O Filme Solo do Han Solo

Uma das apostas mais arriscadas da LucasFilm, nessa fase Disney, foi produzir “Han Solo: uma história Star Wars”, spin-off de origem centrado em um dos personagens mais icônicos da saga. Justamente por isso, algo pelo qual a maioria dos fãs torceram o nariz. Primeiramente, porque é delicado mexer em um personagem tão consagrado; e, em segundo, porque parte do charme da personagem reside no mistério em torno de suas origens.

Haveria uma gama de personagens secundários sobre os quais seria interessante ver uma história de origem. Mestre Yoda, o mercenário Bobba Fett, e até mesmo o arco narrativo de algum dos cavaleiros Jedi seriam ótimos candidatos a filmes solo cuja história não colocariam tanto em risco o cânone da saga.

Han Solo foi uma escolha arriscada, sendo uma das figuras principais da saga. O resultado obviamente seria marcado por uma recomposição do personagem que poderia não agradar aos fãs da saga, e uma narrativa recheada de fan services, além de explicação de certos elementos conhecidos da saga que não precisavam ser explicados.

A obra, apesar de não ser ruim, proporciona uma experiência controversa. Por um lado, deixa os espectadores leigos “boiando” nas referências da saga, não tendo o mesmo impacto para eles como tem para os fãs; e, por outro lado, tem o potencial maior de agradar aos espectadores leigos, por mostrar um arco narrativo interessante de um protagonista bem concebido e interpretado, porém, que chega a desconstruir a figura já imortalizada pela persona de Harrison Ford, o que é problemático para os fãs e para a coerência deste filme com relação à saga ao qual ele pertence.

Como fã da saga, posso dizer que Alden Ehrenreich realizou uma interpretação que emulou vários dos trejeitos de Harrison Ford, o que me remeteu ao personagem em vários momentos, porém, ao mesmo tempo, me senti vendo uma outra personagem, mais simpática e passional, que conclui a trama de maneira pertinente a se tornar o babaca e arrogante que vemos em Uma Nova Esperança, pelas decepções que sofreu, mas que ainda não se tornou assim.

Ainda não é o malandro de Harrison Ford que vemos em tela – o que pode abrir lacunas para uma sequência ou apenas proporcionar um trecho isolado do passado do personagem – o que não faz muito sentido, considerando se tratar de um filme de origem do personagem; portanto, o usual seria mostrar como ele chegou a certo ponto; além do mais, os spin-offs da saga não parecem querer constituir sequências, como em “Rogue One”, por exemplo. E haja cabeça para mais de uma franquia de filmes paralelos dentro de uma mesma saga. Já basta a sequência central de episódios.

Ou seja, se “Han Solo” foi pensado para ser um filme isolado – o que é o mais evidente – ele parece ter falhado em desenvolver o personagem até o ponto de sua personalidade mostrado em Uma Nova Esperança. Isso é problemático, porque pode “manchar” a consistência e o legado do personagem.

Algumas passagens são marcantes, como o encontro de Han com Chewbacca, e ele pilotando uma espécie de speeder com Qi´ra, o interesse amoroso do herói, cujas decisões constituem conflitos interessantes na trama. Cada personagem carrega ambivalências morais surpreendentes, que se revelam no terceiro ato, a melhor parte da obra, que tem um primeiro e segundo ato que chegam a ser monótonos.

Os efeitos especiais e a fotografia são dignas dos maiores aplausos. Talvez “Han Solo” seja o melhor filme da saga em questões técnicas – é tudo de um realismo incrível – a despeito de ser o filme mais fraco da franquia.

A narrativa pouco dinâmica atrapalha um pouco, apesar da boa composição de personagens, e há um tom esquecível em certos acontecimentos. Não há tempo de tela suficiente para que nos relacionemos intimamente com alguns personagens.

O resultado provavelmente foi prejudicado pela conturbada produção, com a troca dos diretores originais – ainda creditados como produtores executivos – os criativos em ascensão Phill Lord e Chris Miller (“Uma Aventura Lego”), substituídos pelo veterano Ron Howard, que dirige a trama muito bem, com ótima composição de planos; porém, a lentidão do desenrolar da trama é o que pode tornar a fita cansativa.

“Han Solo” entrega uma experiência interessante, e é competente na construção do universo de sua trama, além de expandir um pouco a mitologia da saga, porém, dentro de uma narrativa pouco empolgante, que, apesar de ter muito potencial em sua proposta, falha em muito na sua execução.


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

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