Paulo, Apóstolo de Cristo – Resenha

A mais nova produção da Affirm Films – estúdio pertencente à Sony, voltado a produções religiosas cristãs – surpreende positivamente, entregando um enredo enxuto sobre a vida da mais importante figura do Cristianismo depois de Cristo: o Apóstolo Paulo.

Pelas imagens promocionais do longa, onde o ator que interpreta Paulo, James Faulkner, aparece sempre velho, já era de se imaginar que o longa não pretendia ser exatamente uma biografia completa da vida do apóstolo. A história foca nas últimas fases de seu ministério, quando é mandado preso por Nero.

Como provavelmente o estúdio não possuía os recursos e o orçamento necessário para se fazer um grande épico sobre a vida inteira de Paulo, o roteiro se mostrou sagaz em abordar os últimos momentos da relação deste com Lucas, o evangelista médico, que conviveu intensamente com ele, e quem teria escrito a maior parte do Livro de Atos dos Apóstolos, no Novo Testamento, além do Evangelho que leva seu nome.

Vemos Lucas interagindo com Paulo, a partir de uma visita que faz a ele na prisão, e a partir da qual começa a discutir com ele sobre uma nova carta que deve ser endereçada à mais nova comunidade de convertidos à fé cristã que se formou, e que se encontra numa situação delicada em Roma, vivendo numa assentamento secreto enquanto ajudam indigentes, pessoas carentes e perseguidos pela crueldade do Império.

Inicialmente relutante, depois de já ter escrito tantas epístolas, Paulo aceita iniciar conselhos que darão a Lucas o guia necessário para que possa escrever sua nova carta. A química entre os atores James Faulkner e o conhecido Jim Caviezel (que interpretou ninguém menos que Nosso Senhor Jesus Cristo em A Paixão de Cristo) é notória, e a familiaridade que os dois transmitem um ao outro é outro ponto forte da trama, já que estamos falando de um roteiro que já começa com o apóstolo idoso.

Priscila e Áquila – figuras muito importantes mencionadas por Paulo em uma de suas epístolas – são representados com maestria, e sentimos de maneira bem crível a angústia e incerteza da situação e dos dilemas que passam, suportadas pela certeza da natureza de sua fé.

O roteiro coloca os personagens em situações onde suas condutas são desafiadas, onde a certeza de sua fé dá margem a dúvidas de caráter prático, mediante as constantes perseguições e decadência da cidade. Priscila, por exemplo, está certa de que quer ficar em Roma, para cuidar de quantas vítimas for necessário, enquanto Áquila pensa em sair de lá para dar mais dignidade aos que já foram ajudados.

Um dos jovens, não suportando mais ver a prisão e a execução de seus colegas, toma uma atitude violenta e cria um grupo sectário que planeja invadir um alojamento e libertar os cativos das prisões, matando guardas. É aí que a conduta violenta em prol da justiça se choca com a completa passividade da Graça vivida por Cristo e encarnada em Paulo, que repreende seus colegas, numa cena surpreendente.

A intervenção do ofício de Lucas como médico marca o clímax da trama, quando se vê tendo que auxiliar o general romano Mauritius, que vê a filha sucumbindo por uma doença incurável. É aí que o amor cristão decidirá o destino de um dos personagens centrais da trama.

Ao longo da trama, vemos Paulo pronunciando seus belos provérbios, muitos dos quais alguns dos versículos mais conhecidos das Sagradas Escrituras, nunca de maneira artificial, mas sempre bem empregada nos próprios diálogos entre ele e Lucas. Alías, um dos pontos marcantes da narrativa são os diálogos, muito bem compostos. Em alguns momentos, a beleza dos diálogos me fez lembrar de grades clássicos bíblicos de Hollywood como “O Manto Sagrado”, de 1953; e chega, pelo menos, perto da sofisticação dos diálogos dos épicos de Cecil B. DeMille.

Outro aspecto importante do filme é sua belíssima fotografia. Vemos muitas vezes Paulo banhado a apenas alguns contornos luminosos, em meio à escuridão de sua cela. A beleza plástica da fotografia marca sobretudo nas cenas que pretendem ser flashbacks das passagens mais importantes da vida do apóstolo. A nitidez com que o sangue de Estevão é derramado em câmera-lenta é impactante, bem como os olhares profundos dos mártires em direção ao espectador, banhados a uma iluminação azulada, emulando a realidade paradisíaca em que se encontram depois da morte.

A trilha sonora é mais do que competente, tendo uma singeleza dramática que emociona. É intensa o suficiente para se fazer reconhecível mas sutil o bastante para nunca ter uma importância acima do que é mostrado visualmente.

Confesso que, ao assistir ao trailer e ver o cartaz, achei que fosse ser um filme minimamente competente, mas só. Felizmente, “Paulo, Apóstolo de Cristo” se mostrou muito melhor do que imaginei, e é, sem dúvida, o melhor filme que já vi do referido estúdio apadrinhado pela Sony Pictures. Com um final arrebatador, o público tem tudo para sair do cinema mais emocionado e reflexivo.

Fábio Reis é graduado em Design Industrial pela UFAM

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