O Rei Leão (2019): um jeito Hakuna Matata de se fazer um filme

Animais falantes são presenças comuns a narrativas infantis das mais variadas mídias, sobretudo, no cinema.

Sendo a voz uma característica humana, a intenção de se dar voz a criaturas que não falam na vida real é proporcionar dramaturgia a essas figuras. Dependendo do formato em que essa dramaturgia é trabalhada, podemos ter variados níveis de relação afetiva com esses personagens. Como a voz é uma característica humana, é mais usual que, para os animais poderem expressar os sentimentos contidos em suas falas de maneira satisfatória, eles sejam antropomorfizados, o que faz com que a animação cartunesca funcione muito melhor do que uma representação realista deles.

E é nisso que esse mais novo remake “live-action” da Disney parece encontrar seu problema. Ele não sabe que tipo de abordagem quer abraçar. Sem propósito, ele fica dividido, tentando conciliar uma abordagem visual fotorrealista com o tom fabulesco de tragédia shakespeariana da animação original, e o resultado é um filme que pode ficar muito, mas muito estranho para quem tem a animação original fresca na memória. Como esperar que animais ultrarrealistas transmitam com eficiência emoções de uma narrativa inspirada em Hamlet, de Shakespeare? Abdicar da antropomorfização dos animais prejudica a expressividade necessária para contar uma história que, por si só, se utilizava de animais para expressar conflitos essencialmente humanos. (Não existe monarquia no reino animal, pra início de conversa rsrs).

Um dos sintomas do tom fabulesco da obra era obviamente o gênero musical. É justamente por causa das possibilidades de estilização e liberdade poética que a animação tradicional proporcionava, que as sequências musicais funcionavam da maneira que funcionavam, no filme original. Ao tentar transpor as músicas compostas por Elton John e Tim Rice – feitas para servir àquele tipo de animação – adaptadas para o formato CGI ultrarrealista, o resultado são sequências pálidas de musicalidade. Um documentário do Animal Planet tentando ser um musical da Broadway não é exatamente uma experiência interessante.

Precisava?

Portanto, talvez tenhamos aqui o remake mais cinicamente “caça-níquel” da Disney. Desde o anúncio de que “O Rei Leão” ganharia um remake “live-action”, isso gerou maus pressentimentos em mim. Infelizmente, acabaram se revelando bem fundamentados. De todos os remakes, esse era o que menos se justificava.

O diretor Jon Favreau parece ter cedido à vaidade comercial da Disney e aceitou ser parte de um projeto que não lhe deu espaço para explorar de maneira digna as potencialidades da história de Simba. Em seu bem-sucedido “Mogli – O Menino Lobo”, o tom fotorrealista da obra foi bem explorado pela abdicação quase total do teor musical do filme original, além de dar uma leve antropomorfização nos animais, mesmo sendo bem realistas (foi utilizada a técnica de motion capture). Sendo assim, entregou um filme que teve sua identidade própria e até alterações significativas no enredo, que levam a uma conclusão bem diferente da animação original.

Já neste “O Rei Leão”, temos um “CTRL + C, CTRL + V” de informações, que apelam exclusivamente à nostalgia do público para funcionar.

Os Outros Remakes

Mesmo “A Bela e a Fera” e “Aladdin”, por mais apegados que fossem ao material original, encontraram seus próprios caminhos de contar aquela mesma história.

Mais justificado pela melhor representatividade oriental da trama, o remake de Aladdin encontrou soluções interessantes para desenvolver a dinâmica entre os personagens – sobretudo a relação entre Aladdin e o Gênio -, proporcionando cenas que não estavam na animação original, além dos cenários e figurinos estonteantes e de uma adaptação cuidadosa das sequências musicais para o live-action.

O remake de “A Bela e a Fera”, – bem menos justificado -, pelo menos, soube fazer também uma adaptação bastante eficiente das sequências musicais, além de reconceber o visual dos objetos e móveis do castelo de uma maneira muito criativa. A inteligente inserção de pinturas na porcelana como se fossem os olhos do copinho, e a representação de Lumiere como a estátua de um homenzinho, foram soluções incríveis. A falta de movimentos e expressividade pela ausência do cartunesco foram dignamente compensados pela maior profusão de cores e uma coreografia bem trabalhada e dirigida na sequência de “À Vontade/Be Our Guest”.

O mesmo não se pode dizer dos animais de “O Rei Leão”, que não têm humanização para expressar os sentimentos humanos implícitos nas músicas.

E mesmo “O Retorno de Mary Poppins” se apoiando totalmente na mesma estrutura narrativa do original, recriou a maneira de contar a história, com outras ideias para as cenas, se valendo das possibilidades da tecnologia atual para otimizar os números musicais, fornecendo outras soluções cênicas para as ideias do original.

Em “O Rei Leão”, as soluções cênicas encontradas trabalham contra a emoção que as músicas evocam. Sobretudo, “O Que Eu Quero Mais é Ser Rei”, “Se Preparem” e “Hakuna Matata” foram as mais prejudicadas. Toda a magia dessas cenas se perdeu.

Se o filme tivesse ao menos tentado encontrar sua própria identidade, sem querer ser uma sombra da animação original, talvez tivéssemos algo mais digno.

Lembra aí…

Seria preferível terem feito um documentário da DisneyNature sobre a vida dos leões do que tentar recriar uma das histórias mais icônicas da Disney apenas para esbanjar a qualidade na qual a computação gráfica chegou. É um filme visualmente lindo, mas sem que essa perfeição visual estivesse à serviço de uma narrativa particular a ela.

Interessante lembrar que a Disney já tinha tido problemas no passado, com o uso de um super-realismo na computação gráfica não ajudando a trazer uma história cativante. “Dinossauro”, de 2001, tinha sido essa aposta. Com todo seu demérito, este, pelo menos, era um filme que tinha uma premissa original, não sendo uma adaptação de nenhuma história existente, muito menos de um outro filme já existente.

As Vozes

Muito da carga emocional do filme está nas vozes, que, infelizmente, não encontram eco na expressão facial das personagens.

Dentro disso, uma maior problemática é a dublagem nacional, que ficou prejudicada, pois, mais uma vez, insistiram em fazer uso de “star talents” – chamar pessoas famosas para dublar, ao invés de profissionais do ramo – e o resultado ficou bem aquém do que poderia.

Se na animação original, tínhamos a excelência da dublagem nacional em sua convencional e melhor forma – que até chegava a ser mais interessante do que as vozes originais – no caso deste aqui, talvez seja preferível buscar a versão original.

Ícaro Silva como Simba até manda bem, mas sai um pouco da linha ao cantar “Hakuna Matata” tentando dar um ar estiloso demais à sua voz a um leão que não pode expressar isso, por ser realista demais.

Já Iza como Nala chega a ser um tanto sofrível. Ao contrário de Ícaro – que não é dublador profissional, mas, pelo menos, é ator – Iza, por sua vez, que nem atriz é, faz sentir isso com uma interpretação nada verdadeira, que lembra Luciano Huck em “Enrolados”. Mais uma vez, meus maus pressentimentos se mostraram bem fundamentados.

Não é à toa que Iza só funciona cantando “Essa Noite o Amor Chegou”, por ser uma ótima cantora, e porque, essa música, em específico, é a única cantada de maneira extradiegética (vozes ao fundo) pelas personagens! E é por isso que aí ela se sai bem! Justamente pois nessa cena ela não está exatamente precisando dublar!!!

O ideal era que Nala fosse interpretada por uma dubladora profissional – que, se não soubesse cantar – poderia ser substituída por Iza apenas na voz cantada.

Pequenas Alterações

O que eu acredito terem sido as melhores coisas desse remake foram:

– Alguns diálogos novos de Timão e Pumba, que ficaram super engraçados;

– A sequência musical de “The Lion Sleeps Tonight”, o único momento um pouco mais inspirado do que na animação;

– E a referência a já citada aqui “À Vontade/Be our Guest”, canção de “A Bela e a Fera”, que foi uma escolha muito criativa para substituir a dancinha havaiana do Timão, que ficaria inconcebível em “live-action”.

De resto, me senti vendo uma versão pálida de tudo o que eu já sabia e já tinha visto anteriormente. Sem nenhuma inovação narrativa, apenas apelando para a inovação técnica sem estar à serviço da história, e sim apesar dela, Jon Favreau parece ter esquecido a proeza que conseguira em “Mogli”, e aqui entrega um enlatado que tem muita beleza visual, mas pouca alma.

Uma maneira nada legal de honrar o legado de um dos maiores clássicos da história da Disney, da animação e do cinema.

Resultado de imagem para o rei leão 2019


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *