Desventuras em Série – Temporada 1 (Análise)

Os ditados populares “Seria trágico se não fosse cômico” e “É rir pra não chorar” sintetizam a proximidade de dois valores da natureza humana: a tragédia e a comédia. Ambas estão quase sempre unidas, como se equilibrassem-se entre si. De fato, o humor é uma forma de exorcizar a melancolia. A necessidade da ridicularização do trágico origina o cômico. E a série… de capítulos audiovisuais… baseada na série… de livros, escrita por Lemony Snicket, alter-ego de Daniel Handler, tem uma narrativa que, como o próprio nome já diz, é apoiada em sucessivas frustrações vividas, no caso, pelos irmãos Baudelaire, órfãos que se vêem tendo que escapar das armadilhas de um distante parente, Conde Olaf, que quer fazer o possível para ter a guarda das crianças para ficar com a herança de seus pais.

O que mais chama atenção na série é sua fotografia com tons cinzentos e escuros, evocando o caráter trágico das situações vividas pelos protagonistas. Klaus, um voraz leitor dos mais variados livros; Violet, uma exímia inventora; e Sunny…., uma nenézinha linda que… faz da mastigação uma arte, são os irmãos com os quais vivenciamos as astutas ciladas… e outras não tão astutas assim… de Conde Olaf, vivido por um inspirado Neil Patrick Harris.

Com o design de produção fantástico de Bo Welch, somos levados a um universo singular, com arquiteturas de estilo vitoriano, incrementado com objetos e tecnologias do século XX, num período da História bastante incerto, e que apenas é mais uma incoerência que tenta representar o tom autodepreciativo da série com relação aos contos infantis e aos contos de fadas, os quais satiriza sutilmente, sendo um conto fabuloso moderno.

Criada por Barry Sonnenfeld (responsável pelas franquias cinematográficas “A Família Addams” e “MIB – Homens de Preto”), diretor que marcou minha infância por levar às telas uma certa dupla de agentes vestidos de preto que investigam aparições alienígenas no planeta Terra… aqui faz um trabalho inspiradíssimo. A série, em seu primeiro par de episódios, intitulados “O Mau Começo”, dirigidos pelo próprio Sonnenfeld (Cada um dos 13 livros da série é adaptado em dois episódios) tem um estilo de direção com planos estáticos e simétricos, semelhante a Wes Anderson, e, de fato, na minha particular opinião, o faz de uma forma muito mais bem-sucedida do que o aclamado diretor de “O Grande Hotel Budapeste”. A simetria exagerada é suavizada com alguns planos que enfocam os personagens de outros ângulos, evitando a artificialidade da narrativa. Esse estilo de direção funciona para o humor absurdo e cínico da série.

Os outros episódios, no entanto, alguns dirigidos por outros diretores, como o próprio Bo Welch, abandonam esse estilo simétrico de direção, por alguma razão, explorando-o de maneira bem leve.

Contando com oito episódios, essa primeira temporada adapta os primeiros quatro livros da série. Cada um dos novos tutores dos Baudelaire que estrelam os pares de episódios “A Sala dos Répteis” e “O Lago das Sanguessugas”, sintetizam, respectivamente, a ausência e a presença do medo, nos personagens de Dr. Montgomery Montgomery, que é um cuidador de cobras, e de tia Josephine, que tem síndrome do pânico em relação a tudo o que vê e que escolheu como ofício a área básica do conhecimento talvez menos prolífica para ser usada para maus intentos: a gramática. O fato absurdamente irônico de que a casa de tia Josephine se encontra na beira de uma colina talvez represente seu maior e mais intangível medo: o de perder seu passado.

O par de episódios “Serraria Baixo-Astral” encerra com competência a temporada, numa narrativa que deixa pontas soltas sobre questões tangentes à história, sempre sugeridas mas nunca explicadas, sobre o significado do misterioso olho que aparece em várias partes do cenário, na forma de janelas, objetos e… na tatuagem no tornozelo de Conde Olaf; além de sua possível relação com a tal sociedade secreta da qual os pais dos Baudelaire (que estão vivos, na verdade… para surpresa dos que, como eu, só haviam visto o filme de 2004) eram membros.

Não tem como não destacar a participação hilária de Patrick Warburton, que interpreta o narrador Lemony Snicket. Colaborador habitual do diretor Sonnenfeld, aqui ele tem uma de suas atuações mais interessantes. Sua expressão séria e sua constante cautela em nos contar as desventuras, contrastadas com sua pose ereta e olhar fixo, são a cereja de bolo do humor negro e non-sense da série. E é dever dele relatar que… mais episódios chegam em março, e estamos ansiosos para, com certeza, “não olhar” essa série de coisas terríveis e inapropriadas…

Fábio Reis é graduado em Design Industrial