Detetive Pikachu: o tom certo para a saga Pokémon nas telonas

“Quem é este Pokémon?”

Tendo sido uma criança que viveu o início da década de 2000, fiz parte de uma geração que vivenciou a grande febre que foi Pokémon. Os jogos e o anime da franquia por muito tempo proporcionaram alguns dos momentos mais cativantes da nossa infância, que se desdobravam em produtos licenciados da marca. Pokémon foi um dos maiores fenômenos da cultura pop do século XXI.

Depois de adulto, ao refletir sobre a franquia, certa vez lembro-me de conversar com um amigo sobre como as coisas não faziam muito sentido no universo de Pokémon. Como três jovens simplesmente tinham suas vidas baseadas em sair por aí pelas florestas apenas capturando monstrinhos e usando-os em duelos até obterem o maior número possível deles? Qual era o real propósito disso?

Esse propósito inexplicável de capturar Pokémon se mostraria uma antecipada metáfora do que se tornaria a franquia, graças ao seu merchandising, com bichinhos fictícios tão interessantes em seu visual e seus superpoderes que iriam fazer crianças chorarem para seus pais para adquirirem os mesmos, seja na forma de bonecos, produtos, card games ou os próprios “tazos”, os brindes que vinham em salgadinhos da Elma Chips, que eram a síntese máxima disso: o propósito das brincadeiras de batalha de tazos era justamente batalhar incessantemente para adquirir o máximo possível de tazos do seu oponente (cada tazo vinha com um Pokémon representado). Era a materialização lúdica das batalhas de Pokémon em sua forma mais evidente, fazendo a alegria das crianças nas horas do recreio na escola.

Sendo assim, tendo sua própria gênese já planejada para ser uma franquia de produtos, mais do que qualquer outra coisa – o que seria mais lucrativo para a indústria do entretenimento infantil do que simplesmente criar uma fauna de criaturas fictícias? – Pokémon não tinha mesmo como ter narrativas tão coesas e substanciais. As narrativas não deixavam de ser apenas uma desculpa para mostrar os mais variados bichos fictícios.

E sejam as propostas narrativas da franquia simplórias ou não – e venham elas de uma substância capitalista ou não – o fato é que faziam expressar em nós a pureza mais lúdica do imaginário infantil.

E é por isso que não seria fácil tentar transpor para as telas do cinema – ainda mais em live-action – a saga, sem que isso implicasse algum tipo de adaptação ou amadurecimento do seu universo.

E o resultado veio da fonte mais imprevisível de todas: de uma adaptação de um jogo spin-off não canônico da saga. Por ser um jogo de investigação, ele contava com uma história mais bem delimitada, com um conflito mais preciso; então, foi a base perfeita que a saga precisava para se encontrar no cinema.

Pokémon desenvolve para…

“Detetive Pikachu” se passa numa realidade em que Pokémon coabitam pacificamente com humanos em centros urbanos. São como mascotes ou bichos de estimação dos humanos, alguns deles usando seus poderes para auxiliar seus donos em seus ofícios.

A dinâmica da captura de Pokémon não é tão mostrada – apenas a cena inicial aborda isso -, ela fica apenas implícita. Isso já é um grande passo fora da curva para a saga, que tinha suas histórias centradas justamente na captura e nos duelos entre Pokémon.

A história gira em torno de um rapaz que tem seu pai misteriosamente morto em um acidente, que deixou como testemunha apenas o seu Pikachu de estimação, o que dá início a uma investigação.

A partir dos intuitos desse Pikachu, vemos se desenrolar pistas pelos mais variados lugares de Rime City. A trama nos leva a reencontrar alguns velhos conhecidos Pokémon pelo caminho, que auxiliam nossos heróis, e aí temos nosso filme.

Além do mistério da tragédia, o fato deste Pikachu ser falante constitui outra surpresa ao protagonista humano e ao expectador, e a trama é inteligente ao associar os dois conflitos em um final revelador.

Pika, Pika!

O fato de Pikachu ser falante o dota de um protagonismo merecido e satisfatoriamente adequado a uma narrativa que precisava que ele fosse a parte mais ativa da dupla de protagonistas, já que é ele a figura-símbolo da franquia.

Se com Ash, Pikachu parecia ser o elemento acessório, aqui, por outro lado, seu protagonismo é evidentemente superior ao de sua contraparte humana. Seu carisma dá ao filme grande parte de sua magia.

Viva Rime City!

O filme já merece aplausos pela maneira de ambientar os personagens. Enquanto vemos os pertencentes de gêneros mais ficcionais como Jigglypuffs cantando em karaokês de pubs, e Charmanders – que são do gênero de fogo – auxiliando como fogão para cozinheiros de barracas na rua, vemos, por outro lado, os gêneros mais palpáveis, como Bulbassauros – que são do gênero de planta – andando realmente no meio da floresta, ou Pidgeons – gênero de vôo – voando pelos ares, fora dos centros urbanos, como se estivessem de fato em seu habitat natural.

O Snorlax usado como restrição no trânsito é hilário. Nada melhor para um Pokémon que nunca sai do lugar.

O universo do filme em si já é o bastante para encher os olhos de qualquer espectador – seja pela própria beleza dos efeitos especiais e do visual muito bem adaptado para o CGI – seja pelo reconhecimento que os fãs da franquia vão sentir.

Para sorte da minha geração, a maioria dos Pokémon que aparecem fazem parte da primeira geração, o que causa nostalgia instantânea. Como alguém que só acompanhou as duas primeiras temporadas do anime, os 150 Pokémon originais são sempre os mais familiares para mim.

Os duelos entre Pokémon, que são o grande trunfo da saga, aqui são reduzidos a uma cena que procura simular lutas livres em ringues. A outra grande cena de luta da trama é a do final, em que nosso herói peludinho precisa lutar com outro lendário Pokémon – por uma necessidade concreta.

Isso tira saudavelmente um pouco da exploração tão lúdica da violência, tão presente na franquia. Afinal, a melhor coisa de fato é ver os Pokémon pelo que eles são, e não por suas performances agressivas gratuitas.

O filme ainda faz mais questão de ironizar isso, boicotando nossas expectativas, ao mostrar Pikachu falhando em executar seu poder de choque, no embate contra Charizard. A insegurança e a amnésia presentes nele fazem com que ele não consiga lutar. A ação da cena é genialmente proporcionada de maneira diferente do esperado.

A ideia de evolução, muito presente na saga – explorada de maneira tão lúdica e estética na cultura de entretenimento japonesa – aqui tem uma participação narrativa, a partir da percepção humana sobre os Pokémon. O homem também querer evoluir para novas formas mais potentes é uma questão pertinente para a franquia, que, em uma proposta mais ousada e adulta, poderia ter reverberações filosóficas interessantes, mas a ideia fica mais na superfície mesmo, como deve ser para uma produção infantil.

Veredito

A trama é absolutamente interessante, apesar de ter resoluções igualmente absolutamente simples. Porém, quando se trata de um filme destinado ao público infanto-juvenil, isso não incomoda tanto. E em se tratando de Pokémon, o que temos aqui é muito mais do que as expectativas mais exigentes poderiam querer. Afinal, não dá pra ser exigente demais quando se trata de Pokémon, não é mesmo?

“Detetive Pikachu” não é exatamente uma obra-prima da sétima arte, mas, sem dúvida, é um dos melhores blockbusters de seu ano, e talvez a melhor adaptação de um jogo já feita na história, o que, por si só, já é um feito muito mais que notável. É um grande exemplar de qualidade estética, proporcionando uma satisfação jamais imaginada sequer pelos fãs mais árduos da franquia.

O filme não deixa de ser genial na maneira como adapta o universo de Pokémon para uma trama minimamente convincente e empolgante. E, além do fator nostalgia para os adultos, considerando que, dentre os exemplares de filmes live-action infantis da minha geração, constam blockbusters como “Space Jam”, “Flubber”, “Jumanji”, “George – o rei da floresta”, “Inspetor Bugiganga” e a franquia “Pequenos Espiões”; e adaptações de séries animadas como “Scooby-Doo – o filme”, “Garfield – o filme” e “As Aventuras de Alceu e Dentinho”, ou para as gerações mais recentes, “Os Smurfs” e a franquia “Alvin e os Esquilos”, digamos que as crianças de hoje em dia estão intelectualmente mais bem servidas com “Detetive Pikachu”.

Afinal, aqui temos uma ótima porta de entrada do gênero policial e noir para crianças, em uma forma leve e divertida, nutrindo-as do prazer da curiosidade e senso investigativo.

Para o alto e avante!

Despindo-se de todo risco à apologia à violência e a um cúmulo consumista, a saga respira novos ares, elevando o espírito da mesma a um novo patamar.

Ao focar na história ao invés do deslumbramento pelos Pokémon, fazendo deles um pano de fundo de figuração para a história de Pikachu, e fornecendo alguns papéis narrativos a alguns deles (a função que deram ao Ditto é impagável), o filme encontra seu propósito, ao mesmo tempo em que introduz um universo que pede para ser mais explorado em futuros filmes de uma possível franquia, com histórias independentes entre si, igualmente cativantes, que se passem em Ryme City.

E que venha o Universo Cinematográfico Pokémon no Cinema!!! Mal posso esperar por mais.

 


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

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