Aladdin (2019): remake com louvor

Depois de 20 anos desde o lançamento da animação clássica, a Disney nos brinda com uma refilmagem à altura do original, homenageando vários de seus aspectos, e, ao mesmo tempo, acrescentando novas ideias que tornam ainda mais interessante a dinâmica entre as personagens.

Este “Aladdin” contém toda a magia do original, com a mesma leveza e humor, e as mesmas canções, com letras levemente alteradas, e números musicais marcantes. Tudo isso junto a uma fotografia estonteante e um trabalho sofisticadíssimo de figurino, com muito mais cores, acessórios e decorações do que os figurinos simples da animação original.

É incrível a química entre Aladdin e Jasmine, bem como a de Aladdin e o Gênio, que remete totalmente à amizade da dupla do filme original. O ator Mena Massoud está bem como Aladdin mas é um pouco menos carismático e vibrante do que o da animação.

Naomi Scott rouba a cena em vários momentos como a princesa Jasmine, e o roteiro confere a ela mais presença e atitude do que a do original. O roteiro acrescenta ainda duas canções inéditas solo para a personagem, aumentando sua intensidade e sua participação na trama.

Will Smith como Gênio é uma das melhores coisas do filme. O ator consegue transmitir toda sua presença de espírito, ironia e senso de humor no papel que foi imortalizado por Robin Williams. Um trabalho notável que merece aplausos.

O ator ainda incorpora seus maneirismos de rapper nas músicas de maneira pontual, e seu jeito de dançar torna a sequência de “Príncipe Ali” melhor que a do original.

É claro que seria preferível ver um boneco totalmente modelado em CGI com um trabalho de captura de movimento no ator (como Thanos, em “Vingadores”, por exemplo), ou vê-lo realmente pintado (como a Gamora de “Guardiões da Galáxia”, por exemplo). Mas, infelizmente, ainda optaram por usar o próprio rosto do ator digitalmente pintado de azul colocado a outro corpo. Como já temido desde o controverso trailer do filme, isso deve ter demandado um complicadíssimo processo de colorização frame a frame, que, por não ser absolutamente perfeito, causa uma sensação de artificialidade, o que fica bem perceptível enquanto o Gênio movimenta seu rosto.

Dependendo da iluminação da cena em questão, causa estranheza olhar para as expressões faciais de Will Smith, bem como o espaço entre sua cabeça e o corpo, ainda mais por ser um rosto de alguém que não pertence àquele corpo em questão (o que é perceptível se percebermos como está a forma física do ator está nas cenas em que Gênio aprece em forma humana). Se o corpo foi modelado ou alterado tendo como base – ou não – o corpo de Will Smith, não entendo porque não fazer isso com o rosto também. Apesar dessa escolha visual controversa, não é nada que comprometa muito o resultado em geral. O carisma e o jeito do Gênio faz com que nos acostumemos – pelo menos em parte – com essa pequena estranheza visual.

Nas cenas em que está em forma humana, Will brilha da mesma forma.

Destaca-se o fenomenal trabalho de sua voz na versão dublada. O dublador Márcio Simões, que já havia sido a voz do Gênio original, retorna nessa versão, por também ser a voz oficial do ator Will Smith, aumentando ainda mais o senso de nostalgia para os espectadores brasileiros. Sua voz marcante parece não ter envelhecido um dia sequer.

A adição da personagem Dalia, interpretada por Nasim Pedrad, é um bônus mais que positivo. O alívio cômico da personagem é impagável. Destaque para sua dubladora na versão brasileira, a sempre competentíssima Sylvia Sallusti.

A única falha do filme é a personagem de Jafar. Apesar de ser um ator jovem, bonito e com foz fina, não é essa diferença em relação ao original que incomoda, e sim a falta de uma presença mais marcante e visceral. Um vilão como Jafar, assim como muitos vilões clássicos da Disney, pede a intimidação e o apelo espirituoso de um Christoph Waltz para o papel, por exemplo.

Os efeitos visuais estão de cair o queixo. As sequências de “Nunca Teve um Amigo Assim” e “Um Mundo Ideal” são de brilhar os olhos, e as soluções visuais encontradas para adaptar algumas ideias para o contexto live-action são brilhantes.

Obviamente, não há tanto espaço para explorar a pluralidade de transformações do Gênio de forma ilimitada como na animação, até também pela ausência da versatilidade que Robin Williams tinha, mas o trabalho feito com o Gênio de Will Smith beira à perfeição dentro das possibilidades do live-action.

O macaquinho Abu e o tapete mágico também estão muito bem concebidos visualmente, beirando à perfeição, e suas presenças são sempre marcantes.

Apesar do maior realismo de representação de Iago ter tirado toda aquela personalidade do Iago da animação, suas falas proporcionam sempre bastante humor e ainda conseguem conferir uma personalidade irônica tímida ao animal. O tigre Rajar é um pouco mais feroz do que o original e é impressionante restar a dúvida de se ele é um animal real ou digitalmente realizado.

“Aladdin” se revela o melhor live-action dessa nova safra de produções da Disney. O remake encontra relevância (além do objetivo de faturar alto em cima da nostalgia do público, claro) na melhor representatividade oriental dos personagens, na cenografia riquíssima e no maior destaque à Jasmine, honrando a memória de um dos maiores clássicos da história da animação do cinema.


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *