Desventuras em Série (Netflix) – Temporada 3: a despedida dos Baudelaire

A saga dos órfãos Baudelaire finalmente chega à sua conclusão, na terceira – e última – temporada de “Desventuras em Série”.

Neste imprevisível final, a série preenche algumas pontas soltas deixadas nas temporadas anteriores sobre o passado da organização C.S.C, e revela as origens da malignidade de Conde Olaf… ainda que isso não justifique em nada suas atitudes, é claro.

O Narrador Personagem

Finalmente, nosso querido narrador é incorporado como uma personagem ativa no enredo, e acabamos descobrindo que Lemony Snicket é, na verdade, alguém que fala a partir de um futuro bem distante dos acontecimentos da saga dos Baudelaire, cuja narração pessimista é feita a partir de um conhecimento limitado dos fatos, até que seja alcançado pelo encontro com um curioso alguém que lhe revelará as informações que lhe restam para entender o paradeiro final dos órfãos Baudelaire.

Essa perspectiva de Lemony é um dos pontos fortes da linearidade narrativa da trama, que fecham com chave de ouro a empatia que já nutrimos pela personagem desde o primeiro episódio, pois, finalmente, agora somos nós, os espectadores, que sabemos mais do que ele.

Sua amada, Beatrice, finalmente tem sua identidade revelada para o espectador, sendo uma das figuras-chave da trama.

Mais Companhia

Ainda com apresentação de personagens novos – entre eles, um novo membro feminino da família Snicket em “O Escorregador de Gelo”, e uma nova personagem mirim em “A Gruta Gorgônea” – os mistérios da série vão convergindo no Hotel Desenlace em “O Penúltimo Perigo”, o lugar em que está marcado um evento para a reunião membros da C.S.C, onde ocorrerá o fatídico julgamento de Conde Olaf, o que constitui o grande clímax da série.

Códigos Comunicacionais

O tom espirituoso dos diálogos e a caracterização caricata de alguns personagens continuam presentes, e podem afastar os espectadores menos atentos da série desde o início, por parecer bobo demais; porém é apenas uma característica da série que serve de alívio cômico para amenizar o tom trágico da narrativa, sobre “desventuras” – palavra que aqui significa “assassinatos” – em série, tornando-a adequada o suficiente para ser contada ao público infanto-juvenil.

Muitos desses diálogos constituem, ainda, enigmas para desvendar os mistérios da C.S.C, funcionando como pistas para os Baudelaire, tornando a série um thriller infantil, que tem seu ápice no encontro no Hotel Desenlace.

Os enigmas nos diálogos proporcionam não apenas um disfarce cômico como também uma maneira metalinguística de evidenciar a subestimação que damos a narrativas teoricamente infanto-juvenis, tal qual a inteligência dos Baudelaire é frequentemente subestimada pelos adultos ao longo da série.

Incógnitas Incompreensíveis

Podemos perceber os interesses de cada personagem se esclarecendo, bem como a causa da chamada Cisão (a separação do “joio e o trigo” – expressão que aqui significa “os nobres e os vilões” – da organização C.S.C) que tem a ver com coisas tão pequenas quanto perigosas como um açucareiro, um fungo e lunetas.

Esses itens ainda são motivos para fãs da obra e leigos “coçarem a cabeça” sobre várias coisas que ficam incertas na série.

Metáforas Magníficas

Apesar da delimitação clara entre os nobres e os vilões estarem presentes desde o início, e nunca serem desmentidas, há ainda um interessante comentário sobre relativismo moral, que coloca os Baudelaire num impasse entre a legítima defesa e o respeito pelas leis, que se mostram totalmente ineficazes. “Desventuras em Série” é um grande ensaio sobre a fabilidade dos adultos.

Alegorias Absurdas

Essa fabilidade encontra eco em vários elementos absurdos ao longo da trama, que tenta, através da literalidade de ideias, metaforizar questões. Um exemplo são as vendas que os personagens têm que usar para irem a um julgamento, por alguém ter definido – de maneira literal – que a justiça é “cega”. Uma genial forma de criticar a própria falta de senso crítico, e que, não obstante, era mais uma armadilha contra os órfãos, para variar.

O último capítulo, “O Fim”, é cheio de simbolismos, com direito a referências bíblicas, que tornam implícita a questão do relativismo moral – desde a rejeição da lei pelos órfãos e posterior fuga para a ilha; até a caracterização do líder da comunidade da ilha, Ishmael, que lembra muito o estereótipo visual de representação de Deus, como um velho barbudo, e ainda avesso ao progresso, o que é quase uma alusão ao Deus do Antigo Testamento (o sufixo “el” é frequente nos nomes judaicos, provenientes do temo Elohim).

Não por acaso, Ish, como gosta de ser chamado, é tido como o fundador da C.S.C, e condena – de maneira justa mas radical – Conde Olaf. Após a Cisão – que pode ser entendida como uma alegoria do motim no Paraíso, que faz Lúcifer virar Satanás, que leva consigo a terça parte dos anjos – Ish ficou traumatizado e tornou-se um líder autoritário que não gosta de mudanças. De fato, Olaf não faz nada além de “matar, roubar e destruir. (João 10:10)”

A ilha – que lembra o Éden –, bem como a biblioteca misteriosa dos pais dos Baudelaire dentro de uma árvore, e a serpente de tio Monty levando a maçã com a cura para o micélio medusoide (representando o conhecimento do Bem e o Mal) são as referências mais claras.

Essa metáfora “gnóstica” – palavra que aqui significa “uma interpretação pertinente diferente da interpretação tradicional” – sintetiza a autonomia dos Baudelaire contra o autoritarismo inconsciente dos adultos.

Por falar em conhecimento, é nítido, ao longo da série, o desprezo dos vilões por leitura, intelectualidade e arte, ao contrário dos nobres – uma abordagem da maldade como produto da ignorância. Isso fica ainda mais nítido, sobretudo na cena da ópera no passado, em que Olaf dorme durante a apresentação.

Finais Abertos

A série se permite ser tão misteriosa que até os destinos de alguns personagens não são mostrados totalmente, ficando a cargo da imaginação do espectador entender ou interpretar o que aconteceu.

Os nobres Jerome Squalor e Babs e as vilãs Esmée Squalor e Carmelita Spats são exemplos de personagens cujos destinos nós só podemos conjecturar. Enquanto isso, alguns nobres vivem um final favorável e alguns vilões atingem a redenção.

O fim consegue ser, ao mesmo tempo, trágico e feliz. Assim, se encerra com dignidade essa trama, transmitindo a sensação de fragilidade da existência humana, porém a sempre inalienável esperança que torna o mundo, apesar de tudo, um lugar ao qual… “é melhor sempre olhar”.


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

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