Coringa: a grande surpresa do ano (Com Spoilers)

Depois que a divisão de cinema da DC Comics resolveu abrir mão de seu mal-sucedido universo compartilhado de filmes – que tentou fazer uma atrasada concorrência à Marvel Studios – eis que o chamado DCU (Universo DC), que tinha a pretensão de ser o equivalente da MCU (Universo Cinematográfico Marvel), passou por uma reformulação, vindo a se tornar o WDC (Worlds of DC), em que cada protagonista terá seus filmes com narrativa e estilo próprios, sem se ligar aos demais.

Dessa nova fase da DC no cinema, veio a inesperada proposta de dar um filme solo a um dos maiores vilões dos quadrinhos de todos os tempos: o Coringa. Eis que um personagem que nunca teve uma origem muito bem definida ao longo de sua história, passaria a ter uma história de origem no cinema.

Nitidamente inspirado em alguns filmes do período da Nova Hollywood, que compreendeu os anos 70 e 80, sobretudo clássicos como “Taxi Driver” e “O Rei da Comédia”, de Martin Scorsese; além de outros, como “O Estranho no Ninho” e “Laranja Mecânica”, o filme mostra uma Gotham suja, com lixos aos montes pelas ruas, indício de uma greve de lixeiros e metáfora para a corrupção generalizada nas instituições públicas e a apatia social reinante na cidade.

Com uma bela fotografia que banha os cenários noturnos de Gotham a iluminações amareladas e esverdeadas que proporcionam ambientes opressivos, e um belíssimo trabalho de design de produção, que confere à cidade um realismo urbano incrível de uma grande metrópole com edifícios antigos, acompanhamos o difícil cotidiano de Arthur Fleck, um homem que sofre de uma doença neurológica que lhe proporciona crises de riso incontroláveis quando se encontra nervoso. Isso faz com que ele experimente momentos de grande constrangimento público, o que o frustra grandemente.

Aliado a isso, temos o fato de que a vida parece não ter as melhores oportunidades para Arthur. Tendo o sonho de ser um comediante de stand-up, limitado por sua deficiência neurológica, ele precisa se esforçar para entender a arte de se fazer uma piada.

Numa determinada cena em que está com sua mãe no hospital, ele se vê sendo feito de chacota pelo seu apresentador de TV e comediante favorito. Arthur representa a parte negativa do dilema da comédia – uma arte que, em essência, diverte a uns, enquanto ofende a outros. A piada que Arthur tenta contar para a plateia – que começa com “quando eu dizia que eu queria ser comediante, todos riam de mim” – teria terminado melhor se ele tivesse concluído com “bem, e continuam rindo até agora” (a auto-depreciação geraria o humor). Ao invés disso, ele diz “bem, ninguém está rindo agora”. Arthur justamente dá a deixa para que ele mesmo seja a própria piada, por ter seu intelecto limitado e por se comportar de maneira estranha. O mais lamentável é que Arthur, muito mais do que querer ser engraçado, queria ser apoiado pela sociedade, e esta o desprezou.

A própria presença de Robert DeNiro interpretando o apresentador Murray Franklin é uma homenagem ao filme que mais inspira este aqui, “O Rei da Comédia”, em que DeNiro interpreta justamente o comediante fracassado que vira um criminoso para poder conseguir se apresentar em um programa de TV. Se lá, o apresentador interpretado por Jerry Lewis era seu ídolo, aqui, o próprio DeNiro interpreta o ídolo de Arthur Fleck, o que dá ao filme um hilário e irônico fan service. Ser desprezado pelo próprio ídolo é um tema com o qual DeNiro já estava familiarizado, agora invertendo os papéis.

Enquanto isso, Arthur tem que cuidar sozinho da mãe doente e conviver com constantes espancamentos que sofre de adolescentes durante o trabalho de palhaço para uma loja e para um hospital infantil.

O roteiro ainda faz questão de mostrar interações sociais mal-sucedidas de Arthur, que é tratado frequentemente com indelicadeza e desprezo. Seja por uma pessoa qualquer na rua, seja por seu chefe grosseiro, seja pela psiquiatra que parece não demonstrar preocupações verdadeiras com seu estado. Arthur sente-se um homem vazio. Após o corte de verbas do governo para programas sociais e venda de medicamentos, que são fundamentais para uma pessoa como ele, Arthur se vê num vazio ainda maior.

Não demora muito para que algo o faça surtar e perder qualquer bom senso. A trama é precisa na maneira em que conduz o destino de Arthur até sua queda moral total. Ao se ver sem amparo social, sem amparo fraternal, e descobrir que sequer possui amparo familiar, nem mesmo correspondência romântica, ele se vê num abismo que o leva a se tornar o personagem-título.

Controversamente, Arthur encontra sua redenção na violência, pela qual sente-se emancipado e triunfante. Impressionante o desenvolvimento de seu personagem, que, enquanto é espancado no metrô por três homens, utiliza a arma de seu amigo para se defender. Se o tiro ao primeiro homem flertava com a legítima defesa, e o segundo também, ainda que de maneira mais controversa; o terceiro, porém, é dado meramente pela vingança. O ditado “Três é demais” cairia bem aqui. Após executar o terceiro homem, Arthur dá os primeiros passos para se tornar o palhaço do crime.

A composição de Joaquin Phoenix é digna de prêmios. O retraído e contorcido corpo de Arthur passa a ser ereto quando vira o Coringa. A grande escada que tem que subir para chegar à sua residência é uma metáfora para a moralidade de Arthur. Uma cena mostra Arthur tendo que subir as escadas com muito esforço e com uma postura cabisbaixa. Porém, ao tornar-se Coringa, ele desce as escadas feliz, dançando e movimentando-se fluidamente. A subida é difícil. A descida é fácil. Na subida, ele sentia dificuldade. Na descida, ele deleita-se. Para ser alguém virtuoso, a vida não lhe deu as melhores retribuições. Mas um empurrão o levou de vez à frieza e crueldade. A maneira como desce as escadas triunfante é uma metáfora do abismo moral em que está caindo.

A peruca verde que usava como palhaço passa a dar lugar ao novo cabelo verde. A cor é simbólica, pois não é encontrada com facilidade no corpo humano (daí porque chroma-keys, por exemplo, usarem verde ou azul). Ao pintar o cabelo de verde, ele deixa de ser o simples humano Arthur, e passa a encarnar um símbolo. O roxo do terno, como de costume no cinema, simboliza a morte. Agora ele “veste” o morticínio como meio mórbido de auto-estima.

O modo como a história de Arthur é interligada com a de um certo menino filho de um milionário, é muito bem pensada. E a trama faz questão de representá-los da maneira mais mesquinha possível. Se Thomas Wayne representa os pais de família falsos moralistas e integrante de um sistema político corrupto, Bruce Wayne é um garoto tão engomadinho que, sem nenhuma fala, já consegue, só com sua aparição, despertar no espectador a noção de inveja que Arthur deve sentir dele. O mordomo Alfred está irreconhecível, como um homem escarnecedor e nada gentil ao ver Arthur.

Afinal, para entender a mente do vilão, é preciso desconstruir o herói, e tudo que ele representa. Isso lembra levemente a premissa que a Disney teve com “Malévola”, outro filme de revisionismo narrativo de origem a partir do ponto de vista do antagonista ou da figura vilã.

As risadas patológicas de Arthur, que eram quase sempre equivalentes ao choro, passam a diminuir, dando lugar a sorrisos mais largos e genuínos, ao passo que vai se validando para o mundo ao seu redor, ao seu modo. Antes, ele se via forçado a sorrir num mundo de caos, em que ele era a vítima de uma sociedade fria. Agora que ele mesmo está promovendo o caos, ele “sorri por último”, e “quem sorri por último, sorri melhor”. Essa é sua piada.

É genial que a conclusão da trama de Arthur se dê justamente com a origem da sua antítese: o Batman. O final “feliz” de Arthur é o início trágico de Bruce Wayne. Fazer do latrocínio do casal Wayne uma consequência da revolta social dos “palhaços” começada indiretamente por Arhur, une o ciclo do antagonista ao do protagonista.

“Coringa” é um brilhante estudo de personagem, que, ainda por cima, discute questões sociais, como a luta de classes, a corrupção, a delicada questão do armamento, e a psicopatia. Um divisor de águas dentro de produções baseadas em personagens de quadrinhos.


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

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