Isso é tudo, pessoal?

Os Looney Tunes são um dos maiores ícones da cultura pop. O título, que dava nome aos curtas animados produzidos pela Warner Bros. a partir dos anos 1940, para embalar uma grande biblioteca de música sob domínio da empresa, acabou sendo sinônimo das próprias personagens que estrelavam os curtas.

Pernalonga, Patolino, Hortelino Troca-Letras, Piu-Piu e Frajola, Coyote e Papa-Léguas, Taz, Frangolino, Marvin, o Marciano, Pepe Le Pew e muitas outras figuras marcaram a infância de várias gerações. Inicialmente protagonistas de suas próprias séries de curtas, posteriormente, muitos deles passaram a estrelar os curtas uns dos outros, constituindo uma grande família de personagens.

Nascidos nos primórdios da animação, sua essência está no humor físico que praticamente fazia da animação mais do que uma ferramenta de produção visual, mas um subgênero de humor à parte.

O exagero no movimento, que é um dos princípios básicos da animação, juntamente com a falta de compromisso com a física da realidade caracterizavam quase todos os curtas de animação, que ganhou notoriedade com os Looney Tunes, pelo seu grande carisma e personalidade. A frustação de uma personagem, seja o Patolino não conseguir que o Hortelino atire no Pernalonga, seja o Coyote não conseguir apanhar o Papa-Léguas ou Pepe Le Pew jamais conseguir cativar sua amada, é o que dava ao público identificação e constância, que perderiam sua graça totalmente se atingissem seu objetivo, já que o humor está no “nunca conseguir”… O cômico carrega em si a banalização escrachada do trágico. As bigornas caindo, dinamites explodindo e quedas em abismos eram uma síntese de uma fuga da realidade para o público, já que as personagens sempre estavam reestabelecidas na cena seguinte. O humor em sua essência despretensiosa se mostrou eficiente, visto que as personagens são as maiores estrelas da indústria do entretenimento de todos os tempos.

A exploração lúdica do sofrimento é uma forma controversa de superá-lo. Nos tempos atuais, a necessidade do politicamente incorreto se faz mais intensa. Depois de cerca de duas décadas de reprises, tendo apenas aparecido em dois longas – o marcante “Space Jam” e o mediano “Looney Tunes: De volta à Ação”, além de algumas incursões nos quadrinhos e extenso currículo de games – as icônicas personagens retornaram numa nova série – “O Show dos Looney Tunes” – em que são atualizados para um tom menos violento.

O humor acidamente violento agora dá lugar a um humor inteligente nos diálogos e em situações com as quais o ser humano pode se identificar. Os Looney Tunes passaram de lunáticos a cidadãos de uma cidade onde todos moram próximos uns aos outros e compartilham frustrações e necessidades comuns a qualquer cidadão do mundo real.

Não há como não se cativar com a relação de Pernalonga e Patolino como amigos que compartilham a mesma casa, e com a reunião entre amigos na pizzaria do Ligeirinho, ao mesmo tempo em que a série conseguiu conservar a essência das personagens – o cinismo mais moderado e a ironia do Pernalonga, a ganância e extravagância de Patolino, a inocência de Gaguinho e a perspicácia de Ligeirinho continuam lá – porém numa realidade mais aprazível.

A série não teve a recepção positiva esperada pela maioria do público, e foi cancelada em pouco tempo, infelizmente, mas ainda é exibida pelos canais Cartoon Network e Boomerang com regularidade. Parece que a tentativa de evitar a banalização da violência como artifício cômico não agradou a todos.

Porém, para fãs mais moderados como eu, a legítima tentativa de civilizar personagens clássicos nunca vai deixar de ser admirada. Resta ver o que acontecerá com as personagens daqui para frente. Ou será que “isto é tudo, pessoal”?

Fábio Reis é formando em Design Industrial

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