“Lia”: o protagonismo da mulher coadjuvante

Em tempos em que a representatividade feminina vem ganhando destaque na indústria cinematográfica, isso se faz valer também em adaptações de histórias bíblicas.

Recentemente, na TV, tivemos a minissérie norte-americana “A Tenda Vermelha”, que já rendeu uma resenha neste site; e no cinema, o longa “Maria Madalena” desenvolveu uma narrativa para a mulher mais enigmática da Bíblia.

Agora foi a vez do Brasil fornecer sua dose de contribuição a essa onda de empoderamento feminino, através da minissérie da Rede Record “Lia”.

1. Adaptação

Concebendo um roteiro da costela do texto bíblico…

Diferentemente das outras obras citadas, cujas protagonistas (Diná e Maria Madalena, respectivamente) são oriundas de textos com informações tão extremamente escassas a respeito delas nas Escrituras Sagradas que tornam-nas praticamente adaptações “não-canônicas”, por assim dizer, “Lia”, por sua vez, se apoia nas implicações periféricas às narrativas do patriarca Jacó, contidas no Gênesis, o que dá a obra a condição de ser “fiel” ao texto original (já que existe um corpo de descrições mais consistente ao qual ser fiel), apesar da ficcionalização obviamente existente, por se tratar de uma figura milenar e de pouquíssimas descrições, porém canonicamente inspiradas – assim como todas as produções da Record – por serem desenvolvidas às sombras do protagonismo de Jacó.

Personagens

A Lia desta obra é meiga e cuidadosa. Interpretada por Bruna Pazinato, a mãe da maioria dos filhos de Jacó não foi teoricamente agraciada com a aparência chamativa de sua irmã Raquel. Os “olhos baços”, referenciados pelo texto sagrado, são a primeira coisa que aparece em cena. É tudo visto pelo seu humilde olhar.

A autora Paula Richard a concebeu de maneira tão recatada e insegura quanto determinada e forte. Atenciosa que é, é uma ideal síntese da figura da irmã mais velha. Fortalecida pela fé, sua determinação só é ameaçada pela ingratidão e pelas malícias de sua irmã Raquel.

Muito bem interpretada por Graziella Schmidt, Raquel foi concebida pela trama como uma mulher oportunista e de caráter duvidoso, temperado pela arrogância do reconhecimento de sua própria beleza.

Sua personalidade arrogante sugere-se ser a razão pela qual ela viria a tornar-se estéril. A autora, portanto, consegue abstrair dos elementos do texto, um desdobramento dramático muito interessante. Os filhos de Lia seriam sua recompensa por ser moralmente digna.

O Jacó de Felipe Cardoso é digno e tão bom quanto um homem de seu tempo o pode ser.

Já o Labão de Theo Becker tem uma personalidade intempestiva e imprevisível. Com certeza, o melhor trabalho do ator que lembro de ter visto. Apesar de não ser tão velho, Becker imprime uma postura bem convincente ao personagem.

Peças no Tabuleiro Social

A relação entre Lia e Raquel é um dos pontos mais importantes da trama, e, através de seus conflitos, o teor assistencialista do casamento naquela época é ressaltado, apesar de a obra não se permitir problematizá-lo. Afinal, Lia não tem a vocação de “outsider” que a Diná de “A Tenda Vermelha” tem.

Ela é a personagem mais humana dentro do status quo patriarcal no qual está inserida. Interessante notar que, por mais exemplar que Lia seja, a forma com que trata com conivência os abusos que sua amiga Zilpa sofre dos homens que querem “afogar seus desejos” evidencia uma postura ainda passiva de sua parte. Conflito esse que, também, por outro lado, reitera o teor assistencialista do matrimônio antigo, inclusive contra uma cultura do estupro mais do que evidente, direcionada à mulheres não-comprometidas.

“E o homem concebeu, do pó da letra, o audiovisual…”

A cena em que Jacó chega ao povoado de Labão e pergunta por ele e a cena em que Raquel conhece Jacó, descritas no texto sagrado, foram das mais bem representadas que já vi em obras do gênero e umas das melhores cenas da série. A reação passiva e fria com que os homens respondem a Jacó exprime bem a dinâmica que a literalidade do texto bíblico expressa.

A maneira imprevisível com que Jacó beija o rosto de Raquel ao se surpreender por ela dizer-se sua prima distante é a mais perfeita e autêntica reprodução daquilo que apenas um olhar absurdamente atento poderia extrair das implicações do que há no texto bíblico.

A escrita de Paula Richard arrebatou minha percepção exatamente nestas cenas. A partir daí foi que percebi que estava vendo mais uma obra digna e possuidora da mesma qualidade demonstrada nas escritas por Vivian de Oliveira.

A forma como o triângulo amoroso protagonista é representado e a interação entre os personagens faz de “Lia” uma obra mais que relevante, e até mais interessante do que sua antecessora em modéstia orçamentária “Milagres de Jesus” e do que o recente spin-off em forma de novela “O Rico e Lázaro”.

2. Visual

“Lia” foi pensada como um projeto mais modesto dentro da safra de produções da emissora. Uma minissérie bem curta e de uma pretensão menos épica. E cumpre muito bem esse papel.

Apesar da fotografia bem pálida e da produção menos ostensiva, é nas personagens que reside a “alma” da obra, e, por isso, “Lia” é tão interessante. Os planos, os closes, a mise-en-scene simples mas eficaz são o que transmite a essência da história.

Modelitos…

Os figurinos com tons terrosos ou mesmo verdes representam a humildade e esperança presentes em Lia. O vermelho dos figurinos de Raquel evocam o perigo que esta representa, a paixão, e a malícia. O preto das vestes de Labão já dá o aspecto sombrio de suas intenções e inclinações.

A Abertura…

A própria abertura da série é a mais simples dentre todas as produções da Record. Ao invés de letras serifadas – herdeiras da Trajan – ou letras que buscam simular as formas dos caracteres hebraicos, uma tipografia cursiva faz da logo da série algo simples e delicado. Não há rebuscamentos visuais ou adereços à mesma. A silhueta de Lia em meio ao deserto é a única coisa que marca a imagem principal da abertura.

3. Lia e Diná

A Parada Tensa…

Apesar da trama começar muito bem, na segunda metade da mesma, ela vai perdendo seu vigor, por tirar o foco de Lia e explorar o trágico evento envolvendo Diná, sua filha.

O enigmático encontro entre Diná e o príncipe de Siquém (dissecado na nossa resenha sobre “A Tenda Vermelha”) que, em “José do Egito”, é retratado como sendo um estupro; e na minissérie norte-americana mencionada, é retratada como sendo um sexo consentido prematuro antes do consentimento de Jacó; em “Lia”, curiosamente, o mesmo evento também é retratado como um sexo consentido antes do consentimento do patriarca, porém, ao contrário da Diná de “A Tenda Vermelha”, a Diná de “Lia” vê a si mesma como uma impura por ter “cedido aos desejos”.

Aqui, temos um ato consensual, porém cheio de culpas. E, se eu me permitir inferir, certamente representado desta forma pela necessidade de um tom puritano, por ser uma obra apadrinhada pela Igreja Universal, visto que a extrema e improdutiva culpa que Diná sente por ter cedido a um ato legitimado pelo amor e pelo compromisso já estabelecidos jamais é problematizada no decorrer da trama. Claro que, ao contrário da Diná da outra obra, esta nem parece ter certeza de sua paixão, o que tornaria sua culpa mais plausível, porém a trama não a explora de maneira tão profunda para que se pudesse clarificar essa prerrogativa.

Bem como o problema também não é dissecado em suas variáveis, visto que a relação entre Diná e o príncipe resultaria em implicações políticas entre Jacó e o rei de Siquém. Mas a natureza da culpa de Diná ou da crueldade dos irmãos de Diná na chacina que fazem em retaliação ao ato jamais é dissecada a tanto pela autora Paula Richard, ficando apenas a leve sugestão – mais do que infeliz – de que tudo aquilo foi a trágica consequência do “erro” de Diná. Se entregar-se legitimamente ao ente amado, com todas as promessas do matrimônio feitas, foi impureza de sua parte, eu não quero nem saber então “as consequências cabíveis” ao que consiste a vida sexual de grande parte das pessoas no século XXI….

Óbvio que eu não estava esperando outra abordagem vinda da emissora que é apadrinhada pelo bispo Edir Macedo, mas… para a emissora cuja maior parte esmagadora da programação consiste de produções “secularizadas” – para bem e para mal -, e cujo dono, também bispo, já alegou – por exemplo – ser favorável à ampliação do aborto como método contraceptivo (o que aí sim considero lamentável), não seria nem ousado considerar o mencionado. Parece que, para o controverso bispo, faz menos sentido dizer “transem por amor” do que “não matem fetos apenas por não terem desejado-os”…

… Corta de volta pra Lia…

Mas… cof-cof… voltando à trama em si, o que mais me incomodou na segunda metade da mesma foi que Lia tornou-se coadjuvante em sua própria história. Mesmo suas reações ao ocorrido com Diná poderiam ter sido melhor exploradas, e, inclusive, terem integrado um interessante e pertinente discurso sobre a natureza do matrimônio, em contraponto ao modo como a própria Lia foi iniciada sexual e matrimonialmente – com certeza, de maneira menos idealizada do que Diná, e, assim mesmo, não tendo recebido a retaliação de um genocídio como brinde.

A possível insegurança de Raquel em relação ao seu primeiro ato sexual, oriunda de sua pouca faixa etária, que “Lia” resolveu abordar tal qual em “A Tenda Vermelha”, torna a situação ainda mais problemática, bem como a passividade e/ou oportunismo fisiológico de Jacó em ter aceitado as núpcias com a cunhada.

A noção invertida de pudor do homem antigo é apenas abordada, mas nunca questionada pela autora, o que chega a ser problemático apenas porque, por mais que a sociedade tenha mudado consideravelmente e todos saibam disso, é fato que o proselitismo da Igreja sempre tentou, ao longo da História, ser neutro em relação às incoerências e relatividades éticas das figuras centrais das narrativas sacras. Só no Gênesis, para exemplificar, ao mesmo tempo que é razoável a ideia de Jacó ser polígamo, é também razoável a ideia de Noé ter amaldiçoado toda a geração de seu filho pela banalidade deste ter visto seu próprio pai nu! Esse tipo de bipolaridade é usual no decorrer do Antigo Testamento…

… Dá trabalho cortar pra Lia de novo?

Mas voltando à Diná e à dramaturgia da série, Lia se tornou tão coadjuvante no roteiro que pareceu que o terrível evento em Siquém foi contado apenas porque “tinha que ser”… O evento não articulou nenhum desenvolvimento consistente na personagem principal.

Como fomentadora de um discurso, a narrativa de “Lia” não vai muito além do que o esperado para uma produção da emissora. Porém, consegue dramatizar de uma forma muito competente o triângulo amoroso – Jacó, Lia e Raquel – e a disputa de egos entre irmãs, com a escolha dramática de polarizar eficazmente a emoção do público com a delimitação de uma heroína em Lia e de uma clara antagonista em Raquel.

Claro que a autenticidade religiosa hebraica em Lia, e o paganismo (e/ou mesmo a falta de religiosidade no caso desta série) inerente a esta Raquel, tornam essa arquetipia um tanto quanto… fundamentalista… por assim dizer… Até porque, primeiramente, não se sabe o exato teor abraâmico/cananeu presente na religiosidade de cada uma das duas irmãs, e, em segundo, nada impede que a Lia da vida real tenha sido uma verdadeira “Penina da vida” e que a Raquel da vida real tenha sido uma mulher adorável… (afinal, foi dela que veio o quase imaculado José; já os onze irmãos detestavelmente invejosos vieram de Lia)… Nunca teremos como saber, a menos que nos deparemos com seus espectros quando formos ao Paraíso. Porém, a escolha dramática da série foi muito bem executada.

Todas as descrições do texto sagrado são perfeitamente representadas na trama, e os eventos criados são igualmente bem concebidos (destaque à divertida cena em que Lia perde as estribeiras e “parte pra cima” de Raquel por ter sabotado sua comida).

A série, deste modo, em termos temáticos, não é tanto sobre um empoderamento, mas sobre um olhar feminino; e, em termos dramatúrgicos, é um feliz exemplar de que “menos é mais”. Objetiva e poeticamente livre na medida certa, “Lia” foi a melhor produção bíblica da emissora desde “Os Dez Mandamentos”.

Fábio Reis é graduado em Design Industrial pela UFAM

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