O Quarto de Jack – Análise

Planos fechados no interior de um quarto abrem a projeção. Um menino de cabelos compridos aparece. Seu imaginário fecundo parece ser limitado pela pequena extensão do cômodo onde vive. Sua doce mãe observa sua curiosidade. Desenhos na parede, objetos curiosos, e, é claro, a TV, são suas únicas distrações.

A TV é sua única conexão com um mundo que não conhece. Mas nenhum diálogo ou narração deixa isso explícito em nenhum momento. O espectador vai desvendando o universo da trama ao mesmo tempo em que o protagonista mirim desvenda o mundo em que vivemos. Esse é o brilhantismo do roteiro de O Quarto de Jack, filme vencedor do Oscar de Melhor Atriz para Brie Larson em 2006.

A fotografia azulada e a iluminação difusa mergulham o espectador na melancolia daquele espaço reduzido. Um homem estranho cujo rosto nunca vemos aparece para levar alguns mantimentos e marcar pela opressão de sua presença.

Os planos registrados pela câmera são guiados por um roteiro subjetivo, que representa a perspectiva do menino em relação ao que vive.

Para não revelar detalhes da trama, para quem, por ventura, ainda não tiver assistido ao filme, basta saber que a fuga deste ambiente é um dos pontos mais emocionantes da trama. A primeira vez que o menino respira o ar puro dos céus, com a câmera focando-o de cima para baixo, enquanto contempla o mundo que nunca havia conhecido, é uma das cenas mais sublimes que já vi na vida.

Nunca subestimando a inteligência do espectador, o roteiro nos leva a um ponto onde o genioso menino fica introspectivo para com as pessoas que acaba de conhecer, e vai progressivamente obtendo empatia pela família da mãe, que lhe acolhe.

A mãe, por sua vez, revisita as tragédias do passado, trancafiando-se nos ressentimentos do seu coração, ainda que liberta do seu cárcere físico. A porta de seu ser precisava ser aberta para novas possibilidades, cuja liberdade já estava na curiosa alma de seu filho.

E é com o mesmo grau de discrição do roteiro do longa, que escrevo este texto, estando a falar de um filme em que quanto menos se souber a respeito antes de assisti-lo, melhor e mais completa será a experiência de apreciá-lo.

Uma obra-prima do cinema moderno, que, a despeito de ser uma obra ficcional, aborda uma situação possível de ocorrer na vida real, e cujos similares vez ou outra vemos em telejornais.

Um filme que emociona e sensibiliza nossa alma, em um mundo cínico, onde metaforicamente pessoas estão cada vez mais presas em seus quartos interiores.

Fábio Reis é formando em Design Industrial

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