Mogli: o que o da Netflix tem que o da Disney não tem?

“O Livro da Selva”, obra-prima do escritor indiano Rudyard Kipling, teve como sua mais famosa adaptação para as telas o clássico filme animado da Disney, na década de 60. Dentre muitos contos presentes na obra, o destaque foi dado a um garotinho que é criado por lobos numa selva. Daí, o marcante título nacional – Mogli, o Menino Lobo – que povoou definitivamente o imaginário popular.

Retrabalhado recentemente em um remake live action, o Mogli da Disney voltou à tona em uma narrativa que, apesar de um pouco mais sombria, ainda preserva a magia e singeleza do clássico que o originou. Afinal, era uma nova adaptação que também era um remake de um antecessor do estúdio.

Agora, porém, a Netflix, em parceria com a Warner, lança uma nova adaptação, dirigida por Andy Serkis, que pretende ser mais fiel ao livro, em “Mogli: entre dois mundos”. Então, desprenda-se do apego ao Mogli da Disney, porque aqui temos um Mogli mais sério, selvagem e ágil.

1. Balu Treinador?

Mogli continua sendo criado por lobos e tem um apego muito forte à sua família, além de ser sempre guiado pela pantera Baguera, que o ajuda a desenvolver hábitos para garantir sua sobrevivência na selva, com direito a treinamentos em um estilo militar.

Nesta versão, porém, o urso Balu é uma espécie de general, que comanda Mogli nos testes, enquanto Baguera participa na simulação de perigos para o garoto.

Ou seja, nada de ursos boêmios, dançantes e divertidos. O Balu dessa versão é um personagem que complementa a educação de Baguera, e não constitui um conflito essencial para com este. Com o desenrolar da trama, porém, os dois vão divergir na maneira de tratar o garoto.

2. Nada de Rei Louie

Há uma cena bastante similar à versão disneyana em que Mogli é sequestrado por macacos e levado a uma espécie de templo.

Porém, aqui, não temos nenhum orangotango (ou um gigantopithecus) que os guie. E Mogli é salvo surpreendentemente por Kaa, a cobra! Aqui ela parece constituir mais um grande animal sábio do que um predador, além de ter dons proféticos.

3. Um Mogli Diferente

O Mogli dessa versão é mais desconfiado, introspectivo e observador, o que traz uma noção mais pertinente a alguém que foi criado no ambiente trágico da selva. Com poucas palavras, seu olhar atrai toda atenção do espectador.

4. Tom Trágico

O filme ainda se permite abordar personagens que refletem alguns conflitos sociais, como a figura do lobinho albino, amigo de Mogli, que é constantemente rebaixado por ser diferente.
O fato de estar num ambiente em que cotidianamente se luta pela sobrevivência torna sua segregação ainda mais lastimável, e seu destino triste marca o tom sombrio dessa versão, o que também fornece um olhar ambíguo sobre a ética dos humanos, de uma maneira tão visceral que não se poderia esperar de uma adaptação da Disney ou de uma produção mais voltada a crianças, por exemplo.

5. Caracterização

Os personagens têm um visual mais caricato do que a versão da Disney, dando preferência às expressões faciais mais do que a um hiper-realismo nas formas e texturas reais dos animais, de uma maneira que ainda funciona e soa orgânico ao ambiente e à narrativa. Afinal, estamos falando de uma história com animais falantes, para início de conversa.

Com uma renderização quase equivalente ao da outra adaptação, este traz personagens com rostos até mais marcantes.

Com toda sua experiência na técnica de mocap (captura de movimento), Andy Serkis por pouco não conseguiu alcançar o mesmo feito do longa disneyano, não angariando uma indicação ao Oscar de Melhores Efeitos Visuais (não se sabe se por mérito de qualidade ou se pelo filme não ter cumprido a agenda de requisitos de exibição para concorrer – assim como “Roma” – por ser uma produção para uma rede de streaming). Porém, consegue uma façanha notável, entregando um dos filmes mais bem resolvidos e contagiantes da Netflix.


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

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