Pocahontas (Disney) e o Dilema Folclore x História

Em 1993, a Disney lançava “Pocahontas”, um dos grandes clássicos da infância de qualquer pessoa que tenha nascido na década de 1990.

Assim como a maioria das adaptações da Disney não chegam nem perto de serem totalmente fiéis às obras literárias nas quais se inspiram – e de cuja trama se apropriam de inspiração estética e dos nomes dos personagens – com o mito de Pocahontas não poderia ser diferente.

A jovem indígena da tribo Powhatan, habitante de uma região da Virginia, que teria evitado a morte do colono John Smith de uma execução de seu pai em meados do século 17, é protagonista de um folclore aparentemente belo em torno de sua pessoa. Mas a história real pode não ter nada haver com isso. Muitos acreditam que o chamado “incidente Pocahontas” nunca ocorreu.

Segundo relatos do Chefe Roy Cavalo Louco, descendente Powhatan, à época do lançamento do filme, Pocahontas e John Smith nunca se apaixonaram. Ao que tudo indica, ela era uma dócil indígena, que levava comida para os colonos, cujos mantimentos eram escassos, durante sua estadia na região. John era descrito por seus companheiros como um homem aproveitador e ambicioso. Ao mesmo tempo, há relatos de que ele teria sido uma espécie de tutor para Pocahontas, ensinando-lhe os costumes e o idioma inglês (Ou seja, nada de paixão). Mesmo em torno de relatos do suposto incidente, convenciona-se que Pocahontas era apenas uma criança de 11 anos quando do ocorrido, e não uma mulher feita, como no clássico animado.

A história real de Pocahontas e de seu povo teria sido, na verdade, muito mais trágica. Aos 17 anos, teria sido capturada por um colono como moeda de troca por alguns prisioneiros mantidos por seu pai. Posteriormente, o plantador de tabaco John Rolfe teria se interessado pela jovem, reivindicando sua libertação em troca de um matrimônio com ele. Assim, Pocahontas teria ido morar com ele na Inglaterra, passando a viver como uma exímia europeia, adotando o estilo de vida ocidental e o cristianismo por fé, sendo rebatizada como Rebeca. Rolfe a teria utilizado como garota-propaganda para uma empreitada publicitária a favor da colonização de Virginia.

Numa viagem de mudança de Rolfe e de sua família à Virgínia, Pocahontas teria morrido a bordo, acometida de uma grave doença, sobre a qual não se tem consenso. A geração de Pocahontas teria sido dizimada pelos colonos ingleses pouco tempo após sua morte, depois da qual também é que haveria surgido por parte de Smith a lenda de seu salvamento pela mesma.

A verdadeira história, portanto, é bem menos redentora do que a produção disneyana, que, a despeito de não se valer muito da fidelidade histórica, ainda assim, conseguiu entregar, pelo menos, uma obra que ensina valores importantes para as crianças. O filme é uma ode à preservação da natureza e à compreensão entre os povos. Compreensão essa, que, infelizmente, não ocorreu.

Retratos de Pocahontas, do século XVIII

Imagem do filme

É fácil entender a necessidade romantização por parte da Disney e a recusa em aceitar a consultoria na Nação Powhatan na concepção do roteiro da trama, assim também como é compreensível o fato dos mesmos terem se sentido absolutamente ofendidos com a obra.

Acredito que se a obra disneyana não tivesse se apropriado dos nomes das figuras históricas em seus personagens, não haveria a controversa discussão a respeito da legitimidade histórica da trama, cujo roteiro acabaria sendo considerado praticamente um roteiro original, não fosse a questão do incidente da quase execução de John Smith, que parece ser uma narrativa já popular do questionável folclore euro-americano.

De qualquer forma, os roteiristas se apropriaram bem do apelido da indígena – que, na verdade, se chamava Matoaka – “Pocahontas” (que significa “menina mimada” ou “metida”) para desenvolver na personagem um espírito livre, forte e corajoso, além de independente. Daí a seu encontro com um romantizado John Smith e sua boa vontade para com ele, testificaria plenamente sua alcunha conseguida pelo apelido.

A presença da mitologia animista indígena também eleva a obra a um patamar romântico bastante emocionante. A presença da personagem Vovó Willow e a forma como a natureza parece uma entidade viva é de brilhar os olhos e a percepção. A sequência musical de “Cores do Vento” é uma das cenas mais belas e idealizadas que já vi. A cena mostra a natureza em todas as suas formas e cores, e a relação de fraternidade de Pocahontas para com a natureza é notória, ao passo que o homem branco parece fazer da mesma cobaia para seus empreendimentos puramente capitalistas.

O próprio homem branco ocidental parece não reconhecer a Onipresença Divina em todo elemento natural que nos rodeia, e sim mera matéria a ser explorada. Não é à toa que o design do Governador Ratcliffe é de um corpo robusto e cabeça pequena – usa mais a força (ou a ordem dela, já que só delega terceiros) do que o intelecto, com um traje roxo – que pode simbolizar o desejo de destruição.

Com backgrounds suntuosos, e um trabalho de direção de arte invejável, apesar de não ser um dos filmes mais consagrados do estúdio, é uma obra que merece ser apreciada em seu visual e em sua mensagem. Há espaço também para a abordagem crua e realista dos fatos – mais baseada na análise dos registros do que no folclore – mais do que necessária, como parece ter sido a intenção de Terrence Malick em “O Novo Mundo”, obra que ainda não tive a oportunidade de assistir. A imprecisão histórica da obra disneyana deve ser devidamente problematizada e criticada, mas nada nos impede de enxergar a intenção moral a querer ser transmitida pelo estúdio, e nada que não possa talvez ser arrumada em um possível futuro remake em live action da trama – nessa era de remakes da Disney – em uma tentativa de conciliar a historicidade com o interessante universo dramático e mitológico estabelecido na clássica obra animada.

Eu mesmo, enquanto escrevo esse artigo, penso em várias formas interessantes de fazê-lo. Seria pretensão demais almejar tão elevado projeto nesse coração apaixonadamente cinéfilo deste que vos fala? Bom, não custa sonhar. Sonhar faz bem. A Disney nos ensinou isso mais do que qualquer outro estúdio. E se a obra dramatizada no longa animado não condiz precisamente com os fatos, que sua mensagem seja a bússola moral dos sonhadores para um mundo cada vez mais civilizado.

Informações sobre a vida de Pocahontas:
https://tudorbrasil.com/2015/12/20/a-verdadeira-e-tragica-historia-de-pocahontas/.

Pôster do filme

Fábio Reis é graduado em Design Industrial pela UFAM