Garota, Interrompida: indivíduos à margem da sociedade

Neste drama de 1999, Winona Ryder interpreta Susanna Kaysen, uma jovem com um brilhante futuro pela frente, que foi diagnosticada com TPB (Transtorno de Personalidade Borderline). Ela, então, é mandada pelos pais a um hospital psiquiátrico, onde passa a ter contato com pessoas com os mais variados distúrbios.

Interessante notar que, por alguma razão, todas as pacientes da clínica são mulheres. Outra coisa interessante é a variedade dos transtornos mentais de cada personagem. Desde as que vivem em realidades ilusórias, passando pelas que têm hábitos compulsórios, até a sociopatia – esta última, representada por Lisa, personagem de Angelina Jolie.

Apesar de Susanna ser a única personagem entre as pacientes que parece ter plena consciência de suas ações – o que a leva a questionar a pertinência da presença dela ali – o que todas elas têm em comum é que, de alguma forma, não se encaixam na sociedade.

Por sua personalidade excêntrica, Lisa acaba se tornando amiga de Susanna, e este relacionamento levará a trama a situações que proporcionam uma humanização daquelas personagens, sobretudo nos momentos em que burlam as regras da instituição, em prol de simples momentos de divertimento e de descontração. Nesse sentido, a trama se permite tecer críticas ao sistema, pela maneira, por vezes opressiva, pela qual as pacientes são tratadas, ao sofrerem crises de comportamento.

O Transtorno de Personalidade Borderline nada mais é do que uma espécie de padrão de personalidade bipolar caracterizado pelo sentimento de abandono, instabilidade em relações interpessoais e problemas de identidade, acompanhado de pensamentos e hábitos autodestrutivos. Entretanto, Susanna é uma mulher muito capaz e consciente, não representando grandes riscos a terceiros em sua escassa vida social.

Não obstante, Winona Ryder foi uma escolha pertinente para representá-la. Com sua pele extremamente branca e cabelos pretos, a personagem já tem uma caracterização que ajuda a transmitir o sentimento de melancolia, ainda mais pela sua magreza e o fato de seu cabelo estar curto. Na Antiguidade, o cabelo da mulher, sempre comprido, era um símbolo de honra e dignidade. Quando a mulher se sentia repudiada, raspava a cabeça em sinal de luto.

Aliado a isso, o figurino mais tipicamente masculino que a personagem costuma usar apenas ajudam a dar eco à ideia de não se adequar ao seu convívio familiar e social; apesar de ter um parceiro, sua orientação sexual é algo que fica ligeiramente ambíguo por algumas cenas em que está com Lisa, o que ajuda a dar mais sentido à maneira como se veste. Susanna possivelmente é uma bissexual, apesar da trama nunca fornecer uma exatidão disso – o que, se tratando dos anos 60, era um problema ainda maior do que é hoje.

Por ser a que possui a doença menos grave, Susanna também talvez seja a que tem as atitudes mais gentis – como quando faz questão de tocar violão para a colega que foi colocada num quarto de isolamento. Por isso, no ápice do segundo ato, a amizade com Lisa evoluirá para um antagonismo, diante do momento mais impactante da trama, quando a degeneração moral de Lisa se faz evidente.

Genialmente, a trama acaba desenvolvendo em Lisa o que seria o papel narrativo de uma vilã, chegando a representar um perigo à Lisa, até que sua influência junto às outras pacientes seja desconstruída, de uma forma tão serena quanto a que começou a aflorar a amizade para com Suzanna.

Sem dúvida, uma obra muito bem escrita e produzida, além de socialmente relevante. Uma análise dos marginalizados de uma sociedade.


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

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