Cara x Cara (Netflix): o velho e o novo eu

Paul Rudd (“Homem-Formiga”) produz e estrela esta nova série da Netflix que consegue misturar muito bem comédia e drama.

Com o título original “Living with Yourself” (“Vivendo Consigo Mesmo”), a trama trata sobre Miles Elliot, um homem infeliz no emprego e no casamento, que, a pedido de um amigo, vai a um spa que promete transformar a vida de seus clientes.

Porém, essa transformação tem um significado um pouco mais bizarro, biológico e paradoxal do que Miles poderia imaginar. Neste spa, eles criam um clone de seus clientes que representam a melhor versão de si mesmos. E o que eles fazem com o corpo original? Bem… eles apenas… enterram. Isso mesmo.

A expressão “matar o velho eu” parece ser levada de forma literal pela clínica. Por alguma razão, porém, o corpo de Miles consegue sobreviver ao enterro, tomando consciência e saindo de debaixo do solo. Ao retornar para sua casa, acaba se deparando com o seu novo eu.

A partir de então, Miles precisa usar seu clone para fazer as tarefas que ele não tem tempo de fazer. Ao contrário de Miles, que parece viver a vida em piloto automático, seu clone consegue ter um insight visionário para um projeto na reunião da empresa em que trabalha, e ser um exímio contador de histórias carismático e interessante para as visitas de sua esposa.

Até aí, tudo bem. O problema é quando o clone passa a querer fazer certas coisas que Miles não deixou sob sua incumbência, como ter relações sexuais com sua esposa, ou interferir nos textos do livro que Miles está escrevendo. Afinal, o clone de Miles é ele, só que em outro corpo.

A narrativa, então, desenvolve-se de maneira sempre imprevisível, alternando entre o ponto de vista do Miles original, do Miles clone, e de sua esposa, Janet, de maneira clara e coesa. E a relação entre os dois Miles, inicialmente leve, vai ganhando contornos cada vez mais dramáticos e sombrios, proporcionando um interessantíssimo desenvolvimento de personagem.

“O Cara”

Existem histórias centradas na construção de universos interessantes e toda uma mitologia particular, enquanto outras focam mais na personalidade dos personagens. Esse último caso, sem dúvida, é o caso desta série, que gira em torno do personagem Miles, interpretado por um ator que consegue “carregar a obra nas costas” com maestria.

Paul Rudd, ator sempre competente, que começou a alçar certa popularidade no início de sua carreira com personagens como o coadjuvante Mike, em algumas temporadas da série “Friends”, e o Josh de “As Patricinhas de Beverly Hills”, passou a ser um colaborador constante nas comédias de Judd Apatow, não chegando a ter nenhum papel de grande destaque ao longo da carreira. Isso até alçar a popularidade (e protagonismo) absoluta, junto ao grande público, como Scott Lang em “Homem-Formiga” da Marvel, que deve ter sido um divisor de águas em sua carreira.

Após o competente filme da Netflix, “The Fundamentals of Caring”, que protagonizou, Rudd volta a trabalhar para a produtora de streaming com esta série, revelando um potencial dramático que até então eu ainda não havia visto. O ator, que parece ser um poço de carisma materializado em forma humana, aqui consegue mesclar seu ar inocente, sensível e cômico com um tom mais melancólico e obscuro. De tudo que lembro de já ter visto do ator, ouso dizer que aqui ele entrega a melhor interpretação de sua carreira.

Similares e originalidade

A trama de “Cara x Cara” remete quase que automaticamente ao hilário longa-metragem de comédia “Eu, Minha Mulher e Minhas Cópias”, de 1996, estrelada pelo ótimo Michael Keaton e dirigida pelo ótimo e saudoso Harold Ramis.

A diferença é que o filme de Ramis tinha um ar totalmente leve e um pouco mais família. Esta série aproveita a mesma premissa, desenvolvendo-a de maneira mais dramática, com uma narrativa sempre intensa, instigante e com ares de suspense, apesar do aspecto cômico. Parece que estamos vendo uma mistura de “Homem-Formiga” com “Adaptação”, filme escrito por Charlie Kauffman e dirigido por Spike Jonze, estrelado por Nicolas Cage.

A narrativa aqui também é mais sofisticada e ambiciosa, estruturando a própria edição de maneira não-linear, o que pode desafiar a percepção do espectador. Dessa forma, temos cenas que contam os mesmos eventos a partir de diferentes planos e enquadramentos, partindo das três diferentes perspectivas – do triângulo amoroso protagonista.

A caracterização do personagem também ajuda a situar o espectador. O Miles original sempre está com cabelo penteado para baixo, enquanto o clone tem o penteado para cima. E só o Miles original usa óculos.

Possíveis Subtextos

A trama é simples, e, ao mesmo tempo, intrincada. E, apesar de objetiva, evoca reflexões filosóficas e existenciais interessantes.

O conflito entre a versão original e a nova versão de Miles pode ser entendida como o choque entre passado e presente – visto que, quando existem cenas que mostram o início do relacionamento entre Miles e Janet, Miles era bem parecido com seu posterior clone. Ou seja, o clone não só é uma versão melhorada e alternativa de Miles, como ele também corresponde ao que Miles era no passado, antes de se tornar um homem apático e sem perspectivas.

A nível religioso, é inevitável não refletir na questão do livre-arbítrio. Como um ser responsável pela existência de seu próprio clone, Miles se acha no direito de exigir dele uma submissão aos seus interesses de substituição, assim como muitos podem entender, por exemplo, a submissão de um fiel religioso a um conjunto de doutrinas que ele acredita ser a Palavra de Deus, por entender que Ele requer isso de sua criação, feita “à Sua imagem e semelhança”. Na trama desta série, essa questão seria literal.

Menos é mais

A trilha sonora, apesar de simples, consegue trazer um senso de conflito e leveza, com um tema musical bem reconhecível que repete em cada episódio, marcando o cotidiano inusitado que Miles passa a experimentar.

A inserção de músicas como “Sail Away” de Enya, nos episódios iniciais, bem como a de “Road to Nowhere” dos Talking Heads, no episódio final, sintetiza bem as ideias e noções da trama.

Destaque para a modesta vinheta de abertura da série, em que a apresentação do título da mesma vai se alterando progressivamente de maneira cada vez mais nítida a cada episódio, brincando com a alternância de letras entre si, que representam o conflito de identidade de Miles.

Cada episódio termina com um instigante e genial cliff hanger, que nos aguça absolutamente a curiosidade para conferir o próximo episódio. Felizmente, ao mesmo tempo em que é dinâmica e interessantíssima, a história é objetiva, e não fica “cozinhando” o espectador, chegando a concluir seus ciclos narrativos em apenas 8 episódios, e com uma conclusão mais que inteligente que fornece uma concreta conciliação entre os dois Miles, ao mesmo tempo que deixa uma ponta solta de novos mistérios para uma segunda temporada, abrindo caminhos para mais elementos a expandirem a mitologia da série.

Para quem não aguenta séries muito longas, conferir a curtíssima primeira temporada desta brilhante série que mistura fantasia e ficção científica, é uma ótima pedida.


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

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