Liga da Justiça (Filme) – Análise

Depois dos eventos de “Batman vs Superman: A Origem da Justiça”, Bruce Wayne precisa formar um time de heróis que encontrou em um arquivo da LexCorp, para encontrar um remédio para sua culpa: a ressurreição do mártir Superman, e lidar com as consequências apocalípticas de um artefato poderoso que poderá colocar em risco a raça humana.

Apesar de ter uma história consistente que dá continuação aos eventos do filme anterior, o Universo Cinematográfico DC faz um ponto fora da curva em termos de tom e temática. O longa deve ser analisado sobre dois aspectos: como um filme individual que dá início a uma nova franquia dentro do Universo DC, e como continuação de três filmes anteriores.

“Liga da Justiça” cumpre bem seu papel de entretenimento. É um longa que, diferentemente dos outros filmes, não está a fim de elaborar discussões éticas e morais, e sim de apresentar a dinâmica da interação entre alguns dos heróis mais importantes da cultura popular. E faz isso muito bem, dado o carisma e a grande competência dos atores em cena. Ben Affleck faz um Bruce Wayne mais tranquilizado e humanizado, visivelmente transformado pelo ato de sacrifício de Superman no filme anterior. Gal Gadot continua competente e incrivelmente vigorosa como a Mulher-Maravilha. Ezra Miller é o grande alívio cômico do filme, como Flash, que, assim como o da série animada, continuou sendo meu herói favorito no filme, e é impossível não se cativar com sua empolgação e ingenuidade. Destaque para seu uniforme, que tem uma textura porosa e dividida em seções, o que deve tornar mais facilitados os movimentos rápidos do herói. Jason Momoa também está competente como Aquaman, transmitindo um certo ar de ironia e independência singulares. Ray Fischer como Ciborgue está razoavelmente competente; seu jeito introspectivo transmite sua angústia em ser um humano com mais da metade do corpo robótica.

É ótima a agilidade com que o roteiro do filme consegue unir os heróis, e como a sensação de serem estranhos que acabaram de se conhecer está presente em todo o filme. Outra grande virtude é o roteiro não se preocupar em explicar as origens do poder de cada herói, ressaltando sua personalidade em detrimento do poder que os mesmos obtêm.

Só é frustrante perceber que na primeira cena da Mulher-Maravilha o roteiro ainda se sente obrigado a explicar o que o Laço da Verdade faz, para os possíveis espectadores leigos (É sério isso?); em contrapartida, há uma cena singela onde o mesmo é usado de maneira cômica (e sem explicações… ufa!), num raro momento onde o Aquaman diz algo emotivo sem perceber.

A cena onde Superman é ressuscitado é a melhor cena do filme, quando todo o potencial de cada herói é testado ao máximo, ao terem que lidar com um Superman recém-renascido agindo constantemente em posição defensiva.

As cenas de ação são suficientemente empolgantes e atuam positivamente para convergir ainda mais os personagens e torná-los mais íntimos uns dos outros. A fragilidade fica por conta de ambientes que talvez soem muito artificiais, sobretudo pelo tom dessaturado típico da fotografia dos filmes de Zack Snyder, inclusive com uso intenso demais de cores avermelhadas no terceiro ato do filme. O vilão Lobo da Estepe, apesar de ser até mais do que suficientemente ameaçador, é totalmente feito em um CGI que lembra um personagem de videogame, que destoa um pouco da credibilidade do ambiente ao redor.

Além disso, as intenções de Lobo da Estepe são perceptíveis mas a natureza de suas convicções não são claras o bastante, tornando-o o mais raso dos vilões do Universo Cinematográfico DC, que, ao contrário da Marvel Studios, consegue conceber vilões complexos e interessantes, como o General Zod de “O Homem de Aço”, Lex Luthor de “Batman vs Superman” e Ares em “Mulher-Maravilha”.

O que nos leva a analisar o filme enquanto parte de um todo do Universo Cinematográfico DC. Os diálogos despretensiosos, a frequência de cenas de ação ao longo do roteiro e a incrível química entre os personagens o tornam um filme absolutamente divertido, ainda mais para um fã. Havia momentos que parecia que eu estava assistindo a um episódio de longa duração da série animada da Liga da Justiça, o que é ótimo, visto que a série tinha um tom único de leveza, sem perder a seriedade dos conflitos.

Por outro lado, é um tanto quanto frustrante o caminho que este longa tomou em relação aos demais. Zack Snyder parece abandonar suas pretensões de discussão ética/filosófica que estabeleceu interessantemente em “O Homem de Aço” e “Batman vs Superman” e na história de “Mulher-Maravilha”, e entrega um filme absolutamente pipoca, que, finalizado por Joss Whedon (Os Vingadores), quando da saída de Snyder da direção do projeto, e substituindo David S. Goyer no roteiro, ficou ainda mais despretensioso do que nunca, fazendo deste o longa mais “Marvel” da DC.

Se “O Homem de Aço” e “Batman vs Superman” tinham uma preocupação de formação de opinião ética e tinham um teor quase jornalístico na maneira como as tramas eram contadas, herdando o tom da narrativa da trilogia “O Cavaleiro das Trevas” de Nolan, em “Liga da Justiça”… bom… isso é totalmente deixado de lado… e é impressionante perceber como a recepção desfavorável do público em relação a um filme anterior pode ditar completamente o tom do próximo… ainda que isso signifique perder os objetivos que levaram ao surgimento do Universo Cinematográfico DC…

E se “Mulher-Maravilha” foi o equilíbrio emocionantemente perfeito entre o tom sério e tematicamente pretensioso dos filmes da DC, e uma leveza contagiante, com vários momentos de humor sempre bem empregados (cof-cof, aprende aí, Marvel), “Liga da Justiça”, por sua vez, parece não confiar na consistência do tom dramático do próprio universo do qual surgiu, sendo até abusivo no humor em vários momentos. O bom é que nenhuma piada parece fora de hora e todas soam orgânicas à narrativa, mostrando que a DC consegue ser até mais competente do que a Marvel no emprego desse tom cômico, que, com certeza, não estava presente nas primeiras ideias para a concepção do filme, o que é, no mínimo, também interessante.

A trilha sonora do lendário Danny Elfman parece não ter grandes momentos, sendo os momentos de maior êxtase aqueles que recorrem à nostalgia, reproduzindo a clássica melodia-tema que ele mesmo compôs para os Batmans de Tim Burton há 20 anos, e absorvida pela icônica série animada do mesmo, e quando sugere introduzir a clássica música-tema do Superman composta por John Williams para os filmes antigos do herói. As canções presentes no filme, porém, são muito bem empregadas.

Em suma, “Liga da Justiça” está bem distante de ser o filme agradavelmente competente que “Mulher-Maravilha” foi, e é o menos ambicioso tematicamente dos filmes da DC. Não chega a ser memorável, e não é visionário como aqueles que o antecedem, mas diverte e cativa, sendo um filme que aposta no carisma de seus personagens em detrimento do enredo ou do teor da narrativa que está contando, e, por isso, vale o ingresso e nos deixa querendo ver muito mais desses heróis.

Fábio Reis é formando em Design Industrial

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