O Baú de Mistérios de “Mike, Lu & Og”

“Mike, Lu & Og” foi uma clássica série animada do Cartoon Network. Apesar de ser muito inventiva e singela, foi uma das obras menos populares da era de ouro do canal, no auge da chamada Era Powerhouse, a segunda fase de identidade visual da icônica emissora infanto-juvenil fechada.

Quando pensamos nos tempos áureos do CN, logo nos vêm à mente clássicos como “O Laboratório de Dexter”, “Johnny Bravo”, ”As Meninas Super-Poderosas” e ”Coragem, o Cão Covarde”. Porém, sem dúvida, através de uma observação mais apurada, podemos perceber que, a despeito de seu tom aparentemente simples e inocente, “Mike, Lu & Og” consistiu talvez na produção mais genial entre os originais do canal. E isso não só pela sua criativa trama, como também por um pano de fundo misterioso que pode levar os espectadores adultos mais atentos a perceberem importantes comentários sociais, mensagens ocultas e todo um universo histórico implícito que a série sempre evoca, mas sem se aprofundar muito.

Sobre o que é essa série?

A trama apresenta Mike, uma menina nova-iorquina de 11 anos que participa de um estudo de intercâmbio para uma ilha remota, em que acaba conhecendo um grupo de habitantes nativos. Ao fazer amizade com uma nativa mimada chamada Lu e um menino inventor chamado Og, ela passa a compartilhar com eles ideias e conhecimento relativos ao seu estilo de vida, pertencentes ao mundo pós-moderno, que eles desconhecem. É nesse choque cultural que se apoiam as histórias dos episódios da série.

Se esse enredo já não fosse interessante o bastante, ainda há o comportamento peculiar dos habitantes da ilha. Quando criança, me divertia e me cativava com cada um dos personagens, porém, sem refletir naquilo que eles representam e por que foram concebidos de tal forma. Essas coisas acrescentavam ainda mais brilhantismo à série.

Entendendo as Entrelinhas

Acontece que, tendo assistido à série na infância – obviamente, apenas na versão dublada – o contexto histórico no qual a série se passa fica bastante despercebido, aliado ao fato de que o espectador mirim não tem um senso crítico tão apurado, o que me levou a nunca parar para perceber e questionar algumas coisas, como o fato de os nativos da ilha entenderem o idioma de Mike, por exemplo.

Destaque para o belíssimo trabalho da dublagem nacional, com lendas como Fernanda Barone, Luisa Palomanes e Leonardo Serrano nos papéis, respectivamente, de Mike, Lu e Og; além de grandes nomes como Jorge Vasconcellos (o eterno Macaco Louco das Meninas Super-Poderosas), Andrea Murucci, Marcelo Garcia e José Luiz Barbeito (o eterno menino-gênio Dexter) no elenco.

Porém, foi ao assistir a série no idioma original, que minha mente se abriu para uma série de descobertas. Enquanto Mike fala o inglês americano, todos os habitantes da ilha falam o inglês britânico. Isso me levou a deduzir que os nativos são descendentes de ingleses. Apesar de se vestirem quase que tipicamente como indígenas, seus modos de comportamento são formais e civilizados.

Não é à toa. A fictícia Ilha de Albonquetênia da série é inspirada no território real das Ilhas Pitcairn, um conjunto de quatro ilhas vulcânicas situadas ao sul do Oceano Pacífico, no território marítimo britânico. Pitcairn é a área menos populosa do mundo, com cerca de 50 habitantes, e a ilha principal que leva o nome da área tem como população descendentes de colonizadores ingleses com tahitianos e outros polinésios.

É por isso que Mike e os albonquetenianos se entendem. Eles vêm da mesma linhagem linguística. Ambos falam o inglês.

A visão de mundo dos albonquetenianos ficou restrito às referências europeias do século XVII. Daí porque Wendell ser um Governador, inepto, tendo o cotidiano baseado em análise de papeladas e momentos de chá. E daí porque Lu, que é sua filha, se achar uma princesa, se comportando de maneira altiva, e tendo como animal de estimação uma tartaruga, como se fosse um cachorro. A tartaruga se chama Lancelot, o que evidencia mais ainda as referências inglesas.

A grande ironia é o fato de Lu ser uma patricinha – uma representação incomum para uma nativa de uma ilha – ao passo que Mike, uma garota da cidade grande, transborda carisma e humildade. Outra peculiaridade é Og, o garoto-prodígio da ilha, que é um inventor, e tenta fazer várias das coisas que Mike lhe pede.

Não bastasse o trio de protagonistas, os personagens coadjuvantes também são muito interessantes.
A começar pelos pais de Og. Margarida é uma mulher que tem o estilo de vida de uma dona-de-casa. Ela prepara refeições para todos da ilha. Curiosamente, ela também adora artes, sendo uma exímia pintora e escultora. Além disso, é a professora da escola da ilha, e tem um vasto conhecimento sobre a História de Albonquetênia, inclusive, chegando a escrever poemas sobre conflitos passados.

Em contrapartida, seu marido Alfredo é um caçador, que passa seus dias correndo atrás de um animal (que eu juro não saber de que espécie se trata) utilizando um arco com um desentupidor ao invés de uma flecha.

Perceberam o paradoxo? Enquanto vemos os estereótipos dos papéis de gênero devidamente representados – a mulher como cuidadora do lar e o homem como caçador – ao mesmo tempo, temos um protagonismo intelectual feminino em detrimento de uma masculinidade não-patriarcal. Margarida é uma mulher cheia de habilidades, enquanto Alfredo tem apenas uma única forma de lazer cotidiana, que é a caça.

E ainda há a ironia de sua caça ser esportiva, já que ele só persegue o animal por diversão, e não por necessidade alimentar. Como já dito, ele usa um desentupidor ao invés de uma flecha; portanto, sua caça não é letal.

O que nos leva ao fato de que todos da ilha parecem ser vegetarianos ou veganos, pois as refeições de Margarida consistem apenas em sopas. E os animais presentes na ilha vivem vagando entre os humanos, sem servirem de alimento a eles. Além de Lancelot, que é o bicho de estimação de Lu, e o animal que Alfredo persegue, ainda há um porco, um bode e um ouriço que estão sempre por ali.

Não menos curioso é o fato de esses três últimos raciocinarem e falarem – ao contrário dos outros – e serem amigos de Og, que se reúne com eles para a chamada Sociedade Filosófica, para discutir com eles questões existenciais e pensadores como Nietsche.

O fato de apenas Og conseguir se comunicar com eles nos dá pistas de supostas experiências alucinantes por parte de Og. Quando estão perto de outros personagens, eles fingem se comportar como animais comuns, mas, quando estão com Og, passam a ser falantes. Isso pode ser um indício de que Og pode projetar neles um intelecto imaginário, já que ele deve ser inteligente demais para ser entendido pelos outros humanos. Além disso, o fato de ele ser peculiarmente rouco não deixa de ser curioso, e pode nos levar a achar que ele consome certas substâncias alucinógenas… a partir da plantação da ilha.

Além disso, há o Velho Queeks, um idoso que vive no alto de uma montanha, numa caverna. Não obstante, sendo o mais velho da ilha, ele parece ser o único que é afeito a rituais mágicos, que devem fazer parte das crenças religiosas indígenas de seus ancestrais. Todos o têm por um vidente e um curandeiro.

Além dos personagens principais, em alguns episódios podemos ver também os Cuzzlewits, habitantes que vivem em outro lado da ilha, que têm características físicas marcantes, como maxilares avantajados, o que sugere fazerem parte de outra linhagem genética. São eles uma menina inteligente chamada Hermione e seus dois irmãos gêmeos, Haggis e Baggis, que se comportam de maneira mais primitiva.

Os Cuzzlewitz são justamente o grupo étnico contra o qual os Albonquetenianos lutaram no passado. A série evoca esse passado histórico apenas através de pequenas menções que nunca são aprofundadas, o que nos permite entender que um Universo Expandido da série seria muito mais do que bem-vindo.

Outro grupo que aparecem são os Três Piratas, que parecem ser descendentes dos próprios náufragos ingleses que colonizaram a ilha. Estão sempre tentando capturar Lancelot, pois adoram comer tartaruga, mas nunca conseguem. O Capitão, curiosamente, é um homem com duas pernas-de- pau e dois tapa-olhos.

E o que isso significa?

“Mike, Lu e Og” parece ser um retrato saudável de uma sociedade fruto do que seria uma tentativa de colonização mal-sucedida. A série, que teve duração e fama modestas para sua genialidade, era muito mais do que um mero entretenimento para crianças.

Por trás da história dos episódios e do estilo visual simples e cartunesco, a composição das personagens nos leva a um interessante pano de fundo social e histórico e a um interessante subtexto que a torna a produção mais tematicamente ambiciosa do CN.

(Este texto é baseado numa matéria que eu havia feito, já publicada antes, através do endereço: cineexplorer.wordpress.com)


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

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