Perdidos no Espaço (Netflix)

Uma das experiências visuais mais marcantes desse ano para este que vos fala, em termos de séries, depois de “Desventuras em Série”, com certeza, é “Perdidos no Espaço”. A série é um remake de uma clássica série de ficção científica familiar dos anos 1960, que, infelizmente, não tive a oportunidade de acompanhar. A obra contava as aventuras da família Robinson, que ficavam perdidos em um planeta desconhecido após um acidente com a nave Jupiter 2, durante um processo de colonização de outros planetas.

O pai – John Robinson, a mãe – Maureen Robinson, a filha mais velha – Judy Robinson, a filha do meio – Penny Robinson, e o caçula Will Robinson formam a família, que sempre andava acompanhada ainda do Major Don West e do ambíguo Dr. Smith, além, é claro, de um robô que vira amigo e aliado de Will.

A franquia, criada pelo produtor Irwin Allen, também rendeu uma adaptação para o cinema, em 1998 (esse sim acompanhei e revi várias vezes durante a pré-adolescência, no canal TNT), estrelando William Hurt, no papel do patriarca John Robinson; nosso querido Matt LeBlanc (o Joey de “Friends”) como Don West; e o sempre genial Gary Oldman como o hilário Dr. Smith (primeira aparição do grande ator que lembro de ter visto).

De cara, o ponto alto da série é a química absurda entre os atores. A família Robinson é uma típica família, com problemas triviais de qualquer família, porém com um grande senso de cooperação, fomentado pelas constantes empreitadas de preservação de sua sobrevivência, no atual estado de suas vidas fora da Terra.

Maurren é a comandante da nave, e a responsável pelo alistamento da família no programa de colonização de outros planetas. Divorciada de John, um ex-fuzileiro naval cuja profissão o fez ter que ser um pai e marido extremamente ausente, vê na viagem uma oportunidade também de reaver com mais profundidade seus laços afetivos com seus filhos.

Judy, a filha mais velha, já é médica, apesar da pouca idade, e possui uma maturidade curiosa. Penny é a mais engraçada da família, sempre com observações irônicas sobre as situações, sendo também muito doce (nem preciso dizer que é minha favorita da família, e quase uma crush). Will é o caçula, muito inteligente mas também ingênuo. Pode-se dizer que é o protagonista, em função do fato de que, é através de sua relação com um robô que resgatou de um incêndio, que a trama se desenvolverá.

O Major Don West, que acaba se perdendo no mesmo planeta, escapando do acidente com a Jupiter 2, acaba encontrando a família em certo momento da trama. Seu ceticismo, senso de autossuficiência e aspecto cômico são suas grandes marcas. Claro que sua jornada é marcada pelo engano que sofreu de ninguém mais, ninguém menos que a personagem mais incrível e deliciosamente ambígua da série… a Dra. Smith – uma performance absolutamente brilhante da atriz Parkey Posey, que até então, eu só lembrava como sendo a noiva indecisa do filme “Tudo para Ficar com Ele”. Aqui, ela compõe uma personagem tão covarde quanto cínica, manipulando tudo e todos a suas ambições egoístas. E não, você não leu errado. DRA. SMITH mesmo. Nesse remake, é uma mulher quem interpreta o personagem que, na série original, era um homem. Inclusive, sua identidade e uniforme são roubadas do “verdadeiro Dr. Smith”, o que foi uma sacada genial desse remake. A Dra. Smith é tão calculista e ambígua que nem mesmo é a verdadeira pessoa que porta o nome e o ofício.

Outro ponto de destaque são a fotografia e as paisagens da série. Os efeitos visuais, assim como em outras séries do Netflix, são tão incríveis que parece estarmos vendo um longa-metragem, e não uma série de TV. A iluminação é frequentemente suave e densa, não havendo grandes sombras nas cenas diurnas, que possuem um tom bem esbranquiçado. A paleta de cores mais frequente fica entre o azul e branco dos interiores das naves, bem como dos ambientes gélidos, até o laranja e afins, que podem ser vistos nos figurinos de astronauta e luzes artificiais.

O CGI do robô é muito bem concebido, quase nos fazendo achar que trata-se de um boneco mecatrônico que está a interagir com Will. Em criaturas alienígenas, porém, o CGI fica mais perceptível.

Aliás, o design do protetor metálico de Will chega a “dar um banho” no visual do robô da série clássica. Se antes tínhamos uma “caixa de metal com pernas de Michelin e uma lâmpada na cabeça”, a versão dessa série é obviamente mais bem trabalhada, com várias bifurcações e detalhes ao longo do corpo do robô humanóide, e com uma cabeça marcada por uma espécie de vidro que contém partículas luminosas cuja movimentação e coloração expressam os sentimentos do robô.

A montagem intercala momentos presentes dos personagens com seus passados na Terra, com a iluminação tendo um papel importante para entendermos a passagem do tempo. Geralmente, as cenas na Terra possuem uma iluminação mais quente, seja proveniente de luminárias interiores da casa dos Robinson, seja a luz externa que entra pelas janelas da casa.

O roteiro dos episódios da – até agora – única temporada, desenvolvem bem os personagens e seus conflitos, cada vez mais mostrando o robô como simplesmente um recipiente do senso de proteção e destruição do próprio ser humano, sendo ele apenas o resultado de um processo de programação.

A trilha de John Williams é a cereja do bolo para tornar épica a experiência de assistir a “Perdidos no Espaço”, que é uma ótima pedida para se ver em família na sala. Mais um ponto para Netflix, que mostra que veio para revolucionar, não só criando séries mas reformulando séries clássicas com uma nova roupagem, fornecendo um legado cultural ímpar.

Fábio Reis é graduado em Design Industrial pela UFAM