questão do racismo, por exemplo.

Essa é apenas uma dentre muitas leves sátiras sociais que esta incrível série apresentou, com a qual cativou nossas sensações na infância e pode açucarar nossa percepção enquanto adultos…

E nesse caso, um açúcar acompanhado de tempero e tudo o que há de bom… ah, além de uma alta dose do Elemento X, é claro…

OBS: O episódio pode ser encontrado no YouTube, nas versões original e dublada.

Fábio Reis é graduado em Design Industrial pela Ufam

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