Saneamento Básico – O Filme (Análise)

O que aconteceria se uma família que não entende nada de cinema, resolvesse fazer cinema? É sobre essa premissa que se apoia o hilário filme dirigido por Jorge Furtado (Caramuru, O Homem que Copiava, Lisbela e o Prisioneiro). Lançado em 2007, o longa acompanha a realização de um “filme” que só é feito para conseguir captar recursos para a construção de um canal de tratamento de esgoto para o grande fosso que existe na cidade onde vivem, na Serra Gaúcha. E o filme que decidem realizar será justamente sobre o fosso. Mais precisamente, um filme de ficção do gênero terror, chamado “O Monstro do Fosso”. Isso assim que descobrirem o que significa um filme de ficção.

Estrelado brilhantemente por Fernanda Torres, Wagner Moura, Camila Pitanga, Bruno Garcia, Lázaro Ramos, Tonico Pereira e Paulo José, que conseguem conceber personagens carismáticos, apesar de ignorantes, o roteiro se aproveita da alienação dos personagens para garantir momentos do mais singular e crítico humor.

Um filme com temática parecida, porém sem a mesma ambição crítica, feita nos EUA, é “Rebobine, Por Favor”, de Michel Gondry. Porém, “Saneamento Básico” se destaca por refletir uma triste realidade social e política do Brasil.

A insegurança dos personagens, sobretudo a relação de cumplicidade entre o casal protagonista, bem como a impaciência da personagem de Camila Pitanga, que esbanja beleza, rendem momentos de muito humor.

A obra, além de denunciar a mudança arbitrária do destino das verbas públicas no nosso país – sempre com muito humor – ao final da projeção, também serve como uma abordagem levemente didática para os mais leigos, sobre o processo de produção de um filme, e toda a logística e recursos envolvidos. De fato, apesar de os diálogos do longa serem compreensíveis por todo público, com certeza, alguns irão alcançar profissionais da área de roteiro de uma maneira ainda mais hilária.

Além da proeza narrativa, a montagem do longa encontra momentos de grande criatividade, quando, por exemplo:

– A personagem de Fernanda Torres (que merece aplausos em pé por sua interpretação) está tentando escrever uma cena com o uso do que tecnicamente se chama “Ponto de Vista” (quando o plano da câmera assume a visão subjetiva de um personagem), e enquanto o personagem de Wagner Moura, seu marido, tenta entender o que ela está querendo dizer, a própria câmera do filme em questão assume a posição de Ponto de Vista enquanto ela tenta explicá-lo o Ponto de Vista, ainda que nem conheça esse termo;

– Vemos uma série de cenas gravadas por eles, seguidos de Fernanda Torres olhando para a câmera, querendo saber como ela desliga. Em seguida, há uma interrupção de gravação do que estamos vendo, para revelar que tudo aquilo está sendo assistido de maneira incrédula pelos personagens, que, depois de um corte, estão sentados num sofá, enquanto ainda ouvimos o som de “chuva” da interferência;

– Vemos uma paisagem nos arredores do fosso. De repente, uma lua surge vindo diretamente do canto direito do plano. Após um corte, entendemos que é o personagem de Lázaro Ramos trabalhando na ilha de edição do vídeo.

Com certeza, um dos filmes mais engraçados já produzidos em nosso cinema, e (por que não?) uma obra-prima da comédia nacional, com personagens que nos cativam ao mesmo tempo que nos fazem sentir vergonha alheia deles. “O Monstro do Fosso” pode ser uma gafe em forma de filme, mas “Saneamento Básico – O Filme”, sem dúvida é uma proeza do nosso cinema.

Fábio Reis é graduado em Design Industrial

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